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Publicado em Língua Portuguesa, ano 4, n.º 54, abril de 2010 O modo como os povos reagiram ao bilinguismo pode revelar curiosas formas de convivência entre as culturas Um poliglota, isto é, alguém que sabe falar várias línguas, costuma ser alvo de admiração, pois, para muitos, dominar a própria língua já parece um desafio; dominar mais de uma, então, nem se fala! No entanto, aprender um idioma é das tarefas que exigem menos Q.I. (quociente intelectual), tanto que todo mundo aprende a falar, até os portadores de algum déficit mental (exceto em casos muito graves, evidentemente). O aprendizado de duas ou mais línguas é ainda mais fácil quando se dá na infância: uma criança que aprende simultaneamente dois idiomas terá ambos como maternos e, por consequência, será fluente em ambos. Isso é mais comum em sociedades que falam mais de um idioma. Muitos países têm mais de uma língua oficial ou têm uma língua oficial que convive com línguas regionais e dialetos. Na Suíça e na Espanha há quatro idiomas oficiais, mais um sem-número de dialetos. A Índia é célebre pela profusão de línguas (mais de 400, das quais 23 oficiais). Em todos esses casos, temos uma situação de plurilinguismo, cujo tipo mais comum é o da sociedade que fala duas línguas. Nesse caso, trata-se de bilinguismo ou diglossia. Alguns autores distinguem entre bilinguismo e diglossia, enquanto outros usam esses termos como sinônimos. Para os que fazem a distinção, o bilinguismo é a convivência, numa comunidade, de duas línguas de igual status, ao passo que a diglossia pressupõe que uma tenha status superior ao da outra (um idioma oficial e um dialeto, por exemplo). Em ambos os casos, o falante deve manejar com total fluência os dois sistemas linguísticos. Origens do bilinguismo Todo grupo humano tem sua língua. No entanto, desde cedo contatos entre grupos obrigaram um deles a aprender a língua do outro para que fosse possível a intercomunicação. Quando esse contato é permanente, como no caso em que um povo ocupa um território já habitado por outro, um dos dois povos – às vezes ambos – deve adotar a língua do outro, embora em geral não renuncie a continuar falando sua própria língua. Nessa situação, as crianças são educadas em ambas as línguas. As línguas postas em convívio são chamadas de adstratos. Quando uma é suplantada pela outra em importância, chegando a desaparecer, torna-se língua de substrato. Nossos indígenas conviveram com o português no período colonial. Na época, o português e a língua geral eram adstratos, tendo cada uma seu lugar de uso: os bandeirantes usavam a língua geral com os nativos e o português com os membros da Coroa. Quando, por obra do Marquês de Pombal, a língua geral foi proibida e o português foi tornado idioma oficial do ensino, o dialeto indígena passou a ser substrato do português do Brasil, tendo deixado marcas em nosso léxico e pronúncia. Mais tarde, a chegada ao país dos imigrantes europeus e asiáticos fez com que, nas regiões onde eles se estabeleceram, o português apresentasse influências fonéticas e lexicais dos imigrantes. A língua que chegou depois não suplantou a que já existia, mas ocorreu o contrário (os imigrantes é que adotaram o português). Como não falavam bem a nossa língua, é natural que se exprimissem misturando ao português sons e palavras de sua língua. Hoje, mesmo quem não descende de imigrantes mas vive em regiões que receberam ondas de imigração, como o Sul do Brasil, traz resquícios da língua dos imigrantes. Dizemos que os idiomas dos colonos formam um superstrato linguístico ao português do Brasil. Mas a situação de bilinguismo pode perdurar séculos numa região. Muitos países bilíngues, como Bélgica e Canadá, não dão qualquer mostra de que tendam a abandonar uma das línguas em prol da outra. É que a própria identidade nacional deles se construiu sobre a base da identidade étnica e cultural dos povos que os formaram. Assim, manter viva a própria língua mesmo dominando a língua do outro é uma forma de alimentar um sentimento de pertencimento, de familiaridade e de orgulho. Nesses países, a população conhece as duas línguas, mas cada parcela tem apenas uma língua nativa – a outra é de intercomunicação. Muitos países em que há poliglossia só têm uma língua oficial; as demais são consideradas dialetos, como na China o cantonês em relação ao mandarim. Na maioria dos casos, o idioma oficial é o da classe dominante (por exemplo, o colonizador europeu no caso dos países africanos); as línguas nativas, por terem seu uso restrito ao ambiente doméstico e às classes mais baixas da população, são estritamente orais, não produzindo literatura nem comunicação de massa (livros, jornais, rádio, TV, internet). Mas há línguas de cultura – como o occitano, no sul da França, que produziu importante literatura na Idade Média e ainda tem expressão escrita – que nem por isso são reconhecidas como oficiais em seus países. Poliglotas Para o gramático Evanildo Bechara, temos de ser poliglotas em nossa própria língua. Ele quis dizer que devemos dominar os vários registros linguísticos, ou níveis de linguagem (formal, semiformal, informal, popular), para nos comunicar de maneira eficiente em cada lugar e situação. Há uma “língua” portuguesa mais adequada para proferir um discurso, outra para bater papo, e assim por diante. Assim, dominar o português é conhecer as várias “línguas” dentro da língua e saber usá-las com propriedade, na hora e com a pessoa certa. Apesar disso, todas essas “línguas” existentes dentro do português nada mais são do que diferentes usos do próprio português. Mas, em muitos países, situações diferentes de comunicação exigem idiomas distintos. Na Índia, usa-se o inglês para tratar de assuntos formais e falar com autoridades, ao passo que as línguas nativas são reservadas a temas domésticos. No Paraguai, o espanhol é a língua das ruas e o guarani, do lar. O mesmo vale para o inglês e o gaélico na Irlanda. Koiné Toda língua oficial é uma koiné, uma mistura de dialetos. Um deles (em geral, o da classe dominante) serve de base para a constituição do idioma, mas os outros contribuem principalmente com palavras e expressões. Essa é uma das causas da irregularidade fonética de alguns vocábulos. O português se constituiu como idioma oficial de Portugal e dos demais países lusófonos a partir do dialeto falado em Lisboa. Mas esse dialeto foi enriquecido com palavras dos falares do norte e do sul de Portugal. Por isso, embora o grupo pl no início das palavras latinas tenha evoluído no português padrão para ch (lat. plattu, planu > port. chato, chão), há palavras, como “prazer” (do latim placere), que apresentam pr no lugar de ch. É que provêm de outros dialetos da Península Ibérica, nos quais a evolução fonética seguiu outros rumos. Um exemplo clássico de koiné é o alemão moderno, criado por Lutero no século 16 para a tradução da Bíblia. Tendo por base o dialeto bávaro, então já bastante difundido, Lutero adotou palavras de outras regiões da Alemanha para que todos entendessem o texto bíblico, não importa qual fosse o seu dialeto nativo. |
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