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  A IDEOLOGIA DAS RAÍZES

Publicado em Língua Portuguesa, ano 3, n.º 40, fevereiro de 2009

O processo de formação das palavras e empréstimos de outros idiomas podem revelar ideologias da língua

A Europa ocidental engloba duas famílias lingüísticas principais: a românica, ou neolatina, cujas línguas provêm do latim vulgar, e a germânica, descendente do germânico comum. O latim e o germânico derivam do indo-europeu, língua não documentada, falada na Pré-História e reconstruída pelo método histórico-comparativo.

No entanto, os idiomas pertencentes a essas duas famílias têm mais em comum do que só a ascendência indo-européia. Os países que os falam constituem a civilização ocidental (ou global), a mais influente já surgida no planeta, fruto do legado cultural greco-romano e dos valores judaico-cristãos. Essa dupla herança – cultura clássica e cristianismo – condicionou a história, os costumes, a maneira de pensar e a língua desses povos, principalmente no léxico, que sempre foi fortemente influenciado pelo latim literário (e, em menor escala, pelo grego, através do latim). Afinal, até aproximadamente o século 11, o latim era o único idioma de cultura do Ocidente, nele sendo escritos todos os documentos literários, religiosos, filosóficos, jurídicos, burocráticos e proferidos todos os discursos formais (missas, sentenças judiciais, aulas universitárias). Os dialetos vulgares (falares que não o latim) eram usados em situações corriqueiras.

Vulgares

Ao fim da Idade Média, alguns dialetos começam a produzir documentos escritos, tornando-se pouco a pouco os idiomas de cultura que hoje conhecemos (francês, italiano, espanhol, inglês, alemão e, claro, o português). Nesse momento, seu vocabulário, até então restrito ao universo da casa, do comércio e da agricultura, passa a importar palavras do latim e do grego para dar conta de vivências que até então só tinham expressão nas línguas clássicas.

É então que tais línguas se vêem confrontadas com escolhas a ser feitas: importar o vocábulo grego ou latino no original ou adaptar sua fonética e morfologia à língua de destino? Usar a palavra latina ou substituí-la por equivalente vulgar? Importar do latim ou de outra língua vulgar que já tenha literatura de prestígio? Tomar emprestado ou criar nova palavra usando só material vernáculo? São essas escolhas que as línguas fizeram e fazem que determinam uma espécie de “perfil ideológico” do léxico de cada uma: línguas mais “classicizantes” ou “vulgarizantes”, mais xenófilas ou xenófobas, mais nacionalistas ou cosmopolitas, e assim por diante. Evidentemente, o português também faz essas escolhas.

Ideologia

Quando pegamos um manual de instruções redigido em várias línguas, notamos que, onde o francês e o inglês empregam a palavra latina instruction (do latim instructione), em que só a desinência foi adaptada, o português substitui o sufixo ‑tione pelo vernáculo ‑ção (“instrução”) e suprime o c do radical, enquanto o italiano elimina o n e o c e adapta à ortografia (istruzione), e o alemão cria um decalque a partir do latim (Anweisung). Ou seja, diante da necessidade de importar uma palavra latina, cada língua a incorpora segundo um processo diferente.

Parte do léxico dos idiomas românicos e germânicos foi herdada das respectivas línguas-mães (latim vulgar e germânico comum), parte foi importada de outras línguas (clássicas ou vulgares) e parte foi criada internamente, por composição ou derivação a partir de palavras já existentes. O empréstimo pode ser direto (a partir da própria língua criadora da palavra) ou indireto (quando a palavra provém de uma língua em que ela já era empréstimo). Além disso, tanto os empréstimos quanto as criações internas sofrem a evolução histórica.

A influência das línguas clássicas sobre as vulgares foi tanta que, ainda hoje, termos técnico-científicos e vocábulos de cultura de idiomas europeus são empréstimos do grego ou latim, ou estão formados com elementos mórficos dessas línguas e segundo seus modelos. Tanto que uma palavra grega ou latina recém-introduzida numa língua européia não é sentida como estrangeira, mas já entra com todas as adaptações fonológicas, morfológicas e ortográficas que a tornam, desde o início, palavra familiar à língua (“teatro”, “organismo” e “temperatura” jamais foram sentidas como estrangeirismos em português). Já palavras de outras línguas chegam como estrangeirismos (o que é revelado pela grafia, pronúncia e morfologia) e só depois perdem, ou não, o caráter estrangeiro (football aportuguesou-se para futebol; pizza ainda não).

As línguas européias sofrem influências verticais do grego e latim e horizontais das demais línguas. Em princípio, tais influências se exercem igualmente em todas as línguas. Mas cada uma cria ou renova seus itens lexicais por meios diferentes. Cada língua demonstra preferências por certos processos, os quais mudam com o tempo, de modo que a feição do léxico num dado momento resulta das tendências até então, que de certa forma determinam também o futuro, já que muitos de seus traços irão repetir-se de modo sistemático. Essa postura “ideológica” fica patente em relação aos empréstimos, pois em face da influência estrangeira, seja ela greco-latina ou vulgar, cada língua delineia suas tendências de formação do vocabulário.

Classificação por origem

Dado o afluxo de termos greco-latinos às línguas européias, os vocábulos destas podem ser divididos em: palavras cultas (cultismos), semicultas (semicultismos), vulgares (vulgarismos) e inclassificáveis.

Cultismos são as palavras tomadas do grego, do latim ou resultantes da combinação de elementos greco-latinos. Vulgarismos são os vocábulos herdados, seus compostos e derivados, bem como os estrangeirismos. Já os semicultismos apresentam hibridismo de elementos cultos e vulgares, seja por combinação ou por vulgarização da forma greco-latina.

São inclassificáveis as palavras inventadas (“chinfrim”, “zureta”, “poperô”), as onomatopéias (“zunzum”, “tilintar”), as derivadas de siglas (“ufologia”, “petista”, “aidético”) ou de nomes próprios (“amperímetro”, “kantiano”), bem como as que contêm fragmentos de morfemas (“reprografia”, “informática”, “metrô”, “minissaia”, “showmício”).


Os vulgarismos surgem por:

Herança – São as palavras vernáculas: “pedra”, “cavalo”, “bom”, “andar”.

Empréstimo de um vulgarismo estrangeiro – São os estrangeirismos: “futebol”, “abacaxi”, “pizza”, “bonbonnière”.

Tradução de vulgarismo estrangeiro – É o decalque de estrangeirismo: os termos ingleses skyscraper e hot dog deram em português respectivamente “arranha-céu” e “cachorro-quente”.

Composição com radicais vulgares – “Puxa-saco”, “pernilongo”, “cabisbaixo”.

Derivação a partir de radical vulgar, seja com afixos cultos ou vulgares – “Cabecear”, “mesário”, “saudosismo”.


Os cultismos são criados por:

Empréstimo de palavra diretamente do grego ou latim (cultismo direto) – “Teatro”, “temperatura”, “status”.

Empréstimo de cultismo a partir de outra língua vulgar (cultismo indireto) – “Helicóptero” e “iniciativa”, do francês; “fractal” e “genoma”, do inglês.

Refecção (restauração) – Substituição de vulgarismo pela palavra latina que lhe deu origem: latim silentiu, flore, que evoluíram para o português arcaico seenço e chor e foram refeitas na renascença para “silêncio” e “flor”.

Restituição – Empréstimo de vulgarismo ou semicultismo estrangeiro com substituição de seus morfemas por correspondentes gregos ou latinos: inglês to feed back, português “retroalimentar”; francês opérationnel, português “operacional”.

Composição com radicais cultos – “Anteroposterior”, “supramencionar”.

Derivação a partir de radical culto com afixos cultos – “Fisiologismo”, “globalitarismo”.


Os semicultismos provêm de:

Tradução de palavra grega ou latina – É o decalque de cultismo, que pode substituir todos os morfemas (latim superponere, supervivere > português “sobrepor”, “sobreviver”), somente alguns (lat. fugitivu, providere, emotione > port. “fugidio”, “prover”, “emoção”) ou ainda a palavra inteira (o alemão expressa o conceito abstrato de “núcleo” pela palavra vernácula Kern, “caroço”).

Metamorfismo – Substituição, tanto na pronúncia quanto na escrita, de fonemas da palavra culta por outros, típicos da língua vulgar, seja porque o empréstimo sofreu evolução fonética ao longo do tempo ou mutação no momento de sua introdução (o lat. doctore deu em português “doutor” e não “doctor”, que seria o esperável tratando-se de empréstimo de palavra culta; a mutação se deu por analogia com palavras herdadas que sofreram exatamente essa evolução fonética).

Refecção parcial – Substituição de alguns morfemas de um vulgarismo pelos equivalentes latinos, com a manutenção dos demais:  lat. inimicu, que deu o português arcaico eemigo, depois refeito para “inimigo”, mantendo-se o sufixo vernáculo ‑igo).

Composição com um radical culto e outro vulgar – “Auriverde”, “rubro-negro”, “bafômetro”.

Derivação a partir de radical culto com afixos vulgares – “Agricultável”, “deseducar”.

O metamorfismo é espontâneo quando resulta da evolução fonética natural, acompanhado das correspondentes adequações gráficas (por exemplo, lat. canonicu, clericu, capitulu e articulu > port. “cônego”, “clérigo”, “cabido” e “artigo”) e deliberado quando ocorre por analogia com palavras herdadas (lat. directu e includere > port. “direto” e “incluir” por analogia com pectu > “peito” e sudare > “suar”).

Em certos casos, o metamorfismo é obrigatório, como em “estátua”, do lat. statua, em que o acréscimo do e inicial é exigido pela própria estrutura fonológica da língua portuguesa. Em outros casos, o metamorfismo é facultativo, como nas palavras latinas doctore, conceptu e senatu, que deram na nossa língua “doutor”, “conceito” e “senado” quando poderiam ter dado “doctor”, “concepto” e “senato”.

Finalmente, dois ou mais processos podem co-ocorrer num mesmo vocábulo, como no já citado caso da palavra “instrução”: a queda do c do lat. instructione é um metamorfismo analógico, e a substituição de ‑tione por ‑ção é tradução parcial.

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