Artigos de Divulgação
 
  A FALÊNCIA DAS CIÊNCIAS HUMANAS NO BRASIL 

Durante todo o tempo em que tenho atuado nas ciências humanas, mais especificamente nas áreas da lingüística e da semiótica, tive a oportunidade de detectar um certo tipo de mentalidade que me parece mais ou menos geral em nossa sociedade: a de que as ciências humanas são algo supérfluo, algo que a sociedade considera interessante, porém prescindível. Lamentavelmente, o que se nota é um total desconhecimento do papel a ser desempenhado por elas no contexto da ciência em geral e no âmbito da sociedade. E, o que é mais grave, tal desconhecimento não atinge apenas as autoridades responsáveis pelo financiamento da pesquisa ou a população leiga, mas também, e principalmente, os próprios profissionais da área.

Através do convívio com meus colegas humanistas, tenho percebido claramente que boa parte deles, malgrado sua inteligência e seu talento, não sabe definir exatamente qual o lugar ocupado por suas ciências; na verdade, alguns não saberiam sequer dizer com precisão se o que fazem é ciência pura, ciência aplicada ou tecnologia. (Para eles, aliás, a palavra tecnologia está ligada exclusivamente às ciências exatas ou, o que é pior, é sinônimo de engenharia, num claro desconhecimento de que as ciências humanas também produzem tecnologia!)

Sem incorrer no erro fácil da generalização, posso citar, no entanto, um exemplo bastante significativo e sintomático. Mais de uma vez, ao conversar com profissionais de outras ciências humanas (sociólogos, cientistas políticos, “comunicólogos”, historiadores), percebi que eles nunca se referem a si mesmos como cientistas, mas quase sempre como “intelectuais”. Igualmente, as ciências humanas são mais freqüentemente chamadas por eles (e não só por eles) de “humanidades”, termo ambíguo, pois, além de incluir especialidades que, a rigor, não são ciências — como o direito, a administração de empresas, a arquitetura, as artes, o jornalismo, a publicidade, o turismo, a biblioteconomia, etc. —, escamoteiam o estatuto legitimamente científico de áreas como a lingüística, a antropologia, a economia e a pedagogia, dentre outras. Muitos desses profissionais recusam a idéia de tratar seu objeto de estudo — em última análise, a humanidade — segundo o método científico, acusando-o de positivista! Ora, deixando de lado o absurdo dessa afirmação, é preciso ressaltar que o que caracteriza uma atividade como ciência é justamente a delimitação precisa de um objeto de estudo, bem como o emprego do método científico, segundo o qual se formula uma hipótese a partir da observação de um determinado número de dados, estendendo a seguir essa hipótese ao maior número possível de dados observáveis da mesma natureza, e deixando afinal que novas observações venham confirmar ou falsear a hipótese formulada. Caso a teoria não se confirme, uma nova hipótese, mais abrangente que a anterior, deve ser proposta, para dar conta dos dados que escaparam à primeira. Portanto, o princípio básico da ciência é o da generalização, isto é, a busca de leis gerais em objetos particulares, a busca da semelhança sistemática num universo de aparente variedade. Nesse sentido, de nada valeria ao ser humano uma disciplina incapaz de fazer tais generalizações, em outras palavras, uma disciplina para a qual “cada caso é um caso”. Conclusão: a recusa de certos humanistas em adotar o método científico só contribui para manter suas respectivas disciplinas num estágio pré-científico, nos termos do próprio fundador do positivismo, Auguste Comte.

A desculpa para a não adoção do método científico pelas ciências humanas sempre foi a de que o ser humano, por ser dotado de consciência e livre-arbítrio, tem comportamentos naturalmente imprevisíveis e, portanto, não passíveis de sistematização ou redução a leis gerais. Conseqüentemente, segundo essa ótica, os fenômenos sociais e culturais seriam demasiado complexos para ser objeto de uma teorização mais rigorosa. Ora, os avanços nas neurociências verificados nas últimas décadas têm demonstrado que a própria consciência humana é em grande parte — senão totalmente — determinística e que, portanto, nosso “livre-arbítrio” não é tão livre quanto acreditamos — ou desejaríamos. Além disso, a introdução na ciência das noções de complexidade, caos, redes e sistemas permitiu que muitos problemas impossíveis de ser tratados pela ciência tradicional possam ser perfeitamente estudados à luz dessas novas teorias. Assim, as ciências naturais vêm em socorro das humanas provar que o homem e seus produtos são tão passíveis de sistematização, teorização, matematização e predição quanto a natureza e suas criações. No entanto, apesar desses avanços todos, pouquíssimas aplicações de tais teorias têm sido feitas no âmbito das humanidades e, ironicamente, a maior parte das que foram realizadas até o momento o foram por especialistas das ciências naturais. Talvez o preconceito contra a “desumanidade” das hard sciences seja o que tem mantido os humanistas numa total e santa ignorância das ferramentas que poderiam resolver os seus problemas.

O fato é que a estúpida crença de certos setores da sociedade de que as ciências humanas são prescindíveis, somada à declarada postura de rebeldia de muitos de seus profissionais contra a cientificidade, erroneamente confundida com o cientificismo, tem levado muitas vezes as ciências humanas ao descrédito perante a opinião pública e induzido nossas autoridades a investir pouco na área, dirigindo recursos a outros setores considerados mais importantes, como informática ou prospecção mineral, por exemplo. A carência de investimento, por sua vez, torna as ciências humanas pouco atrativas em termos profissionais, o que leva muitos jovens de talento a encaminhar-se a outros setores. Por conseqüência, as ciências humanas acabam muitas vezes servindo como uma espécie de rebotalho da mediocridade.

Aliás, a mediocridade e a acomodação no quadro das humanidades refletem-se obviamente na pesquisa. Esse fato revela-se ainda mais grave no domínio de ciências cujos cursos são oferecidos pelas universidades somente em nível de pós-graduação. No caso da lingüística, por exemplo, que só possui dois cursos de graduação no País (USP e Unicamp), a grande maioria dos pós-graduandos provém de outras áreas, especialmente letras, e somente na pós-graduação começa efetivamente a conhecer mais profundamente a lingüística. Conseqüentemente, a pós-graduação nessa área acaba sendo uma espécie de segunda graduação. Os pesquisadores que daí resultam vão quase invariavelmente dedicar-se a aplicações na área de letras (ensino de línguas, literatura, etc.), de modo que muito pouca pesquisa se produz sobre lingüística propriamente dita, e tal pesquisa não raro acaba sendo de baixa qualidade e de pouca ou nenhuma relevância social.

Um indicador do descaso de nosso país para com as ciências humanas é o fato de que boa parte delas não tem sequer um instituto próprio nas universidades. Citando ainda o exemplo da lingüística, é lastimável ver que essa ciência, por sinal já considerada, pelo seu rigor científico, modelo para as demais ciências humanas, se encontra em tão poucas universidades, e mesmo assim abrigada em programas de pós-graduação em letras ou em comunicação. Nesses programas, sendo colocada na condição de mera ferramenta para a análise de textos literários, jornalísticos ou publicitários, não lhe é possível cumprir seu objetivo maior e primeiro, que é a construção de uma teoria geral da linguagem (com fundamentos biológicos, inclusive). O curioso é que quase todos os pouquíssimos programas de pós-graduação em lingüística estão voltados a aplicações no aperfeiçoamento do ensino de língua portuguesa, e, no entanto, o ensino da nossa língua na escola básica continua piorando a cada dia.

A falta de um bom desempenho da pesquisa em ciências humanas acaba por justificar a crença em sua superfluidade, o que induz o governo, as entidades de fomento à pesquisa científica e a iniciativa privada a direcionar seus investimentos a outras áreas com respostas mais positivas e resultados mais concretos, desencadeando-se assim um círculo vicioso. Ao mesmo tempo, faltam às ciências humanas no Brasil projetos científicos bem definidos, que sejam implementados por grupos de pesquisadores, até mesmo mediante o intercâmbio de diversas universidades e/ou institutos de pesquisa, a exemplo do que ocorre no âmbito das ciências naturais. Na área das humanas, a regra geral é o trabalho solitário e a falta de comunicação entre os pesquisadores.

Decorrência natural desse estado de coisas, nota-se a quase total inexistência de pesquisa teórica em ciências humanas. De fato, a esmagadora maioria dos trabalhos na área consiste na aplicação de modelos teóricos desenvolvidos no Primeiro Mundo a objetos de estudo de importância por vezes duvidosa. Isso se deve ao fato de que é evidentemente mais fácil aplicar uma teoria já existente do que desenvolver uma nova teoria.

Tenho visto em minha área muitos projetos de pesquisa de pós-graduação sobre temas de nenhuma relevância social ou utilidade prática. Por vezes, utilizam-se teorias lingüísticas sofisticadas para fazer a análise de poemas de autores de segunda categoria ou para estudar o vocabulário de um determinado cronista esportivo. Folheando revistas científicas brasileiras da área de humanas, percebo a mesma tendência, com o agravante de que os artigos ali contidos são assinados não por pós-graduandos, isto é, pesquisadores iniciantes, mas por docentes às vezes de grandes universidades. Ora, algumas teorias lingüísticas ou semióticas são instrumentos poderosíssimos que, aplicados, por exemplo, à genômica, ajudam a desvendar o intrincado código genético, da mesma forma como, na informática, permitem construir equipamentos dotados de inteligência artificial. O mesmo se pode dizer de teorias das demais ciências humanas. É claro que todo conhecimento científico é importante e, nesse sentido, toda pesquisa é válida, qualquer que seja seu objeto. No entanto, o que critico é o fato de a maior parte da pesquisa realizada nesse domínio tratar de objetos socialmente pouco relevantes. Nas ciências naturais as pesquisas ou resultam — quer direta quer indiretamente — na produção de tecnologias com forte impacto no modo de vida das pessoas, ou se voltam para questões que suscitam profundo interesse coletivo, mesmo sem apresentar aplicações práticas, como é o caso das pesquisas em cosmologia. Já nas ciências humanas, as pesquisas brasileiras não raro têm interesse puramente provinciano. Que fique claro que não tenho nada contra os “pequenos temas”, mas é preciso pesquisar também os “grandes temas”, e é justamente isso que distingue a pesquisa científica dos países desenvolvidos da dos países do Terceiro Mundo.

Outro sintoma dessa falta de criatividade para a pesquisa e a reflexão no Brasil se encontra na filosofia. Com efeito, nossas universidades abrigam muitos professores de filosofia, mas aparentemente nenhum filósofo. Se examinarmos a produção intelectual oriunda dos departamentos de filosofia de nossas universidades públicas e confessionais (por sinal, as únicas que mantêm cursos de filosofia), encontraremos muitos trabalhos de análise e comentário do pensamento de filósofos europeus ou norte-americanos do passado e do presente, mas praticamente nenhum trabalho veiculando alguma idéia, conceito ou teoria original que pudéssemos considerar produto de uma “filosofia brasileira”. Mais uma vez, é mais fácil comentar e mesmo criticar Aristóteles ou Spinoza do que realizar uma obra como a deles. E o que vale para a filosofia vale também para a sociologia, a pedagogia, a crítica literária…

E olhem que o problema da pesquisa científica no Brasil não é necessariamente falta de dinheiro: embora não disponhamos de um orçamento comparável ao de países como os Estados Unidos, a verba movimentada por agências estatais de fomento à pesquisa, como a paulista Fapesp, por exemplo, é suficiente para a realização de projetos que poderíamos chamar até de “grandiosos”, e ainda sobraria dinheiro para a divulgação dos resultados não só em livros mas até mesmo em documentários de televisão no estilo daqueles que costumamos ver na televisão a cabo. Isso se grande parte da verba destinada às ciências humanas não fosse desperdiçada no financiamento de projetos e publicações irrelevantes.

Enquanto nas ciências da natureza os pesquisadores realizam experimentos que põem à prova teorias científicas ou então teorizam sobre problemas suscitados pelos resultados desse tipo de experimentos, em muitas ciências do homem o que temos, salvo raras e honrosas exceções, são análises puramente impressionistas, fundadas no famoso “achismo”, enfim, pouco mais que mera filosofice. No lugar de dados, temos impressões; no lugar de análises sistemáticas, temos “olhares”; no lugar de juízos de fato, juízos de valor; no lugar de uma metalinguagem precisa — como a lógica ou a matemática, por exemplo — e de conceitos rigorosamente definidos, temos divagação pura e simples, forjada numa linguagem tão rebuscada quanto ininteligível, talvez assim conformada exatamente para ocultar a falta de conteúdo. Sem dúvida, os sofistas gregos fizeram escola no Brasil.

Alguns artigos de ciências humanas que tenho visto, pelo seu caráter geral e pouco aprofundado, até funcionariam muito melhor como matérias jornalísticas (desde que sofressem uma adaptação de sua linguagem para o entendimento do público leigo, é claro) do que como artigos especializados, que pouco ou nada acrescentam ao conhecimento já disponível. A publicação desse tipo de artigo demonstra, por sinal, que muitas revistas brasileiras dessa área são pouco exigentes em termos de qualidade, originalidade e importância dos trabalhos.

Na verdade, em muitos casos, o motivo da realização de pesquisas tão despretensiosas e pouco rigorosas, sobretudo na pós-graduação, não é a busca do progresso científico, tecnológico ou cultural, com sua natural contrapartida, que é o bem-estar social, mas sim a pura e simples obtenção de um título universitário que permita ao candidato galgar postos na carreira acadêmica ou simplesmente manter seu emprego em alguma universidade privada, muitas das quais — perdoem o mau gosto do trocadilho — acabam estando mesmo mais para privadas do que propriamente para universidades. Se, no âmbito das ciências naturais, a prática da pesquisa científica é comum, e os professores universitários são também e principalmente pesquisadores, nas ciências humanas, a insignificância da pesquisa, em termos tanto quantitativos como qualitativos, faz com que a busca por um título acadêmico sirva muito mais para legitimar a condição de professor do que para formar verdadeiros pesquisadores. Em suma, a ciência passa a ser meio e não fim. Muitas dessas pesquisas parecem ser feitas exatamente para provar o que já se sabe e não para descobrir algo novo. A previsibilidade do resultado é sempre mais confortável para o candidato a acadêmico do que a surpresa do inesperado. Só que a verdadeira ciência se faz com descobertas, isto é, com o inesperado, com o surpreendente, e não com o previsível.

Outro problema gritante, que muito contribui para que as pesquisas em humanidades não saiam do lugar, é o choque de egos. Quando atuava nas ciências exatas, me lembro que os encontros científicos eram oportunidades em que pesquisadores trocavam idéias de forma construtiva, de tal modo que a opinião de um acabava contribuindo para o aperfeiçoamento da pesquisa de outro. Já nas ciências humanas, como disse, quase não há cientistas, o que abunda são os “intelectuais” (na verdade, intelectualóides); e estes costumam ser presunçosos demais para aceitar críticas ou opiniões. Como resultado, os simpósios e congressos de que tenho participado têm servido muito mais como teatro da exibição arrogante de uma falsa intelectualidade (pois a verdadeira é humilde e não presunçosa) ou arena de embate de posições antagônicas, onde o que realmente importa é derrotar o adversário, destruir o argumento do outro — especialmente se ele é filiado a uma corrente de pensamento diferente da sua — do que fazer o conhecimento científico avançar.

Diante de todos esses percalços, é natural que as ciências humanas no Brasil vivam permanentemente aquilo que poderíamos chamar de crise de credibilidade. Não por acaso, os cientistas humanistas, os autoproclamados intelectuais, são vistos com desconfiança dentro da própria academia e discriminados por seus colegas naturalistas; não por acaso, estudantes dessas áreas são tratados com escárnio dissimulado ou com patética condescendência pelos parentes e amigos; não por acaso, muitos não consideram as ciências humanas verdadeiramente ciências, e esse preconceito é disseminado, via mídia, a toda a sociedade, tornando-se senso comum; não por acaso, as verbas para as pesquisas em ciências humanas são sempre as últimas a ser concedidas e as primeiras a ser cortadas.

Este diagnóstico da situação das ciências humanas no Brasil é talvez bastante severo e sombrio, mas, a menos que o atual estado de coisas comece a ser revertido — e a reação deve começar pela própria tomada de consciência dos profissionais da área, já que não devemos esperar por milagres ou soluções paternalistas —, podemos dizer que as ciências humanas no Brasil estão fadadas à sua total falência, cujo ônus infelizmente recairá sobre toda a sociedade.

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