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  CAÇA À PALAVRA FÓSSIL

Publicado em Língua Portuguesa, ano 3, n.º 41, março de 2009

A noção de que uma língua dá origem a outra é anterior ao próprio nascimento dos estudos da linguagem

A ideia de evolução é relativamente recente. A concepção de um mundo em constante mudança se consolidou sobretudo a partir da publicação de A Origem das Espécies, de Charles Darwin, em 1859. Até então prevalecia uma visão estática da realidade, em que o Universo era eterno, de dimensão restrita ao alcance da vista e, acima de tudo, imutável, ou seja, tudo o que nele houvesse era assim desde o início dos tempos.

A descoberta de Darwin de que os seres vivos evoluíram de formas mais simples, até a complexidade que temos hoje, por meio de mutações e da seleção natural não só pôs em xeque o mito da Criação como também influenciou outras áreas do conhecimento. Tanto que hoje o modelo evolucionista se aplica a praticamente todos os aspectos da existência: sociedade, economia, cultura, informática e o próprio Universo.

Mas a compreensão de que as coisas evoluem segundo regras claras não nasceu na biologia nem na história. Foi no domínio das línguas que pela primeira vez se considerou a existência de leis que determinam a mudança. Curiosamente, a noção de que uma língua dá origem a outra é anterior ao próprio nascimento da linguística, pois já na Idade Média se acreditava que o latim descendesse do grego, e este, do hebraico, que teria sido a primeira língua da humanidade, falada por Adão e Eva no Paraíso. Ou seja, o embrião do conceito de evolução, por sinal, usado de maneira equivocada, convivia com o criacionismo bíblico.

Mas, assim como o registro fóssil é a prova maior de que a vida na Terra mudou muito ao longo de milhões de anos, os documentos escritos do passado são o testemunho da evolução linguística. E assim como algumas espécies biológicas pouco ou nada mudaram nesse tempo todo (o iguana é um exemplo de réptil que se conserva praticamente inalterado desde a era dos dinossauros), também palavras podem atravessar incólumes séculos e séculos.

Mas existem duas razões para isso: algumas palavras não mudaram simplesmente porque, por mera obra do acaso, nenhuma mutação fonética as atingiu, enquanto outras ficaram ao abrigo da evolução por diversas circunstâncias. Um exemplo do primeiro caso é o pronome pessoal “tu”, que já tinha essa forma em indo-europeu, manteve-se no latim, passou ao ibero-romance e chegou ao português. Já a palavra “graal”, do latim gradalis, ilustra o segundo caso. Como o iguana, essa palavra é um verdadeiro fóssil vivo. De uso corrente na Idade Média, designava um tipo de cálice. Ficou particularmente conhecida por causa do Santo Graal, taça em que Jesus supostamente bebeu na última ceia (outra versão dá conta de que o graal também teria sido usado para recolher o seu sangue na cruz). Essa narrativa deu origem a uma epopeia medieval francesa, depois traduzida para outras línguas, dentre as quais o português, em que ganhou o título de A Demanda do Santo Graal (em termos atuais, “A Busca do Cálice Sagrado”).

Evolução

“Graal” caiu em desuso logo após o fim da Idade Média e, por isso, parou de evoluir. No século 19, com o avanço dos estudos literários e a volta do interesse por tudo que fosse medieval, A demanda voltou à ordem do dia e a palavra “graal” do título voltou a ser usada, sempre em referência ao Cálice Sagrado. Hoje já há um grande número de publicações, até na linha da autoajuda e do esoterismo, falando do Graal, mesmo em sentido figurado, como algo que se busca incessantemente para chegar à felicidade.

Se a palavra “graal” tivesse seguido a evolução fonética natural da língua, hoje seria provavelmente “gral”. Como teve sua evolução congelada, permanecendo por séculos registrada apenas na epopeia medieval, manteve a forma fonética e gráfica que tinha na Idade Média, com os dois aa que normalmente teriam se fundido pelo processo da crase.

Intocadas

Mas palavras podem manter-se intocadas por outras razões. Os antigos particípios portugueses em -udo (perdudo, conhoçudo) desapareceram da língua, substituídos pelas formas correspondentes em -ido (“perdido”, “conhecido”). No entanto, a expressão “teúda e manteúda” se conservou no jargão do direito, bem como a forma “aluguer”, que nos demais usos do idioma foi substituída por “aluguel”.

Algumas palavras e expressões arcaizantes são atualmente usadas em textos literários para criar uma ambiência antiquada (por exemplo, novelas de época ou a fala de personagens idosos). É o caso de “supimpa”, “cáspite”, “forfait”, “chusma”, “com a breca”, “por Júpiter”, “à mancheia”, “borbotões”, “de enfiada”, “incontinenti” e muitas outras. Temos ainda palavras que se conservaram apenas em expressões idiomáticas, algumas delas também tendendo ao arcaísmo, como “sem eira nem beira”, “velho e relho”, “não dizer chus nem bus” e “sem tir-te nem guar-te”. Esta última é particularmente interessante porque os hifens revelam tratar-se de formas verbais seguidas de pronome oblíquo. A forma primitiva da expressão era “sem tira-te nem guarda-te”, em que “tira-te” e “guarda-te” são imperativos com o sentido de “tome cuidado”, “proteja-se”. Portanto, a expressão quer dizer “subitamente”, “sem aviso prévio”, ou como se dizia antigamente, “de chofre” ou “numa volantina”. Coisas de antanho…

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