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COMO PENSAMOS A REALIDADE |
Publicado em Scientific American Brasil, ano 7, n.º 82, março de 2009
Como as partículas elementares que habitam o universo físico submetidas a leis matemáticas, os núons atuam no universo semiótico e são regidos pelas regras da sintaxe hiperprofunda
O traço fundamental que nos distingue das outras espécies animais é a aptidão para o pensamento simbólico. Nossa capacidade de “conhecer”, isto é, construir representações mentais a partir de percepções sensoriais, nos permite não só adquirir novos dados da experiência como também reconhecer os anteriormente adquiridos.
Somos capazes de reconhecer um objeto que nunca vimos como uma cadeira apenas comparando esse objeto aos modelos que temos na memória. As cadeiras que já vimos permitem deduzir o que todas têm em comum: pés, assento, encosto, uma forma anatômica, etc. Se o novo objeto coincide com o modelo, bingo! Estamos diante de uma cadeira. Senão, procuramos na mente outros modelos até encontrar um que coincida com o objeto. Se não encontramos nenhum, estamos diante de um dado novo, o que dá oportunidade a um novo ato de conhecer, quando construímos um novo modelo mental, um novo conceito. Esse processo se chama cognição.
Mas de que são feitos esses modelos? Assim como a combinação das 26 letras do alfabeto permite escrever todas as palavras da língua e criar uma infinidade de outras, supõe-se que o significado do que dizemos também resulta da combinação de um número finito de elementos. E como, além de palavras, usamos muitos outros signos para pensar e nos comunicar, esses elementos seriam os responsáveis pelo sentido de imagens, sons, cheiros, gestos, símbolos matemáticos, sinais de trânsito…
Indagações sobre a natureza da significação originaram um campo de pesquisas recente, mas bastante fértil: as ciências cognitivas. Esse campo reúne ciências que vão da biologia molecular, genética e neurofisiologia à psicologia, lingüística e semiótica. Assim o homem processa a informação percebida pelos sentidos para transformá-la em conceitos e, a seguir, em signos.
Antecedentes históricos
Os primeiros a se interessar pela questão foram os filósofos gregos. No século 4 a.C., Aristóteles postulou a existência de categorias gerais do pensamento (substância, qualidade, ação), que resultaram no que conhecemos hoje como classes gramaticais. Ou seja, acreditando explicar o pensamento, ele estava na verdade investigando a linguagem.
A busca pela matéria-prima do pensamento foi retomada inúmeras vezes por vários estudiosos. John Locke, no século 17, afirmava que tudo o que podemos conceber seria uma combinação de noções de base, ou qualidades, que podem ser primárias (extensão, forma, movimento) ou secundárias (cor, som, sabor). O ser seria a mais primária das qualidades. A “sintaxe” cognitiva de Locke previa a existência de idéias primeiras e de conexões entre elas: identidade/diversidade, correlação, coexistência.
Para Locke, o que entendemos por ouro é algo que nos faz pensar simultaneamente nas propriedades “material”, “inanimado”, “sólido”, “amarelo”, “brilhante”, “metálico” e “valioso”, dentre muitos outros atributos. (Essa abordagem lembra a teoria dos memes de Richard Dawkins, mas eles não são exatamente a mesma coisa que as qualidades de Locke.)
Retomando as idéias dos filósofos atomistas gregos Leucipo e Demócrito, segundo os quais o mundo é composto de partículas mínimas indivisíveis (os átomos), e cientes de que só é possível pensar por meio da linguagem, Bertrand Russell e Ludwig Wittgenstein, já no século 20, voltaram a propor que qualquer conceito exprimível lingüisticamente pode ser decomposto em conceitos cada vez mais simples. Até o ponto em que não possam mais ser decompostos.
(9) Pesquisas sobre línguas indígenas norte-americanas também contribuíram para a elaboração de uma “gramática do pensamento”. É que a maioria dessas línguas expressa as idéias de forma mais concreta e direta do que as línguas européias. Por isso, seus enunciados estão mais próximos de uma sintaxe de base.
Decorrência da análise estrutural das línguas foram os estudos de Otto Jespersen, Jerry Fodor, Lucien Tesnière e, sobretudo, Noam Chomsky. Na verdade, Chomsky demonstrou que a língua tem uma estrutura profunda bem diferente da superficial e que a uma mesma estrutura profunda correspondem inúmeras estruturas superficiais distintas. Fodor e Chomsky também postularam a existência de uma “linguagem do pensamento”, ou gramática universal (uma espécie de “mentalês”), situada na estrutura hiperprofunda da linguagem, de que falarei adiante.
Enquanto isso, Louis Hjelmslev distinguia entre significado e sentido: significado é o que se diz, sentido é o que se quer dizer. Por isso, significados específicos de palavras e expressões quase nunca podem ser traduzidos com exatidão entre línguas, mas o sentido de uma frase ou texto sim.
A semiótica cognitiva procura dar conta da cognição de forma mais abrangente do que as teorias precedentes, embora ainda seja uma ciência em projeto. Os desdobramentos das pesquisas nos próximos anos dirão se estamos no caminho certo ou não.
Universalidade e visão de mundo
Todo sistema simbólico criado para comunicar ou raciocinar (a língua que falamos, os gestos, sinais de trânsito, fotos, desenhos, música) é uma linguagem. As linguagens e os discursos que produzem têm algumas características universais, decorrentes de processos biológicos comuns a todos os seres humanos. Por isso, podem ser descritos por um mesmo modelo teórico.
As linguagens, sejam verbais, não-verbais ou sincréticas (fusão de duas ou mais linguagens, como o cinema), são compostas por um léxico (conjunto de signos) e uma gramática (regras combinatórias desses signos). Elas são também capazes de gerar novos signos na medida das necessidades e, mais lentamente, modificar as regras de sua gramática. É isso que garante o funcionamento contínuo e eficaz das linguagens em face da constante mudança social.
Outra característica comum é que toda linguagem (re)cria permanentemente, na comunidade em que é usada, um sistema de valores, ou visão de mundo, que é o modo particular, próprio de cada cultura, de ver e pensar a realidade.
Mas, se existe um princípio universal de formação das linguagens, culturas e visões de mundo, o resultado disso é um vasto conjunto de linguagens, culturas e visões de mundo distintas, o que evidencia a riquíssima diversidade cultural e lingüística humana. Por operar códigos não estritamente biológicos, como os animais, o homem é a única espécie a criar milhares de códigos para se comunicar e pensar.
O que significa “conhecer”?
Todos os seres humanos percebem o mundo da mesma maneira. Entretanto, a “leitura” que cada povo (e, em menor grau, cada indivíduo) faz da realidade difere em função de seu sistema de valores específico. Um exemplo clássico são as cores: nas línguas européias, o arco-íris tem sete cores; em bassa (idioma da Libéria), tem apenas duas. Isso não significa que os falantes dessa língua percebam as cores de modo diferente; eles apenas dividem o espectro luminoso de outra forma (figura 1). Onde reconhecemos duas cores distintas (vermelho e laranja, por exemplo), um falante do bassa reconhece dois tons da mesma cor.

Figura 1: As cores do espectro da luz visível em português e bassa, língua africana da Libéria. Enquanto para nós o arco-íris tem sete cores, para os falantes do bassa tem apenas duas.
Não podemos conhecer a realidade tal qual ela é devido, primeiramente, às limitações dos nossos sentidos e, em segundo lugar, à nossa incapacidade de apreendê-la em si. O mundo real só pode ser pensado depois de interpretado em termos de uma cultura, isto é, traduzido em alguma linguagem, com seu respectivo sistema de valores. Isso implica um duplo processo de filtragem da informação potencial existente no meio (figura 2). O real é filtrado primeiro pelos sentidos (filtragem biológica) e depois pela cultura (filtragem cultural).
REALIDADE => |
FILTRAGEM BIOLÓGICA => |
FILTRAGEM CULTURAL => |
CONCEITO => |
SIGNO |
Figura 2: Nosso conhecimento do mundo real passa por dois processos de filtragem: primeiro o dos sentidos (filtragem biológica) e depois o da cultura (filtragem cultural), para ser transformado em conceitos e, a seguir, em signos, que possibilitam a comunicação.
Como se dá então a transformação dos dados da experiência, captados pelos sentidos, nos conceitos e signos com os quais pensamos?
As estruturas mentais e a “física” do pensamento
As teorias mais modernas apontam para a existência de vários níveis ou estruturas mentais através dos quais passam as informações vindas do meio até se transformarem em pensamentos e daí em signos, que tornam possível a comunicação.
O primeiro desses níveis é imediatamente posterior à percepção biológica e, ao mesmo tempo, anterior ao tratamento da informação por qualquer linguagem. É a estrutura hiperprofunda, nível da conceptualização, isto é, da construção de modelos mentais que vão originar significados nos mais diversos códigos. É o nível em que são produzidos os recortes culturais (as divisões da realidade percebida, como no caso das cores do arco-íris).
Os recortes, destacados do continuum da realidade percebida, são mentalmente analisados e decompostos em “partículas elementares” da significação, por analogia com os elétrons, quarks e léptons que constituem toda a matéria. Podemos chamar essas partículas de núons (do grego noûs, “mente, pensamento”), algo como as qualidades fundamentais de Locke, mas definidas com rigor matemático.
Embora o modo de conceptualizar o real varie entre culturas, todos os conceitos são formados de núons, e esses, embora em grande número, devem ser os mesmos em todas as culturas, afinal são provavelmente de natureza biológica e dizem respeito ao modo como o homem percebe – e concebe – o mundo. O núon equivale a um bit de informação na rede neural do cérebro.
Assim como as partículas elementares habitam o universo físico e são governadas por leis matemáticas, os núons atuam dentro do chamado universo semiótico, onde são regidos pelas regras da sintaxe hiperprofunda. Aliás, respeitadas as diferenças, tanto no universo físico quanto no semiótico, partículas se agrupam em complexos maiores que interagem uns com os outros, mantêm relações entre si, mudam de estado, se desorganizam e reorganizam, realizam e sofrem ações, num movimento incessante. Para entendermos como isso funciona, vamos primeiro recordar alguns princípios fundamentais da física.
O universo físico é concebido como um espaço-tempo quadridimensional, formado pelas dimensões comprimento, largura, altura e tempo. Assim, a localização de qualquer corpo em relação a um sistema de referência é dada por quatro variáveis representadas por x, y, z e t.
Os corpos são formados de matéria e dotados de energia, em diferentes estados de movimento e em interação entre si. Toda matéria é formada de moléculas, que são grupamentos de átomos, por sua vez formados de partículas elementares.
Segundo as leis de Newton, todo corpo se encontra em inércia ou movimento acelerado. A inércia, que é a conservação do estado de movimento, pode ser de dois tipos: repouso (ausência de movimento) ou movimento uniforme (movimento em linha reta com velocidade constante). Já o movimento acelerado consiste na mudança do estado de movimento (mudança de velocidade ou direção) sob a ação de uma força. Se há aceleração, há uma força atuante; portanto, a inércia é a ausência de forças.
No espaço físico, os fenômenos são descritos por equações matemáticas que envolvem as grandezas básicas (posição, tempo, massa, energia) sempre em relação a um sistema de referência, que toma arbitrariamente uma localidade do espaço como o ponto de coordenadas “zero”, ou origem do sistema (x, y, z, t = 0).
Mas o que isso tem a ver com o universo semiótico? Para compreendermos como a mente concebe a realidade, temos de admitir um universo mental tridimensional, formado pelas dimensões pessoa, lugar e tempo. Nele, toda descrição da realidade (todo enunciado, lingüístico ou não) toma como referência um ponto “zero” de coordenadas “eu”, “aqui” e “agora”. Todos os eventos concebíveis pela mente se organizam em termos das oposições eu/você/ele, aqui/lá, presente/passado/futuro (figura 3).
Figura 3: Sistema de referência do universo semiótico, no qual se desenrolam os fenômenos cognitivos. Os três eixos representam as dimensões pessoa, espaço e tempo.
No universo semiótico, todos os fenômenos envolvem a interação entre conceitos, que se enquadram nas categorias entes, processos e atributos. Entes são “coisas”, no sentido mais geral do termo. Atributos são as qualidades – permanentes ou transitórias – dos entes ou os estados em que se encontram. Um estado é a relação entre um ente e seus atributos ou entre dois ou mais entes. Processos são as mudanças de estado, isto é, mudanças de atributos ou de relações entre entes.
Os próprios entes e processos não são outra coisa senão complexos de atributos unidos de forma organizada e hierarquizada, como átomos em moléculas. Cada atributo pode ser traduzido, à maneira de um dicionário, em outros atributos cada vez mais simples, até chegarmos a atributos mínimos (os núons). Cores, cheiros e noções como “espaço”, “tempo”, “existência” e “negação” são todos núons.
Podemos enunciar para os fenômenos semióticos leis similares às de Newton. Em primeiro lugar, um ente pode encontrar-se numa das configurações a seguir.
- Estado (conservação dos seus atributos):
- estático: o sol brilha, a criança está dormindo, Pedro é médico.
- dinâmico: as crianças brincam, o cavalo corre nos campos, o dia passa.
- Processo (mudança de estado e, portanto, de atributos):
- espontâneo: o gato morreu.
- induzido: o cão matou o gato.
Em segundo lugar, um enunciado semiótico pode ser descrito por “equações” como as da tabela abaixo.
TIPO DE EQUAÇÃO |
ENUNCIADO LINGÜÍSTICO |
ENUNCIADO CONCEPTUAL |
Equação de estado |
O Sol é quente
O tempo passa |
E(a) |
Pedro tem dinheiro |
E1cE2 |
Pedro não tem dinheiro |
E11E2 |
Equação de processo |
Espontâneo |
O gato morreu |
E(a1 Y a2) |
Pedro perdeu o dinheiro |
E1cE2 Y E11E2 |
Induzido |
O cão matou o gato |
E1 <c> E2(a1 Y a2) |
Pedro deu o dinheiro a Paulo |
E1 <c> (E21E3 Y E2cE3) |
Nessas equações, E representa ente, a representa atributo, a seta indica ocorrência de processo, os sinais c e 1 significam respectivamente conjunção e disjunção entre entes, e o símbolo <c> (operador causal) indica o processo induzido. A representação matemática da sintaxe conceptual envolve outros símbolos (negação, reversão, encaixe, operadores modais), bem como permite a construção de estruturas geométricas em forma de árvore (semelhantes às da sintaxe de Chomsky). Os enunciados conceituais podem ser encaixados uns nos outros por coordenação ou subordinação, gerando seqüências muitíssimo complexas, em alguns casos só passíveis de processamento por computador. Uma simples frase como “Joãozinho não foi à escola hoje” pode implicar dezenas de enunciados interligados, numa estrutura tão complexa quanto uma molécula de DNA. É por isso que dotar uma máquina de um nível avançado de inteligência artificial é tão complicado.
Os enunciados conceituais expressos por essas equações dão origem, numa etapa posterior, a uma variedade de enunciados concretamente realizados, seja em que código for. O léxico e a gramática conceituais traduzem todas as nossas experiências, sejam intelectuais, sensíveis ou de qualquer outra natureza.
Agora fica clara a diferença entre o que se diz e o que se quer dizer: o significado profundo (sentido) de “o cão matou o gato” é: o cão fez o gato passar de um estado “vivo” a um estado “não-vivo”.
Conceitos universais e culturais
Os conceitos dividem-se em duas categorias: protoconceitos (universais), comuns a todas as culturas e decorrentes da natureza biológica da mente (Sol, bom, morrer), e conceitos culturais (caneta, Natal, democracia), específicos de uma cultura, disponíveis para formar signos nas diversas linguagens dessa cultura. Os conceitos culturais ocupam um nível um pouco menos profundo que o dos universais.
Os protoconceitos permitem a “tradução” entre linguagens pertencentes a culturas diferentes (dois idiomas distintos, por exemplo). Já os conceitos culturais são os responsáveis pela diversidade de visões de mundo. Mas, por estarem na base da visão de mundo de cada povo, esses conceitos garantem igualmente a reiteração dessa visão em todas as linguagens utilizadas por esse povo.
Cada comunidade cultural tem seu léxico conceitual exclusivo. Desse modo, os significados dos signos de uma linguagem não podem ser transplantados diretamente para outra, em especial quando se trata de linguagens de comunidades distintas. No entanto, a informação potencial contida nos discursos produzidos numa linguagem sempre pode ser traduzida para outra, dentro ou fora da mesma cultura. Isso permite transformar um livro em um filme, bem como dublar para o português um filme falado em inglês, pois o que se traduz não é o significado, privativo de um dado código, mas o sentido, anterior e comum a todos os códigos.
Diferenças culturais acentuadas tornam ainda mais evidente a impossibilidade da perfeita tradução entre línguas a partir da estrutura superficial. Em tupi, a expressão xe katu (literalmente, “meu bom”) pode ser traduzida como “eu sou bom” ou “minha bondade”. Só o contexto pode discernir entre essas possibilidades. Conceptualmente temos EU(bom), ou seja, os conceitos [ser humano], [qualidade positiva] e [estado estático].
O nível conceitual pode ser comprovado em situações como quando não lembramos uma palavra mas sabemos o seu significado ou quando ouvimos uma conferência em língua estrangeira e, tempos depois, lembramos seu conteúdo mesmo sem lembrar em que idioma foi proferida.
Conceitos e linguagens
Outra característica do conceito é que ele sempre contém mais núons que cada um dos signos que gera, já que contém os traços semânticos de todos os signos que permite gerar. Assim, o conceito [cavalo] pode ser expresso pela palavra “cavalo”, por um desenho ou escultura, pela imitação do relinchar, por uma onomatopéia ou outros signos.
Quando digo “cavalo”, faço as pessoas pensarem no animal, mas não dou qualquer informação adicional sobre ele: não dá para saber, ouvindo a palavra, se o cavalo está selado, em movimento, nem seu tamanho, idade ou cor. Já a foto colorida de um cavalo traz informações sobre cor, tamanho, o local onde se encontra, seu estado de movimento (deitado, em pé, trotando, correndo) e eventualmente seu sexo e idade (adulto ou filhote). Entretanto, uma fotografia é uma representação bidimensional, que não informa sobre profundidade ou perspectiva, o que só uma imagem tridimensional pode fazer. Já numa radionovela, sugere-se a presença de um cavalo em cena imitando-se o ruído do trote. Nesse caso, não podemos saber a cor nem o sexo do cavalo, mas pensamos de imediato num cavalo em movimento.
Como resultado, cada um dos signos utilizados em nossa cultura para representar o conceito [cavalo] comporta certo número de informações, mas não todas as que o conceito abrange. Há, aliás, certos traços associados à idéia de cavalo que nenhum signo é capaz – até o momento – de comunicar, como o cheiro do animal (ainda não inventaram fotografia nem televisão com odor!), certamente um dos traços mais fortes do conceito.
A “química” dos conceitos
Como os conceitos mantêm intersecções e sobreposições, os núons comuns a vários conceitos ([cavalo], [égua], [potro], [cavalgar], [eqüestre], [equitação]) constituem um “núcleo nuônico” em torno do qual se estabelecem vários campos semânticos. Conceitos diferentes podem ter um mesmo núcleo e núons periféricos diferentes ou ter núcleos diferentes e partilhar núons periféricos. Conceitos distintos ligam-se pelo compartilhamento de núons, num processo semelhante ao das ligações químicas em que átomos partilham elétrons e formam moléculas (figura 4). Isso permite construir enunciados conceituais que serão as matrizes de enunciados verbais, como a frase “o homem morreu”, e não-verbais, como a cena de um homem morrendo num filme, graças à compatibilidade semântica (chamada de isotopia) entre os núons de [homem] e [morrer], o que não é o caso de “a mesa morreu”.
Figura 4: Esquema de uma isotopia entre dois conceitos – conceitos diferentes podem ter um mesmo núcleo e núons periféricos variados ou ter núcleos diferentes e partilhar núons periféricos.
Os campos semânticos formam uma rede onde os fios são os campos e os nós (cruzamentos de fios) são os conceitos (figura 5). Cada conceito é o ponto de cruzamento de muitos campos semânticos, e cada campo é uma família de conceitos inter-relacionados.
Figura 5: A rede semântica é como uma malha multidimensional, na qual os “nós” são os conceitos e os “fios” são os campos semânticos – cada conceito é o ponto de cruzamento de muitos campos semânticos.
Reconstrução permanente
A visão de mundo de cada um é (re)construída a cada pensamento, concebido como um diálogo interior por meio de signos verbais, não-verbais e sincréticos. Igualmente, a visão de mundo de uma comunidade se (re)constrói a cada ato de comunicação entre os seus membros. A acumulação desse conhecimento é o que chamamos de cultura. O conjunto de todos os núons constitui a noosfera.
Assim como as línguas, todas as visões de mundo obedecem a princípios universais de formação. Descobrir o alfabeto com o qual é possível “escrever” essas visões significa criar uma metalinguagem que descreva qualquer sistema cognitivo, não importa dentro de qual cultura.
O objetivo final dessas investigações é criar uma “teoria de tudo” em matéria de linguagem e cognição: assim como os físicos perseguem um modelo que unifique a relatividade geral e a mecânica quântica, a semiótica cognitiva busca unificar as teorias semióticas disponíveis, suprindo suas limitações. Muito ainda falta caminhar nessa direção, mas as perspectivas são as mais promissoras.
Para conhecer mais
BIZZOCCHI, Aldo. Anatomia da cultura. Uma nova visão sobre ciência, arte, religião, esporte e técnica. São Paulo: Palas Athena, 2003.
CHOMSKY, Noam. Language and thought. Kingston, RI: Moyer Bell, 1995.
FODOR, Jerry. The language of thought. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1983.
LOCKE, John. Ensaio sobre o entendimento humano. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1999.
PINKER, Steven. O instinto da linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
RASTIER, François. Sémantique et recherches cognitives. Paris: P.U.F., 2001.
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