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Publicado em Língua Portuguesa, ano 3, n.º 47, setembro de 2009 Classificação reducionista de palavras em primitivas e derivadas aponta modelo ultrapassado de ensino do idioma Outro dia recebi um e-mail de uma leitora levantando uma questão bastante interessante. Ela, que é professora, estava ensinando a seus alunos as noções gramaticais de palavra primitiva e palavra derivada quando lhe surgiram as dúvidas: “pé-de-moleque” é palavra primitiva ou derivada? E “amor” é derivação regressiva de “amar” ou o inverso? O impasse da minha leitora se justifica, pois tentar enquadrar todas as palavras da língua nessas duas categorias é como tentar calçar nas irmãs malvadas o sapatinho de cristal de Cinderela. Acontece que a classificação das palavras em primitivas e derivadas realizada pela gramática tradicional representa um reducionismo grosseiro da real dinâmica do léxico da língua, bem mais complexa do que isso. Aliás, é absurdo que, com todos os avanços da linguística nos últimos 200 anos, ainda se ensine às crianças o modelo gramatical de Dionísio de Trácia, do século 3 a.C.! Vamos começar relembrando os dois processos básicos de criação de vocábulos por combinação de elementos constituintes: a composição e a derivação. Composição Composição é o processo em que dois ou mais radicais se unem para formar uma palavra. Essa união pode se dar entre palavras já existentes na língua, com ou sem modificação fonológica (sócio + proprietário = sócio-proprietário, perna + longa = pernilongo) como também pode envolver semipalavras (ou elementos de composição, como também são chamadas), elementos que não existem como palavras autônomas, mas só ocorrem em compostos, como é o caso dos radicais gregos crono‑, foto‑, ‑logia, ‑metria etc. A composição pode ser coordenativa (social-progressista designa uma postura que é ao mesmo tempo social e progressista) ou subordinativa (em azul-claro, azul é atributo de um objeto, enquanto claro é atributo de azul, estando a ele subordinado). Certos autores falam ainda em composição por reanálise quando um sintagma nominal ou verbal se transforma em palavra: bico-de-papagaio, louva-a-deus, bem-me-quer, não-sei-quê, deus-nos-acuda. Derivação Em português, a derivação, ou combinação de um radical a um ou mais afixos, se dá por prefixação (super‑ + chique = superchique) , sufixação (chique + ‑érrimo = chiquérrimo) ou parassíntese (prefixação e sufixação simultâneas: a‑ + pregão + ‑ar = apregoar). Em outras línguas, há ainda a infixação, a interfixação, a circunfixação e a transfixação. Além disso, temos a conversão, ou derivação imprópria (por exemplo, o uso de um adjetivo como substantivo) e a derivação regressiva, em que há subtração, e não adição, de constituintes (descarregar – ‑ar = descarrego). Dito isto, temos que pé-de-moleque não é primitivo nem derivado, pois resulta de composição e não de derivação. Quanto a amor, não é derivação regressiva de amar nem o inverso: amor e amar são ambas palavras herdadas do latim, portanto chegaram juntas ao português, ou melhor, nunca chegaram, sempre estiveram na língua, desde os tempos em que ainda se falava latim na Península Ibérica. Logo, nenhuma das duas gerou a outra, pelo menos em português. O que ocorreu é que, em latim, a raiz indo-europeia *am deu origem tanto ao verbo amare quanto ao substantivo amor. Modelos Só essas duas palavras questionadas pela minha amiga leitora já servem para demonstrar o quanto a teoria tradicional é insuficiente para dar conta da realidade da língua. Por exemplo, as gramáticas escolares ensinam que jardineiro e jardinagem são derivados de jardim. Só que esses mesmos derivados existem nas demais línguas europeias: francês jardin, jardinier e jardinage; italiano giardino, giardiniere e giardinaggio; espanhol jardín, jardinero e jardinaje, e assim por diante. Ora, seria impossível que tantas línguas diferentes tivessem produzido independentemente umas das outras os mesmos derivados com os mesmos sufixos. O que ocorre é que jardim, giardino, jardín etc. vieram do fr. jardin, e foi no francês que essa palavra gerou os derivados jardinier e jardinage. Depois, tanto jardin quanto seus derivados passaram por empréstimo (em alguns casos com adaptações e traduções dos sufixos) às demais línguas românicas, bem como às germânicas (em inglês gardener e gardening são decalques do francês a partir de garden e dos sufixos ‑er e ‑ing). Pela mesma razão, justiça não provém de justo + ‑iça, mas veio do latim justitia por empréstimo, e foi nessa língua que se deu a derivação justus + ‑itia = justitia. Do mesmo modo, pungente não é particípio presente de pungir, mas empréstimo do latim pungens, este sim particípio presente de pungere, bem como transportar não é derivado de portar, mas empréstimo do latim. Ultrapassado Enfim, os exemplos se multiplicam. Se aceitássemos que minucioso deriva de minúcia, então teríamos de ensinar que esta deriva de miúdo. É que, na verdade, minucioso é empréstimo do latim minutiosus, isto é, aquele que está atento à minutia, qualidade do que é minutus (“miúdo”), que por sua vez resulta do verbo minuere (“diminuir”), derivado de minus (“menos”). Contrariamente ao que dizem os dicionários, televisão não é resultado de tele‑ + visão; é decalque parcial do inglês television, este sim formado de tele‑ e vision (do francês vision, vindo por sua vez do latim visio). O que se passa é que as gramáticas, de um lado, procuram ensinar a formação das palavras sem considerar sua etimologia e, de outro, se utilizam de um modelo de explicação da língua tremendamente ultrapassado. E é isso que se ensina nas escolas. |
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