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  O GUARDA-CHUVA DA PALAVRA

Publicado em Língua Portuguesa, ano 4, n.º 53, março de 2010

Como a unidade linguística representada por um vocábulo pode comportar mais de um termo

Se perguntarmos a qualquer pessoa o que é uma palavra, a resposta parecerá intuitiva. Afinal, a língua é feita de palavras e é com elas que pensamos e nos comunicamos. Basta dizer que as línguas são consideradas linguagens verbais porque verbum em latim quer dizer “palavra”.

No entanto, a palavra é, de todas as unidades linguísticas, a mais difícil de definir. Dentro de uma palavra, é relativamente fácil reconhecer os morfemas – onde termina um prefixo e começa um radical, onde termina o radical e começa um sufixo –, assim como é fácil (para quem não fugiu da escola, evidentemente) delimitar as orações de um período, as frases de um parágrafo, e assim por diante. Mas tudo se complica quando temos de estabelecer as fronteiras entre as palavras.

Critérios

Um primeiro critério de delimitação é o dos brancos gráficos: palavra seria toda sequência de letras isolada entre dois espaços em branco (esse é o critério que os processadores de texto utilizam para contar as “palavras” de um texto). No entanto, esse critério é extremamente falho. Primeiro, a maior parte das línguas do mundo não tem expressão escrita ou não tem escrita alfabética. Segundo, esse critério depende das regras ortográficas em vigor, as quais são fixadas de forma muito arbitrária (por exemplo, a recente reforma na ortografia do português transformou “dia-a-dia” em “dia a dia”: o que era uma palavra agora são três?). Ao mesmo tempo, sequências de letras como “ao” “pela”, “num”, “daquele”, são contrações de duas palavras: “a” + “o”, “por” + “a”, etc. Temos ainda situações como “dar-te” e “falando-lhe”, em que ninguém duvida tratar-se de verbo e pronome unidos por hífen.

Abandonando esse critério, tentou-se definir palavra como toda sequência de fonemas dotada de um acento tônico. O problema é que há palavras com dois acentos tônicos (“automaticamente” tem acentos em ma e men) e palavras sem nenhum, como os monossílabos átonos “a”, “em”, “te”, etc.

Segundo o critério morfossintático, a palavra seria qualquer forma livre mínima, capaz de aparecer sozinha ou de formar uma frase. Assim, “fogo” seria uma palavra, pois atende a ambas as condições, mas ‑inho, sufixo diminutivo, não seria, pois não atende a nenhuma. Só que os artigos e as preposições não atendem a essas condições e, no entanto, são palavras.

Temos ainda o critério da separabilidade. Uma palavra seria um todo indivisível no enunciado. Por isso, “guarda-chuva” é uma palavra: podemos dizer “guarda-chuva velho”, mas não “guarda velho chuva”. Ao contrário, podemos dizer indiferentemente “lavagem de carros automática” ou “lavagem automática de carros”. Por esse critério, “guarda-chuva” é uma palavra, mas “lavagem de carros” são três. Mas, e “guarda florestal”, é uma ou são duas palavras? Afinal, podemos dizer “guarda florestal experiente”, mas não “guarda experiente florestal”. Inversamente, temos “dar-te-ei”, em que o pronome se insere no meio do verbo.

Compostos

Enfim, o que parecia simples e óbvio tem se revelado uma das grandes dores de cabeça dos linguistas. Isso porque outros idiomas apresentam ainda outros problemas. No inglês, grafa-se may not, must not, mas cannot. Obviamente, essa incoerência gráfica não impede que se reconheça neste último o verbo can e o advérbio not. Há ainda os phrasal verbs, como go out, get in etc., em que a suposta preposição é, na verdade, um prefixo posposto.

Em alemão, há verbos cujo prefixo ora vem anteposto e soldado ao radical, ora separado e distante do verbo (por exemplo, ich will heute ausgehen, “quero sair hoje”, mas ich gehe heute aus, “vou sair hoje”).

O alemão apresenta ainda a possibilidade de juntar palavras para formar compostos (às vezes quilométricos) de maneira muito mais livre do que em português. Muitos desses compostos são de uso local e momentâneo e sequer chegam a ser dicionarizados. É o caso de Produktionsprogramm, “programa de produção” (uma palavra?), que tem o mesmo status sintático e semântico de produktives Programm, “programa produtivo”, que são duas.

Para tentar solucionar o impasse, o linguista francês Bernard Pottier substituiu a imprecisa noção de palavra pela de “lexia”. Para ele, lexia é toda unidade memorizada, toda sequência linguística que já temos estocada na memória, seja ela simples (“roupa”), composta (“guarda-roupa”), complexa (“lavagem automática de roupas”) ou textual (“roupa suja se lava em casa”).

Articulação

Pelo princípio da múltipla articulação, fonemas formam morfemas, que formam palavras, que formam sintagmas, que formam orações, que formam frases, que formam parágrafos, que formam textos ou discursos. Até o nível da palavra, temos inventários fechados (embora novos morfemas ou palavras possam ser introduzidos na língua, no ato de fala o repertório já está dado ao falante e consta nos dicionários); a partir do nível do sintagma, temos inventários abertos. Isso significa que, a cada ato de fala, o número de palavras disponíveis é finito, mas o número de sintagmas, orações e frases que podemos construir é infinito.

O problema é que, com o tempo, alguns sintagmas vão se petrificando, tornando-se pouco a pouco lexias complexas, a seguir lexias compostas (quando perdem a capacidade de flexão interna e de inserção de elementos) e, finalmente, lexias simples (quando se perde a consciência da composição: filho de algo > fidalgo). Até alguns anos atrás, “aquecimento” e “global” eram duas lexias simples que poderiam entrar em qualquer frase, mas dificilmente apareciam juntas. De repente, a sequência “aquecimento global” se tornou – infelizmente – comum em nossos diálogos e já é uma unidade estocada em nossa memória, isto é, uma lexia complexa.

“Mesa” e “redonda” eram duas lexias simples que às vezes se encontravam (quando alguém falava sobre uma mesa cujo tampo tem formato circular), mas, num certo momento, passou-se também a usar a expressão “mesa redonda” para falar não do móvel mas de uma reunião de pessoas para discutir assuntos profissionais, a qual costumava ocorrer em volta de uma mesa circular. Ou seja, o uso metonímico fez com que “mesa redonda” se tornasse lexia complexa e, a seguir, composta, passando a ser grafada “mesa-redonda”.

Detectar o momento exato em que uma lexia complexa se transforma em composta (isto é, a passagem do inventário aberto ao fechado) é que é o grande desafio da linguística. A razão é que em todos os níveis da língua existe subordinação. Apenas em alguns há também coordenação. Na sílaba, as consoantes são subordinadas à vogal; no sintagma, os adjuntos são subordinados ao núcleo; no parágrafo, as frases do desenvolvimento são subordinadas ao tópico frasal. Na palavra, em princípio, os afixos e desinências são subordinados ao radical, mas existem também palavras compostas, que têm dois radicais coordenados.

Milkman

Como vimos, toda palavra composta começa como complexa, formada de palavras autônomas, cada uma com sua flexão, incluindo a possibilidade de intercalação de elementos. Como as palavras complexas tendem a se firmar no léxico, acabam virando compostas. Foi assim que o inglês milk man (“homem do leite”) se tornou milkman (“leiteiro”), com a transformação de man em sufixo. A grafia, nesse caso, nem sempre é esclarecedora: palm tree (“árvore de palma”) poderia, pela mesma lógica, ser grafada palmtree (“palmeira”). Então, como determinar se Produktionsprogramm é uma palavra ou são duas?

A solução para esse impasse parece ser a adoção do chamado critério semiotáxico. (Digo “parece”, pois ainda é preciso realizar muitos testes para ver se ele funciona em todos os casos de todos os idiomas. Como em toda ciência experimental, um único contraexemplo joga por terra toda uma teoria.) Segundo esse critério, quando duas lexias simples se encontram num enunciado formando um sintagma, o significado deste é a soma dos significados das lexias. Assim, “mesa redonda” designa um objeto que é, de fato, uma mesa e tem formato redondo. Mas, quando o significado do todo já não é mais a soma dos significados das partes, é sinal de que a lexia complexa se tornou composta. “Mesa-redonda” no sentido de “reunião” não é, na verdade, nem mesa nem redonda. É por isso que, nessa acepção, a lexia ganhou hífen.

Aliás, a recente abolição do hífen em palavras como “dia a dia” e “mão de obra” só serviu para obscurecer a relação entre os constituintes da lexia. Embora o uso desse sinal gráfico seja complexo em todas as línguas que o adotam, o critério semiotáxico seria um bom parâmetro para racionalizar o uso do hífen. Infelizmente, os autores das reformas ortográficas nem sempre são versados em linguística ou têm conhecimento de suas teorias.

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