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Publicado em Língua Portuguesa, ano 3, n.º 45, julho de 2009 É preciso desconfiar do mito de que a sintaxe esconde visões de mundo dos povos que falam um idioma Desde o advento do método histórico-comparativo, no século 19, tem sido comum comparar as línguas a seres vivos, chegando-se até, em alguns casos, a falar do “gênio”, do “instinto” ou da “personalidade” deste ou daquele idioma, como se línguas não fossem sistemas de comunicação criados e operados por seres pensantes, mas fossem elas mesmas os seres pensantes. Em resumo, costuma-se (hoje, felizmente, já não com tanta frequência quanto no passado) atribuir às línguas uma vontade própria, independente dos falantes. É verdade que nenhum falante pode, sozinho, modificar o idioma (toda inovação linguística depende, para ser bem-sucedida, da adesão da coletividade), o que dá a sensação de que, ao falarmos uma língua, estamos presos a uma camisa-de-força que nos obriga a uma visão de mundo que não é nossa, pessoal, mas imposta pela sociedade à qual pertencemos. Ideologias Como resultado, muitas pessoas – especialmente as leigas em questões de linguagem – atribuem à gramática das línguas certos traços ideológicos que elas nem sempre têm de fato. Há aspectos da gramática de uma língua que são efetivamente produto de uma visão de mundo, enquanto outros são apenas resultado do acaso, isto é, da evolução cega. Neste último caso é, antes, a gramática que constrange a uma visão de mundo, e não um modo particular de ver o mundo que conforma a gramática. Vamos analisar, a seguir, alguns dos argumentos frequentemente lançados em apoio à tese de que a gramática das línguas é ideologicamente orientada para ver quanto de verdade e quanto de mito existe neles. O machismo da língua portuguesa O português, e os demais idiomas românicos, são línguas machistas, pois, quando nos referimos a um conjunto de indivíduos de ambos os sexos, fazemos a concordância no masculino plural. Essa questão já foi tratada em Língua 39 (janeiro de 2009) por José Augusto Carvalho. Em todo caso, a razão pela qual usamos o gênero masculino para nos referir a homens e mulheres não é ideológica, mas fonética. Em latim, havia três gêneros – masculino, feminino e neutro –, cujas terminações mais frequentes eram ‑us, ‑a e ‑um. O chamado gênero complexo, que agrupa substantivos de gêneros diferentes, era indicado em latim pelo neutro. Quando, por força da evolução fonética, as consoantes finais do latim se perderam, as terminações do masculino e do neutro se fundiram, resultando nas desinências portuguesas ‑o e ‑a, características da maioria das palavras masculinas e femininas, respectivamente. Ou seja, o nosso gênero masculino é também gênero neutro e complexo. Portanto, não há nada de ideológico, muito menos de machista, na concordância nominal do português. O preconceito alemão contra as solteiras O alemão trata a mulher solteira como objeto, reconhecendo a feminilidade apenas da mulher casada, tudo porque as palavras Mädchen (moça, donzela) e Fräulein (senhorita) são neutras, enquanto Frau (mulher, senhora) é feminina. Ora, Mädchen e Fräulein eram originalmente os diminutivos de Magd (moça) e Frau, o que é denunciado pelos sufixos ‑chen e ‑lein, e em alemão todo diminutivo é neutro, não importa qual seja o gênero da palavra primitiva. Portanto, Mädchen e Fräulein são palavras neutras não porque os falantes do alemão, especialmente os homens, vejam as mulheres solteiras como inferiores, mas porque são diminutivas, assim como “donzela” e “senhorita”, e não por preconceito, mas por carinho. A prova de que os alemães reconhecem uma jovem solteira como mulher é o fato de que substituem Mädchen e Fräulein pelo pronome pessoal feminino sie e não pelo neutro es. A objetividade do inglês O inglês tem gramática simples, que não flexiona artigos, adjetivos e verbos, e adota o gênero natural (todos os seres assexuados são neutros), o que reflete a objetividade e praticidade dos falantes da língua. Puro mito! O inglês perdeu a maioria das desinências – por motivos fonéticos – ainda na passagem do antigo para o médio inglês (século 12), logo, muito antes das leis da mecânica de Newton, da Revolução Industrial, da formação do Império Britânico, do surgimento dos Estados Unidos ou de qualquer outro fato histórico que possa conferir aos falantes do inglês esse traço “prático” e “objetivo”. Aliás, costuma-se dizer que o inglês é objetivo e o francês é cerimonioso. Por exemplo, num velho manual de instruções redigido em várias línguas encontrei em francês a frase “Nous vous remercions vivement d’avoir choisi notre enrégistreur de bande…” (Nós lhe agradecemos vivamente por ter escolhido nosso gravador de fita…) e também a frase inglesa “Thank you very much for selecting our tape recorder…” (Muito obrigado por escolher nosso gravador de fita…). Essas duas diferentes maneiras de expressar a mesma ideia parecem mesmo indicar que os franceses são mais cerimoniosos (ou mais prolixos) que os ingleses, mas essa conclusão pode ser precipitada. É possível encontrar um sem-número de contraexemplos. Na verdade, os americanos costumam redigir de modo objetivo; já os britânicos são tão ou mais cerimoniosos que os franceses. Basta dizer que, para uma resposta simples do tipo “acho que não posso”, um britânico dirá I don’t believe I can (Eu não creio que possa) ou I’m afraid I can’t (Temo que não possa). Isso reflete a tradição aristocrático-monárquica inglesa, por oposição ao espírito libertário, transgressor e republicano dos franceses. Além disso, a afirmação de que o inglês é uma língua simples porque aboliu as desinências ignora que praticamente todas as línguas germânicas (a exceção é o alemão) aboliram a maioria das desinências ainda na Idade Média. Por outro lado, o francês praticamente só manteve suas desinências na escrita: na pronúncia, elas também se tornaram mudas. Portanto, desse ponto de vista o francês também tem uma gramática simples. A preposição “humana” do espanhol O espanhol distingue pelo uso da preposição a o objeto direto humano do não humano: “encontré a Juan” (encontrei João), mas “encontré un libro” (encontrei um livro). Isso sim é um fato ideológico, pois a determinação do caráter humano de algo é subjetiva: um gnomo pede a preposição ou não? E substantivos coletivos como España (Espanha) e humanidad (humanidade)? Isso fica em grande parte a critério dos falantes. Parentes italianos sem artigo definido O italiano não usa artigo definido antes do pronome possessivo em nomes de parentesco. Diz-se mio padre (meu pai), mia zia (minha tia) etc., mas il mio maestro (o meu professor) e la mia penna (a minha caneta). Isso é ideológico – e bastante arbitrário. A maioria das línguas europeias não admite artigo antes de pronome possessivo, e nas que admitem, como o português, é facultativo. Mas, no italiano há o uso, segundo critério semântico e não sintático. A concordância em inglês O inglês faz a concordância do verbo no plural com substantivos singulares que designam coletivos: people are (e não is), the police were (e não was), the team go (e não goes). Em compensação, o verbo concorda no singular com alguns substantivos pluralícios como news, politics, means etc.: that news is good (essa notícia é boa), politics is dirty (a política é suja), the only means to get out of here is…(o único meio de sair daqui é…). Mais um fato ideológico. O inglês faz a concordância verbal com o sentido do substantivo e não com sua forma gramatical. Se a coisa denotada é percebida como uma unidade, o verbo vai para o singular; se é percebida como uma coletividade, vai para o plural. É mais ou menos o mesmo processo que nos leva a dizer “o óculos”, “a calça”, em vez de “os óculos”, “as calças”. E leva os falantes menos cultos a dizer “as puliça chegaro bateno em todo mundo” em lugar de “a polícia chegou batendo…”. Ou seja, o erro de português também pode ser ideológico. |
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