Artigos de Divulgação
 
  O INFERNO DO TEMPO VERBAL

Publicado em Língua Portuguesa, ano 4, n.º 56, junho de 2010

Há muito abandonado pela língua portuguesa, importância do pretérito perfeito composto ainda divide opiniões

Outro dia, me deleitava relendo A Divina Comédia, de Dante Alighieri, na primorosa tradução de José Pedro Xavier Pinheiro (quem quiser degustar essa delícia da poesia universal pode acessá-la em versão digital no endereço www.dominiopublico.gov.br). A leitura de tonitruantes versos como “Quando hei o bom caminho abandonado”, “A tais primores movimento há dado”, “‘Homem não sou – tornou-me – ‘mas hei sido’”, “Unicamente és tu que hás-me ensinado” e “A fera vês que o passo me há vedado” me fez refletir sobre esse tempo verbal que já existia no latim vulgar e dele passou a todas as línguas românicas e também às germânicas, mas falta ao português atual: o pretérito perfeito composto. Esse tempo, formado pelo presente do indicativo do verbo “haver” seguido do particípio passado do verbo principal (“hei abandonado”, “há dado”, “hei sido”, “hás ensinado”, “há vedado”), indica ação ocorrida no passado, em data não determinada, diferentemente do pretérito perfeito simples (“abandonei”, “deu”, “fui”, “ensinaste”, “vedou”), que originalmente indicava ação ocorrida em data precisa.

Na verdade, enquanto o pretérito perfeito simples remete à ação em si, no momento de sua ocorrência (mais ou menos como o aoristo grego), o perfeito composto enfoca o resultado atual de uma ação passada. Assim, se ontem escrevi um bilhete, hoje tenho o bilhete escrito (isto é, ele já está escrito hoje). A construção clássica “hei escrito o bilhete” significa que eu tenho o bilhete escrito, portanto ele foi redigido em algum momento não especificado do passado. Quem estudou inglês conhece bem a diferença entre o simple past (I wrote, “eu escrevi”) e o present perfect (I have written, “eu tenho escrito”). O primeiro se usa para ações passadas com data definida, e o segundo, para ações passadas com data indefinida ou para ações que começaram no passado e se estendem até o presente (neste último caso, equivale aproximadamente ao perfeito composto com “ter” do português: “tenho estudado muito nos últimos dias”, isto é, comecei a estudar dias atrás e continuo até hoje).

Tempos

Curiosamente, o português tem todos os tempos perfeitos compostos, tanto com “haver” quanto com “ter” (“havia/tinha feito”, “houvesse/tivesse feito”, “haja/tenha feito”, “haverá/terá feito”, “haveria/teria feito”, “houver/tiver feito”), menos o perfeito do indicativo, pois não temos mais “há feito”, e “tem feito” não tem exatamente o mesmo sentido de pretérito indefinido que nas demais línguas (a rigor, “tem feito” corresponde melhor ao inglês has been doing do que a has done). É por isso que a frase “O doutor matou a D. Clarisse!”, do romance Menino de Engenho, de José Lins do Rego, recebeu em outras línguas as versões Le Docteur a tué Dona Clarisse (francês), The doctor has killed Dona Clarisse! (inglês), Il dottore ha ammazzato Dona Clarisse! (italiano) e Der Herr Doktor hat Dona Clarisse ermordet! (alemão). Inversamente, a famosa frase de Galileu La matematica è l’alfabeto con cui Dio ha scritto l’Universo foi traduzida em português para “A matemática é o alfabeto com o qual Deus escreveu o Universo”. Até o espanhol, tão próximo de nós, emprega nesse caso ha escrito (e não escribió) el Universo.

Todas as línguas da Europa ocidental, do castelhano ao norueguês e ao romeno, têm esse tempo verbal, o que, de certa forma, deixa o português à margem do sistema. E, como vimos, nossa língua já teve tal tempo, que era corrente em textos da Idade Média e Renascença (como o soneto de Gregório de Matos que inicia com os versos “Ofendi-vos, Meu Deus, bem é verdade, / É verdade, meu Deus, que hei delinquido”).

O leitor poderia retrucar que a perda desse tempo verbal é irrelevante ao português, afinal o pretérito perfeito simples supre bem essa falta. Porém, estou convencido de que essa perda empobreceu o idioma (pelo menos na sua forma culta). Se não, analisemos a frase “Todos os dias, quando eu chegava, ele já tinha saído” (ou “havia saído”) Observe que o mais-que-perfeito “tinha/havia saído” indica uma ação que já estava concluída quando a outra (“chegava”) ocorria. Passando agora essa frase para o presente, teremos “Todos os dias, quando eu chego, ele já saiu”. Ora, o tempo da ação é presente, o que é atestado pelo adjunto adverbial “todos os dias” e pelo verbo “chego”. Entretanto, usamos o pretérito simples “saiu” quando, por analogia com a frase anterior, deveríamos ter “Todos os dias, quando eu chego, ele já tem saído” (ou “há saído”).

Há, pois, uma diferença entre o pretérito perfeito simples (“saiu”), em que os tempos da ação e do enunciado são ambos passados, e o composto, em que o tempo do enunciado é presente e o da ação é passado. (Para mais informações sobre a diferença entre tempo do enunciado e tempo da ação, confira o meu artigo Uma breve história do tempo… verbal em Língua n.º 38, dezembro de 2008).

Na linguagem popular, é comum dizermos “quando eu chegar, ele já saiu” em vez de “quando eu chegar, ele já terá saído”. Também usamos “tinha” no lugar de “teria” (“Se eu tivesse chegado a tempo, eu tinha encontrado com ele”), e assim por diante. Esses usos são reprovados pelo padrão culto do idioma. No entanto, o emprego – gramaticalmente correto – de “saiu” no exemplo acima é o resultado da incorporação à norma de um uso que antes era estritamente popular. Ou seja, o emprego do perfeito simples no lugar do composto nasceu na fala do povo e, pouco a pouco, conquistou a língua padrão. Com o tempo, o perfeito composto com “haver” desapareceu por completo do idioma, e seu equivalente com “ter” perdeu o sentido de passado.

Opinião

Restaram-nos somente alguns vestígios desse tempo verbal, em expressões estereotipadas como “é chegada a hora”, por sinal com o uso do auxiliar “ser” no lugar de “haver”, tal como ocorre em francês (l’heure est arrivée), italiano (è arrivata l’ora) e alemão (die Zeit ist gekommen), cujo sentido é “chegou a hora”. O que fazer em relação a isso? Evidentemente, não se pode reintroduzir na língua uma forma que não é mais usada, especialmente se os falantes não sentem falta dela. Alguns podem achar que, com isso, a língua ganhou em simplicidade (se bem que a gramática do português continua sendo uma das mais complexas dentre as línguas europeias); outros, que o idioma simplesmente empobreceu. Questão de opinião.

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