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Publicado em Língua Portuguesa, ano 3, n.º 39, janeiro de 2009 De forma semelhante aos sistemas de referência usados na astronomia, línguas apresentam métodos de orientação bastante diversos entre si Há uma noção correlata ao tempo, tema tratado em Língua 38 (dezembro), que é igualmente fundamental para nossa compreensão do mundo: o espaço. Todos temos a sensação de viver num espaço tridimensional. A física especula que o Universo tem 10 dimensões espaciais, mas a maioria teria se contraído logo após o Big Bang (a explosão que deu origem ao cosmo), sendo detectável apenas em fenômenos da escala quântica, tendo restado somente as três dimensões clássicas: comprimento, largura e altura. Por isso, para localizarmos objetos no espaço, precisamos de três informações, que em sistemas de maior precisão são dadas na forma de números: as coordenadas. Para determinar a posição de um avião em vôo, preciso saber sua latitude, longitude e altitude. Essas coordenadas são estabelecidas a partir de um ponto de referência – o Equador para a latitude, o meridiano de Greenwich (longitude) e o nível do mar (altitude). Se adotássemos outro ponto de referência – o Pólo Norte, o meridiano de Brasília e a altura do Everest –, as coordenadas seriam outras. Para localizar-se na Terra, o homem também criou sistemas de referência, como os pontos cardeais (correspondentes ao nascer e ao pôr-do-sol, ao meio-dia e à meia-noite) e as estrelas do céu noturno. Também dispomos de termos que localizam objetos em relação a nós mesmos, como “esquerda”, “direita”, “acima”, “abaixo”, “adiante” e “atrás”. Praticamente todas as línguas têm palavras para designar pontos cardeais, que provêm das denominações do nascente, do poente, do hemisfério em que o Sol se encontra ao meio-dia e do hemisfério oposto. Raízes Em latim, os pontos cardeais eram oriens (do verbo orior, “levantar-se”), occidens (de occido, “pôr-se, descer”), meridies (“meio-dia”) e septentriones (os sete bois de lavra ou as sete estrelas da Ursa Maior). Dessas palavras vieram “oriental”, “ocidental”, meridional” e “setentrional”. Portanto, o latim relacionava as quatro direções à passagem do tempo: o nascente, ou leste, correspondia às 6 horas; o meio-dia era a hora em que o Sol se encontrava na metade do trajeto, o que, visto do Hemisfério Norte, o fazia parecer mais inclinado para o sul; o poente, ou oeste, correspondia às 18 horas, e à meia-noite a constelação da Ursa Maior era visível ao norte. Mas os termos que usamos para os pontos cardeais se originam das línguas germânicas, nas quais também há a correlação entre a posição do Sol e a hora do dia. “Leste” vem do francês l’est, por sua vez do inglês east, da raiz indo-européia aus (brilho), que deu “austro”, “aurora” e “ouro”. “Oeste” vem do inglês west, da mesma raiz de “vespertino”, de Vênus, a estrela vésper. “Sul”, do antigo inglês suth (south hoje), vem do germânico sunthaz, “o lado do Sol”, isto é, o hemisfério sul, para onde pende o Sol ao meio-dia. E “norte”, do inglês north, “lado esquerdo”, pois os germanos se orientavam olhando de frente para a região do nascente. Aliás, os termos “nascente”, “levante”, “poente”, “ocaso”, “orientar” e “nortear”, as denominações Midi e Mezzogiorno (“meio-dia” respectivamente em francês e italiano), que nomeiam as regiões meridionais da França e da Itália, bem como a expressão “meia-noite” (em “sol da meia-noite”) aplicada aos povos escandinavos, são todos reminiscências desse primitivo sistema de orientação pelo Sol. Referências Sistemas de referência com base em acidentes geográficos ou fatos astronômicos são chamados de “cosmocêntricos”. Já os baseados no nosso próprio corpo são “antropocêntricos”. Portanto, os pontos cardeais constituem um sistema cosmocêntrico. Ele é muito útil na navegação, mas não parece prático para indicar a alguém em qual gaveta achar o abridor de latas. Para isso, usamos o sistema antropocêntrico: “na segunda gaveta da direita, de cima para baixo, do armário à esquerda de quem entra na cozinha”. O mesmo vale para nos localizarmos na cidade ou em um edifício. A diferença entre o sistema cosmocêntrico e o antropocêntrico é que o primeiro é absoluto e o outro depende de nossa postura corporal. Assim, não importa em que posição eu esteja, o norte é sempre norte: se caminho com uma bússola nas mãos, meu corpo se move, mas a agulha permanece apontando a mesma direção. Mas se estou de frente à parede, digo que ela está à minha frente; se dou meia volta, agora ela está atrás de mim. Relatividade Várias línguas, especialmente as tribais, adotam só o sistema cosmocêntrico, até para localizar objetos próximos. Elas não têm palavras para “esquerdo” e “direito”, por exemplo. Enquanto dizemos “tem uma mosca pousada no seu ombro esquerdo”, elas dizem “tem uma mosca a noroeste da sua cabeça”. Também as noções de “longe” e “perto” apresentam diferentes concepções conforme a língua. O português distingue entre “aqui”, “aí” e “lá” (também “ali”, um intermediário entre “aí” e “lá”), e “este”, “esse” e “aquele”. Ou seja, localizamos objetos em termos da proximidade da 1ª, 2ª ou 3ª pessoa do discurso. O inglês reconhece só duas distâncias relativas (here/there, this/that), e o francês oscila entre duas e uma (os advérbios de lugar são ici e là, mas só há um pronome demonstrativo, ce; para distinguir entre o próximo e o distante, usa-se às vezes um advérbio complementar: ce cahier-ci, “este caderno”, ce cahier-là, “esse ou aquele…”). O advérbio y, “aí”, remete sempre a algum termo anteriormente citado (função anafórica da linguagem, a que aponta para o próprio discurso), nunca a um objeto fora do discurso (função dêitica, que aponta para coisas do contexto extradiscursivo). Muitas outras noções referentes à localização apresentam diferenças de idioma a idioma: oposições como “em cima/acima/sobre”, embaixo/abaixo/sob”, “diante/adiante/avante” etc. não são de modo algum universais. Mesmo línguas próximas do português revelam métodos de orientação e localização bem diversos dos nossos. |
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