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Publicado em Língua Portuguesa, ano 4, n.º 50, dezembro de 2009 Perguntar o que os signos significam é o primeiro passo para quem quer entender o mundo Se a rosa tivesse outro nome, ainda assim teria o mesmo perfume. Para que servem as palavras? Essa pergunta pode parecer absurda, mas, se pararmos para refletir, veremos que elas são nossa principal conexão com o mundo. Simplesmente não podemos conceber aquilo que não podemos nomear. As palavras são os signos que mais diretamente representam nossa visão de mundo. É evidente que palavras frequentemente podem ser decompostas em signos menores, mas não pensamos nem nos expressamos por radicais ou afixos: são as palavras que estão em nossa memória, estocadas para serem postas em discurso tão logo precisemos delas. Além disso, nem todas as palavras – talvez só uma minoria – podem ser traduzidas por outros signos, como desenhos, gestos, ruídos… Nem todas as palavras representam “coisas” do mundo exterior à linguagem: palavras puramente gramaticais como preposições, conjunções e artigos são o cimento que une os tijolos da comunicação, como substantivos, adjetivos, verbos e advérbios. Estes são chamados de palavras lexicais, cheias ou exteroceptivas porque nos remetem ao “mundo”, a vivências físicas ou mentais que abstraímos e guardamos na mente sob a forma de conceitos, que podem representar fatos da natureza, da criação humana, da sociedade ou da nossa subjetividade intelectual e afetiva. Já as palavras gramaticais são chamadas de vazias ou interoceptivas porque não representam conceitos, só exercem funções dentro da própria língua, como conectar ou substituir palavras cheias. A economia proporcionada pela linguagem articulada consiste no fato de que podemos usar um número finito, embora relativamente grande, de signos para dar conta de um número de vivências concretas que tende ao infinito. Isso é possível por meio da abstração, processo que reduz inumeráveis eventos concretos irrepetíveis a uma quantidade de conceitos compatível com nossa capacidade de memorização. Como isso se dá? Observando o que diferentes eventos têm em comum e desprezando diferenças não significativas entre eles. O que restar é a matriz dos conceitos. Se observarmos uma série de cadeiras, veremos que todas têm assento, encosto, pés, servem para sentar etc. A cor, o material, a presença ou não de estofamento, o número de pés, enfim, tudo o que não é essencial à compreensão do objeto pode ser descartado. Os traços pertinentes, isto é, os que sobraram, formam o conceito de “cadeira” e, consequentemente, o significado da palavra “cadeira”. Platão Isso é econômico na medida em que não preciso criar uma nova palavra para nomear cada nova cadeira, ou mesa, ou seja lá o que for, que encontro pela frente. Para falar de um novo evento concreto que corresponda à imagem mental que tenho de cadeira, uso a mesma palavra “cadeira” que eu e meu interlocutor temos na memória. Só o contexto, dado pela combinação dessa palavra às demais, e pela situação de comunicação em que me encontro, é que é novo. Portanto, posso usar palavras “velhas” para dar conta de vivências novas. Entender como os signos representam a realidade tem inquietado muitos filósofos. No livro X da República, Platão diz: “Sempre que um determinado número de indivíduos tem um nome comum, supomos que tenham também uma ideia ou forma correspondente”. Para ele, podemos aplicar um substantivo como “árvore” ou um adjetivo como “agudo” a um grande número de coisas distintas porque existem no plano ideal, que ele chamou de “mundo das ideias”, entidades abstratas como a “arboridade” e a “agudeza”, das quais cada indivíduo compartilha as propriedades. Mas nem toda palavra cheia representa uma espécie geral abstraída a partir de um sem-número de espécimes particulares. Os nomes próprios, por exemplo, servem para designar um único espécime dentro da espécie e distingui-lo dos demais. Enquanto a palavra “cão” designa uma espécie animal e pode ser aplicada a qualquer representante dessa espécie, “Rex” denomina um cão particular, distinto de “Totó”, “Hércules” ou qualquer outro. Pode-se objetar que “Rex” nomeia muitos indivíduos ao mesmo tempo – pelo menos, todos os que levam o nome de Rex. Mas enquanto “cão” e mesmo “pastor”, “poodle” e “pequinês” agrupam espécimes que têm muito em comum, a palavra “Rex” agrupa seres que têm em comum apenas o nome Rex, mas podem ser cães, gatos, hamsters ou mesmo objetos inanimados, como a marca de uma ração. Outra classe de palavra que causa alguma perplexidade são os pronomes. Afinal, um pronome, como o termo diz, é uma palavra gramatical (portanto, vazia) que substitui um nome (portanto, uma palavra cheia). Há dois tipos de pronomes: mostrativos (ou dêiticos) e fóricos. Dêiticos apontam para fora do discurso; fóricos apontam para algum elemento do enunciado que já ocorreu (anafórico) ou ocorrerá a seguir (catafórico). Se eu disser “Você não veio trabalhar ontem; isto não deve se repetir”, “isto” é anáfora de “você não veio trabalhar”. Já em “Ouça bem isto: você está demitido!”, “isto” é catáfora de “você está demitido”. Mas se eu perguntar “O que é isto?”, o que o pronome substitui? Depende do contexto extralinguístico e não do que veio antes ou depois no enunciado. Se eu apontar para uma caneta, obviamente “isto” substitui “caneta”. Aqui temos um dêitico. Mediação A questão é: um pronome, seja ele dêitico ou fórico, é uma palavra vazia que se preenche de significado no contexto linguístico ou extralinguístico. Portanto, é uma palavra gramatical que tem significado, embora seja um significado sempre variável conforme o contexto. Alem de Platão, outros pensadores, como Kant, Frege, Russell e Wittgenstein se fizeram a pergunta “O que os signos significam?”. Essa é talvez a mais importante questão da filosofia da linguagem. Trata-se de constatar que não podemos conhecer o mundo em que vivemos sem a mediação dos signos. Alguns filósofos chegaram mesmo a supor que a própria realidade é uma ilusão criada pela linguagem e, portanto, o conhecimento em si é simplesmente impossível. Aliás, as únicas formas de conhecimento a priori, que independem da experiência, são a lógica e a matemática, justamente dois exemplos de linguagem formal. Ou seja, podemos lidar com a linguagem sem a realidade, mas não podemos lidar com a realidade sem a linguagem. |
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