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DEUS NUMA PERSPECTIVA CIENTÍFICA E RELIGIOSA: QUEM ESTÁ COM A RAZÃO? |
Uma
idéia freqüentemente difundida em nossa sociedade, e reforçada
pelos meios de comunicação, é a de que a ciência
é fundamentalmente atéia, isto é, procura negar
sistematicamente a existência de Deus. Na verdade, ao contrário
das religiões, que postulam a existência de Deus como
um dogma incontestável, e chegam mesmo a descrever como Deus
é e como fez para criar o mundo, a ciência não
parte de nenhuma idéia preconcebida, mas, através da
análise fria dos fatos e da construção de teorias
sempre amparadas pela lógica, busca antes saber se Deus realmente
existe — isto é, se ele precisa necessariamente existir
para explicar a existência do Universo.
Assim, enquanto a religião simplesmente afirma a existência
de Deus — e também eventualmente do demônio, do
paraíso e do inferno — a ciência está preocupada
em verificar se isso é realmente verdade. E mais, se Deus existe,
então como ele é, e por que criou o mundo do modo como
é? É evidente que a questão da existência
ou não de Deus, e conseqüentemente do como e do porquê
de sua existência, não é propriamente uma questão
científica, já que a ciência, por definição,
só se ocupa do estudo de dados observáveis, isto é,
sujeitos à experiência, e Deus não parece ser
um dado observável. Por isso, a discussão sobre a existência
de Deus é muito mais uma discussão ontológica
do que científica ou mesmo religiosa, e muitos filósofos
e pensadores têm-se debruçado sobre esse tema ao longo
dos séculos. Talvez seja desalentador — ou quem sabe
alentador — assinalar que já se conseguiu produzir tantas
teorias convincentes sobre a inexistência de Deus quanto sobre
sua existência, o que significa duas coisas: em primeiro lugar,
que a compreensão desse grande mistério transcende nossa
capacidade intelectual (sem dúvida, não somos os seres
mais inteligentes do Universo); em segundo lugar, tudo depende da
conceituação que façamos de Deus.
O fato é que Deus é, de todos os conceitos, o mais difícil
de definir, e o que admite mais definições diferentes.
Por isso mesmo, eu arriscaria dizer que o problema da existência
de Deus é antes de mais nada um problema lingüístico:
o que tanto a ciência quanto a religião buscam é
saber se existe um referencial extralingüístico para a
palavra Deus. Como nos ensina a lingüística, uma palavra
representa um conceito, uma idéia, que pode perfeitamente existir
em nossa mente sem que para isso precise corresponder a algum objeto
ou fenômeno do mundo real. Ora, o conceito de Deus, embora impreciso
e variável de uma época a outra, de uma cultura a outra
e até de uma mente a outra, é basicamente um conceito
lingüístico, o que equivale a dizer que a palavra Deus
possui um significado, qualquer que ele seja. A questão de
sabermos se a esse significado corresponde um referente depende fundamentalmente
do significado adotado.
***
Dizem
que a melhor maneira de compreender a mente de um artista é
estudar sua obra. Assim, se quisermos compreender a mente de Deus,
devemos estudar o mundo que ele supostamente criou. É precisamente
o que faz a ciência. A física atual parece estar bem
perto de uma explicação definitiva sobre como o universo
se estrutura e também de como se originou. Resta ainda explicar
por quê. Mas, para tanto, poderíamos lançar mão
de um princípio filosófico chamado princípio
antrópico: talvez o mundo seja como é simplesmente
porque é o único possível. Alguns físicos
demonstraram que se as leis da física fossem apenas um pouco
diferentes do que são, o universo seria uma criação
instável; talvez até pudesse existir, mas não
ofereceria condições para o desenvolvimento da vida
como a conhecemos — muito menos de vida inteligente. Assim,
em outro universo, diferente deste, nós simplesmente não
existiríamos, e conseqüentemente a pergunta “Deus
existe?” perderia todo o sentido. Aliás, o cientista
Andrei Linde, da Universidade de Stanford, propôs uma
hipótese científica que postula não o universo,
mas sim o multiverso — uma infinidade de universos diferentes
uns dos outros, isto é, dotados de leis físicas diferentes.
No entanto, segundo essa hipótese, apenas uns poucos dentre
todos esses universos permitiriam a existência da vida como
nós a concebemos, em especial da vida inteligente, capaz de
formular a pergunta “Deus existe?”. Pode até ser
que haja outros seres inteligentes habitando outros universos e fazendo
essa mesma pergunta, mas provavelmente nós nunca poderemos
entrar em contato com eles.
A própria questão de o universo ter tido uma origem
não implica necessariamente que tenha tido um Criador, até
porque isso recolocaria a mesma questão em outros termos: quem
criou esse Criador? Assim, em vez de postular que Deus existe, é
um senhor de barbas brancas que mora no céu e rege o nosso
destino de maneira caprichosa e arbitrária, a ciência
procura uma razão lógica para a existência ou
inexistência de um Criador, e mais, busca formular hipóteses
plausíveis sobre sua possível configuração.
E isso sem partir de idéias preconcebidas, o que significa
dizer que os verdadeiros cientistas estão dispostos a curvar-se
diante das evidências, quaisquer que elas sejam, mesmo que estas
contrariem suas crenças mais arraigadas. Já não
é bem essa a postura dos religiosos.
Afinal, se a ciência conseguir provar que o universo em que
vivemos é o único possível — a única
alternativa a ele seria o nada, e o nada, por definição,
não existe —, então ficaria definitivamente descartada
a necessidade de postular um Criador. Se for verdade, como disse Albert
Einstein, que “a coisa mais incompreensível a respeito
do Universo é o fato de ele ser compreensível”,
e se, por conseguinte, chegarmos a uma compreensão racional
de toda a existência, então teremos chegado à
“morte de Deus” de que falou Nietzsche. Se, por outro
lado, a ciência jamais conseguir explicar racionalmente o como
e o porquê da existência, a crença em Deus permanecerá
preservada, já que seremos obrigados a aceitar a existência
de algo maior, que transcende nossa compreensão, e que eventualmente
é o que chamamos de Deus.
Desse modo, sem querer ser excessivamente agnóstico, creio
que, muito mais importante do que sabermos como Deus é, é
sabermos como ele não é. A diferença
básica entre as explicações científicas
sobre a origem e a natureza do universo e as “explicações”
mísitico-religiosas é que aquelas procuram basear-se
nos fatos observáveis e na lógica, ao passo que estas
se baseiam em dogmas, isto é, em afirmações não
comprovadas e não comprováveis que têm sido dignas
de crédito apenas em função de quem as proclamou,
geralmente algum líder religioso carismático que afirma
ter tido uma “revelação” feita a ele pelo
próprio Deus.
Não sabemos ao certo qual das duas espécies de explicações
sobre a origem do universo — a científica ou a religiosa
— está correta e talvez nunca cheguemos a saber. Mas,
sem dúvida, podemos afirmar que a explicação
científica é mais provável do que a religiosa.
Em outras palavras, é bem mais provável que o mundo
tenha se originado de algo parecido com o big bang do que
com qualquer descrição cosmogônica de qualquer
tradição mitológica, seja o Gênesis judaico-cristão,
seja a cosmogonia greco-romana, ou a hindu ou a chinesa. Além
disso, a explicação científica é única
— as pesquisas de todos os cientistas da atualidade convergem
para uma mesma teoria — ao passo que as explicações
religiosas são tantas quantas são as religiões,
e são todas conflitantes entre si. (Cada religião reivindica
para si o monopólio da verdade e acusa de heresia a explicação
das demais religiões.) Mais ainda, as teorias científicas
procuram se adequar aos fatos e não fazer os fatos se adequarem
às suas teorias. Por isso, se novas evidências mostrarem
que a teoria do big bang está errada, os cientistas
terão certamente a humildade de reconhecer o fato e alterar
a teoria, como, aliás, já vêm fazendo ao longo
dos séculos. É o que se chama de mecanismo autocorretivo
da ciência. Já as doutrinas religiosas são imutáveis
e resistem teimosamente a todas as evidências empíricas.
Mas, como eu disse, se queremos compreender um pouco a mente de Deus,
devemos observar sua obra, isto é, a natureza. No entanto,
é chocante vermos que muitas religiões pregam exatamente
que contrariemos a natureza, e isso em nome de Deus. Em primeiro lugar,
se observarmos atentamente a natureza, veremos que nela não
existe a noção de certo e errado, de bom e mau, de justo
e injusto. Existem apenas leis que devem ser obedecidas para manter
o equilíbrio, seja físico, seja biológico. Se
alguns animais são predadores e se alimentam de outros animais,
isso não é cruel, é apenas natural, e essa forma
de alimentação tem garantido a perpetuação
da vida na Terra há milhões de anos. A noção
de crueldade é um conceito fundamentalmente humano, isto é,
é a consciência humana que classifica arbitrariamente
o que é cruel e o que não é (e essa classificação
varia de época a época e de lugar a lugar; basta lembrarmos
que sacrifícios humanos eram praticados em épocas passadas,
justamente por motivos religiosos), e por isso vemos crueldade em
coisas que não são intrinsecamente cruéis. Até
aqui, não há nenhuma novidade. Entretanto, muitas religiões
pregam que façamos certas coisas porque “Deus assim o
quer”, coisas que contrariam a ordem natural. Por exemplo, existe
na natureza um mecanismo de controle biológico chamado eugenia.
Como a sobrevivência na selva é basicamente competitiva,
apenas os seres mais bem dotados fisicamente têm condições
de sobreviver. Por isso, embora todo animal ame seus filhotes, se
um filhote nasce defeituoso, a própria mãe exerce um
controle de qualidade semelhante ao que é feito na linha de
produção das indústrias e, assim, elimina esse
filhote antes que os predadores o façam. Isso porque a lei
básica da natureza biológica é a da perpetuação
e do aprimoramento genético das espécies. O indivíduo
defeituoso não tem condições de sobreviver para
procriar, e se conseguir, provavelmente dará origem a outros
indivíduos igualmente falhos, o que porá em risco a
continuidade de sua espécie. Se analisarmos por esse ângulo,
a natureza é extremamente sábia em suas leis. No entanto,
a eugenia entre seres humanos é veementemente repudiada por
todas as religiões, pois, segundo elas, “a vida é
um dom de Deus” e não cabe ao ser humano decidir quem
deve ou não viver. Por essa mesma razão, as religiões
têm-se colocado contra o aborto e a eutanásia, mesmo
de indivíduos que não têm a menor possibilidade
de sobreviver dignamente, e, numa defesa intransigente — eu
diria burra — da vida, condenam a uma existência miserável
criaturas para quem viver é um fardo pesado demais de carregar.
E tudo porque supostamente “essa é a vontade de Deus”.
(Será que é mesmo?)
A nudez em público também é proibida na maioria
das comunidades humanas por razões religiosas, embora todos
os animais andem nus sem que isso seja imoral; no caso do catolicismo,
a moral proíbe aos sacerdotes o matrimônio e o sexo,
indo mais uma vez contra a natureza, isto é, contra Deus. (A
meu ver, o absurdo voto de castidade dos sacerdotes e a educação
repressora dos seminários católicos deixam claro por
que há tantos padres pedófilos.)
É evidente que há inúmeras implicações
éticas em todas essas questões e, certamente, sem respeito
a princípios éticos (sejam eles religiosos ou leigos),
não haveria civilização. No entanto, é
preciso lembrar que não existe uma ética universal,
existem éticas particulares de comunidades e de épocas
particulares. Além disso, a finalidade de toda ética
é — ou pelo menos deveria ser — a busca do bem.
Por isso, me parece que uma ética mais próxima dos sábios
princípios criados pela natureza está ao mesmo tempo
muito mais próxima do bem — e, portanto, de Deus —
do que uma moral fundada em dogmas estabelecidos arbitrariamente por
líderes religiosos carismáticos e autoritários.
Em outros termos, proibições como não comer certos
alimentos ou não fazer sexo em certos dias da semana e imposições
como orar, jejuar e autoflagelar-se, estabelecidas pelas religiões,
não conduzem a nenhum tipo de bem.
Nessa perspectiva, discussões sumamente importantes para a
própria sobrevivência da espécie humana, sobretudo
em condições social e moralmente dignas, como o controle
da natalidade e o planejamento demográfico, por exemplo, acabam
sempre empanadas por posições dogmáticas intransigentes
de grupos religiosos que, em nome de Deus, contrariam a própria
ordem natural do mundo, segundo eles criada por Deus. Esses dogmas,
postulados em nome de Deus sem sua real autorização
por manipuladores religiosos, conscientes ou inconscientes, honestos
ou desonestos, são exatamente o oposto do que Deus —
isto é, a natureza, o universo — parece ter estabelecido
como leis. Paradoxalmente, parece que a ciência tem andado mais
próxima de Deus do que a religião.
Aliás, descobertas recentes no campo de uma nova ciência,
a neuroteologia, parecem indicar que a própria tendência
humana a acreditar no sobrenatural, no divino — aquilo que chamamos
de religiosidade ou de espiritualidade — tem uma explicação
biológica. Em outras palavras, somos programados geneticamente
para acreditar em Deus. Em seu livro Why God won’t go away
(Por que Deus não vai embora), o neurocientista norte-americano
Andrew Newberg, da Universidade da Pensilvânia, explica que
existe uma região do cérebro localizada no lóbulo
parietal esquerdo que é a responsável pela definição
da fronteira entre o eu e o restante da realidade. Durante o chamado
transe místico (que ocorre na prática meditativa ou
numa prece fervorosa, por exemplo), o fluxo de informações
neurais, provenientes dos sentidos, que circulam por essa região
vê-se comprometido: o resultado é o apagamento da fronteira
entre o eu e o mundo circundante, levando a consciência a uma
sensação de fusão com a totalidade da existência.
É o que os místicos chamam de experiência
totalizante, a sensação de tornar-se um com o Todo.
Conseqüentemente, o que se tem é um estado de consciência
expandida. Assim, as “revelações” religiosas,
o estado de iluminação — ou estado de graça
—, a sensação de falar com Deus e até mesmo
o fenômeno da autocura, freqüentemente atribuído
ao milagre da intervenção divina, são na verdade
processos biológicos que a ciência caminha rapidamente
para compreender.
***
É próprio da postura
religiosa a defesa incondicional da doutrina, o que resulta, as mais
das vezes, numa atitude arrogante e autoritária. Nesse sentido,
tenho uma particular admiração pelo budismo, embora
não seja — nem pretenda me tornar — budista. Certa
vez, o falecido astrônomo norte-americano Carl Sagan perguntou
ao Dalai Lama como o budismo reagiria se a ciência conseguisse
provar a inexistência da reencarnação, um dos
pilares da doutrina budista. Sua Santidade respondeu que, nesse caso,
a doutrina teria de mudar. Essa é uma atitude extremamente
moderna e democrática provinda de um líder religioso.
Mais do que isso, é uma atitude sábia. É uma
pena que poucos líderes religiosos tenham tal sabedoria e tal
humildade.