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Publicado em Língua Portuguesa, ano 3, n.º 36, outubro de 2008 Campo da linguagem reproduz confronto similar ao que absorve a ciência e a fé A Idade Média representou a fase da história do Ocidente em que tudo o que era preciso saber a respeito do mundo material e espiritual já estava dado por Aristóteles e pela Bíblia. O conhecimento era estático e imutável. Afirmações eram verdadeiras não porque tivessem sido provadas pelo raciocínio ou pela experiência, mas porque eram feitas por autoridades religiosas. Com a Renascença, uma nova perspectiva surgiu. Houve um “renascimento” da paixão clássica pelo conhecimento racional e empírico. Mas, apesar de o poder de explicação da ciência ser maior que o dos livros sagrados, grande parte da humanidade ainda acredita mais na religião do que na ciência. No campo da linguagem se dá um embate igualmente trágico entre pensamento racional e postura tradicionalista, dogmática, subjetiva e autoritária. Não sou contra a normatização, necessidade de todas as línguas. Mas o espírito que norteia a análise da língua e o estabelecimento das regras pela gramática normativa se assemelha muito à conduta obscurantista e anticientífica da religião. Tradicional A gramática que estudamos na escola, com suas denominações (substantivo, adjetivo, verbo, sujeito, predicado etc.) e seu ímpeto legiferante, remonta a Aristóteles e a gramáticos como Dionísio de Trácia (séculos 2-1 a.C.), Apolônio Díscolo, Donato (ambos do século 1 d.C.) e Prisciano (século 5 d.C.). Desde seu surgimento, a gramática se propõe a dupla missão de descrever e regulamentar a língua para garantir a sua pureza, impedir sua corrupção e auxiliar as pessoas a bem falar e escrever. Portanto, se uma de suas missões (descrever) a torna precursora das ciências da linguagem (embora a gramática tome como corpus de sua descrição a escrita culta, desprezando outras manifestações lingüísticas), a outra (regulamentar) a aproxima da atividade legislativa, com a ressalva de que gramáticos não detêm mandato para legislar sobre o idioma. Já a preocupação dos gramáticos com o bem falar e escrever faz deles uma espécie de “estilistas” da língua, decidindo, à maneira dos consultores de moda, o que é elegante ou de mau gosto em matéria de expressão verbal. Gramáticos A rigor, qualquer um que publique um livro intitulado Gramática pode dizer-se gramático. Sua maior ou menor respeitabilidade dependerá da adesão que seu livro tiver pelos professores. No Brasil, até professor de cursinho com coluna em jornal ou rádio passa a ser considerado autoridade do idioma, não importa que ele não tenha título acadêmico ou produção científica. Felizmente, a maioria dos gramáticos não é tosca. Mas nem sempre tem formação científica: são, fundamentalmente, professores, não pesquisadores. Seu método consiste em usar como ferramenta de trabalho o modelo de análise de Dionísio de Trácia e em ditar regras do bom uso com base em critérios subjetivos: a abonação por autores do passado ou a própria opinião do gramático. Não é preciso dizer que a gramática de Dionísio vale tanto hoje quanto a física de Aristóteles. Já a adoção dos clássicos da literatura como parâmetro da correção gramatical implica problemas. Primeiro, baseia-se só na modalidade escrita. Segundo, toma como norma o que era desvio: a literatura prima pela liberdade criativa e pela transgressão. Além disso, a norma fundada nos escritores do passado peca por anacronismo e subserviência ao português lusitano (o pré-Modernismo seguia o padrão vigente em Portugal). Mas a principal crítica à gramática é à falta de fundamentação científica, pela ausência de comprovação empírica, escolha de amostras pouco representativas, quantitativa e qualitativamente, e pelo uso de método mais reflexivo-dedutivo do que observacional-indutivo. Religiosidades As “explicações” religiosas não se baseiam na lógica nem na experiência, mas na tradição e autoridade. Com o raciocínio gramatical ocorre o mesmo: um dado uso é correto simplesmente porque o eminente Fulano, em sua Gramática de antigamente, afirma que assim deve ser, já que os escritores Sicrano e Beltrano assim escreveram no século 19. Os gramáticos são, portanto, como doutores da Igreja interpretando as “sagradas escrituras” lavradas pelos autores clássicos. As verdades gramaticais são como dogmas religiosos: • Os elementos essenciais da oração são sujeito e predicado; Não importa que haja orações sem sujeito; que as pesquisas sobre a estrutura hiperprofunda da linguagem e a cognição humana demonstrem que o predicado não existe; não importa que a definição de sujeito e predicado se baseie mais na lógica aristotélica do que na semântica e pragmática das línguas naturais; e uma série de experimentos lingüísticos provem que não há voz passiva sintética em português nem que “ter” seja transitivo… Como a religião, a gramática desconfia da pesquisa e acredita no argumento de autoridade. Como a Igreja, estabelece as virtudes teologais e os pecados capitais em matéria de língua e condena ao fogo da Inquisição os hereges que infringem a lei sagrada. Assim como a física e a metafísica de Aristóteles explicam o mundo criado por Deus em seis dias, a gramática grega de Dionísio explica todas as línguas do mundo (nascidas certamente da Torre de Babel). Assim como os religiosos conservadores combatem a ciência (os liberais tentam em vão compatibilizá-la à doutrina), os gramáticos conservadores anatematizam a lingüística por verem nela uma ameaça à “pureza” do idioma. Os mais modernos até respeitam a ciência da linguagem, mas nem por isso a estudam a fundo ou a adotam. Descompasso Resulta disso um descompasso tão grande entre a gramática e o uso que fazem os falantes cultos quanto o que se verifica entre os mandamentos da Igreja e o comportamento moderno. E como na religião, a gramática mais ortodoxa tem muitos seguidores, para quem “a língua está se degenerando dia a dia”, “ninguém mais sabe falar português” ou “já não se fazem mais escritores como antigamente”. Ao fim e ao cabo, a gramática, que deveria ser instrumento de racionalização da língua para a intercompreensão entre os falantes, acaba sendo o contrário: uma força que obstaculiza a simplificação e a modernização. O resultado? Um conhecimento estático, que passa incólume de geração a geração. Nos EUA, autoridades tentam impedir o ensino da teoria da evolução de Darwin nas escolas, impondo em seu lugar o criacionismo. Há no Brasil uma luta de poder entre lingüistas e gramáticos semelhante à que se trava lá entre biólogos e pastores. Professores de português ensinam seus alunos com base nas normas vigentes, por mais ilógicas e anacrônicas que sejam. Estes precisam dominar tais normas, pois serão exigidas em vestibulares e concursos, não raro elaborados por professores fiéis à doutrina (é assim mesmo que os gramáticos chamam às suas prescrições). Professores de escalão mais alto redigem gramáticas e livros didáticos que serão a Bíblia do catecismo lingüístico. Em jogo, a manutenção do poder nas salas de aula, nos processos seletivos, nos jornais, rádio e TV. Afinal, a ciência, por sua natureza inquiridora, é antiautoritária. Não é à toa que amantes do poder absoluto, sejam sacerdotes ou gramáticos, não gostem dela. |
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