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Publicado em Língua Portuguesa, ano 3, n.º 44, junho de 2009 O uso contínuo de vocábulos pode desgastá-los a ponto de alterar sua grafia e pronúncia, dando origem às chamadas “corruptelas” Você certamente conhece a expressão “ouvir o galo cantar e não saber onde”, não é? Esse dito popular se refere a pessoas que passam adiante uma informação de maneira distorcida por não a terem compreendido bem. Esse “ruído” na comunicação, como se diz no jargão dos comunicólogos, recebe nos estudos da linguagem o nome de corrupção ou corruptela, e é um dos fenômenos mais comuns da fonética das línguas. Na verdade, não é só o mau entendimento de uma expressão que gera a corruptela. O uso contínuo das palavras, assim como o de qualquer outro utensílio, provoca com o tempo o seu desgaste. Tal como o gume de uma faca, as palavras também se gastam. Mas, neste caso, a razão principal é a lei do mínimo esforço, ou “lei da preguiça”. Como pronunciar constantemente “vossa mercê” dava trabalho, passou-se a pronunciar “vosmecê”, “vossuncê”, “vancê” e “você”. Hoje já se diz “ocê” e “cê”. O mesmo aconteceu com a interjeição de susto “Virgem Maria!”, que foi reduzida a “virgem”, depois a “vige”, “vixe” e “ixe”. Tudo por economia de esforço. Certo dia, ao ver um indivíduo muito agitado, alguém disse algo como “parece que esse sujeito tem bicho no corpo inteiro”. A má compreensão dessa frase levou à famosa expressão “ter bicho carpinteiro”. Estimar Antigamente, quando alguém adoecia, era comum e educado fazer votos de pronto restabelecimento dizendo ao doente “estimo a sua melhora”, em que o verbo “estimar” tinha o significado de “ficar feliz com” e portanto “desejar”. Assim, o sentido da expressão era “ficarei feliz que você melhore logo” ou “desejo que você melhore”. Só que esse sentido de “estimar” se tornou obscuro com o tempo e, como as palavras se gastam, e as pessoas que as ouvem as replicam com falhas à maneira de uma molécula de DNA que cria mutações genéticas ao produzir cópias defeituosas de si mesma, a expressão “estimo a sua melhora” virou “estimo as melhora”, depois “corrigida” para “estimo as melhoras” (com direito a concordância nominal e tudo) e finalmente deu a hoje enigmática expressão “estimas melhoras”. O mesmo processo fazia com que as crianças de antigamente (será que hoje algum pimpolho ainda faz isso?) pedissem a bênção aos pais dizendo “bença, pai, bença, mãe”. Dizem também – mas há controvérsias – que a expressão “cuspido e escarrado”, usada para dar a ideia de extrema semelhança entre duas pessoas (“Fulano é o próprio pai cuspido e escarrado”), seria a corruptela de “esculpido em carrara”, numa alusão à perfeição das obras de Michelangelo, que utilizava o mármore proveniente da cidade de Carrara em suas esculturas. Os que discordam dessa explicação afirmam que a corruptela vem de “esculpido e encarnado”. A única certeza que temos é que “cuspido e escarrado” é uma corruptela. Eufemismo Outra causa da corrupção de palavras e expressões é o eufemismo, ou seja, a tentativa de evitar expressões chocantes ou de baixo calão, substituindo-as por uma versão ligeiramente “modificada”, como no caso de “caraca”, “putz”, “desgramado”, “puxa vida”, “baita” e muitos outros, que ocultam palavrões ou tabus linguísticos que certamente não é necessário explicar aqui. Mas a corruptela não existe só em português. Todas as línguas experimentam esse processo, já que a preguiça e o pudor são universais. Em inglês, a expressão equivalente a “custar os olhos da cara” é to cost a nominal egg, literalmente, “custar um ovo nominal”. Ovo nominal, que diabo é isso? Uma nova categoria gramatical? Na verdade, a expressão original, deturpada pela má compreensão, é to cost an arm and a leg, isto é, “custar um braço e uma perna”. Agora faz sentido, não? Outro caso curioso do inglês é o fato de que no tênis (do inglês tennis, corruptela do francês tenez, “pegue”, imperativo gritado por quem arremessava a bola), a palavra para “zero” é love (“amor”). Por isso, se ouve dizer que as parciais de uma partida foram six two, six love, ou seja, “6 a 2” e “6 a 0”. É que love, neste caso, é uma corruptela do francês l’oeuf (“ovo”), devida provavelmente à semelhança entre o algarismo zero e a forma de um ovo. Longe de ser de fato uma corrupção, pelo menos com as conotações negativas que essa palavra tem por obra e graça dos nossos políticos, a corruptela é, efetivamente, um processo legítimo de evolução linguística. |
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