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  UMA BREVE HISTÓRIA DO TEMPO… VERBAL

Publicado em Língua Portuguesa, ano 3, n.º 38, dezembro de 2008

Quer o tempo exista em si ou seja produto da mente, os idiomas criaram mecanismos de referência semelhantes ao sistema de coordenadas da física

O que é o tempo? Para Santo Agostinho, “é a coisa mais fácil de compreender e a mais difícil de definir. Pois, se ninguém me perguntar, eu sei o que é; mas, se quiser explicar a quem me perguntar, já não sei”. O tempo é um dos conceitos mais intuitivos e enigmáticos de que a mente humana é capaz de ocupar-se. Filósofos e físicos se debruçaram sobre ele, sem chegar a uma compreensão absoluta. Parmênides achava que a passagem do tempo era simplesmente uma ilusão dos sentidos, o que, de certa forma, a ciência moderna parece confirmar.

Segundo Stephen Hawking, em Uma breve história do tempo, a sensação da passagem do tempo é ilusória porque o Universo é mais ou menos como a superfície do globo terrestre, só que dotado de quatro dimensões em vez de duas (algo difícil de visualizar, mas possível de ser concebido matematicamente). O tempo é então só uma dessas dimensões. Tanto que, embora não possamos vê-lo como vemos o espaço, falamos do tempo usando termos que remetem à idéia de espaço: “antes” x “depois” (equivalente a “diante” x “atrás”), “intervalo”, “dentro de duas horas”, “daqui a 15 minutos” (“aqui” significando “agora”), “a essa altura”, “neste ponto”, e assim por diante.

Do mesmo modo como, no globo terrestre, a latitude e a longitude não se movem, mas, conforme viajamos do Pólo Norte ao Equador, temos a sensação de que a circunferência do globo cresce, a própria expansão do Universo seria ilusória: todos os momentos da história do cosmo coexistiriam, e nós é que estaríamos viajando entre eles.

Outra explicação dada por Hawking para a sensação de que o tempo passa é a memória. Como só lembramos do passado e não do futuro (o que equivaleria à onisciência), e como vamos acumulando mais e mais lembranças, temos a sensação de que o passado se torna cada vez mais extenso e, portanto, o tempo está transcorrendo.

Nesse sentido, o instante presente é a fronteira entre os eventos já registrados na memória e os que ainda não registramos. Resulta daí a surpreendente conclusão de que a passagem do tempo não é um fenômeno da natureza e sim da nossa mente.

Pragmatismo

A noção de tempo é tão íntima ao ser humano que todas as línguas conhecidas a têm. (Especulações sobre línguas como o hopi e o pirahã, que não fariam distinção entre passado, presente e futuro, condenando seus falantes a um eterno presente, vêm sendo questionadas por estudos lingüísticos mais rigorosos.) É comum que certos idiomas não apresentem termos específicos para denominar o futuro, representando-o por construções no presente, equivalentes a “vou fazer”, “quero fazer” (por exemplo, o inglês I will do). A explicação é que, enquanto o passado e o presente são tempos efetivos, o futuro é sempre potencial.

Algumas línguas distinguem a ação em curso (imperfeita) da concluída (perfeita). Há as que distinguem o tempo da ação, mas não a maneira como ela se desenrola (o chamado aspecto verbal), enquanto outras dão mais importância ao aspecto do que ao tempo da ação.

Apesar de todas as diferenças, há constantes no modo como as línguas tratam o tempo. Para a mente, e conseqüentemente para a língua, há três tipos de tempo: anterior, simultâneo e posterior ao ato da fala, que convencionamos chamar respectivamente de passado (ou pretérito), presente e futuro.

No entanto, como são tempos relativos (o que já foi futuro um dia será passado), precisamos definir outras formas de datação para compreender como as línguas estabelecem os tempos verbais.

Para isso, temos de considerar não o tempo cronológico, mas os tempos pragmáticos, que são três: o tempo da enunciação (momento em que o enunciado é veiculado), o tempo do enunciado (momento focalizado pelo enunciado) e o tempo da ação (momento em que o ato se deu). Se hoje eu disser “ontem fez dois anos que minha avó morreu”, o tempo da enunciação é hoje, o do enunciado é ontem e o da ação é dois anos atrás. É a partir das diferentes combinações dos tempos pragmáticos que resultam os vários tempos verbais.

Aspectos

Assim, o pretérito mais-que-perfeito indica uma ação (ou estado) que ocorreu antes de outra, também já ocorrida (“Quando eu cheguei, ele já havia saído”); o futuro perfeito representa uma ação ou estado futuro, mas anterior a outro, também futuro (“quando você estiver lendo esta carta, já terei partido”); o pretérito imperfeito pressupõe ação/estado cujo início e fim extrapolam o tempo do enunciado (“Em 2004 eu estava em Paris”, isto é, cheguei lá antes de 2004 e parti depois desse ano), ao passo que o pretérito perfeito indica ação/estado com início e fim circunscritos ao tempo do enunciado (“Em 2004 eu estive em Paris”, ou seja, cheguei, permaneci e parti dentro do ano de 2004).

Há relação entre o tempo verbal (resultante da combinação tempo da enunciação x tempo do enunciado) e o aspecto verbal (tempo do enunciado x tempo da ação). Assim, o tempo verbal se resume a pretérito, presente e futuro; já o aspecto pode ser pontual (ação instantânea: “o copo quebrou”), durativo (ação ou estado que perdura no tempo: “o Sol brilha”), iterativo (ação que se repete várias vezes: “eu escovo os dentes todos os dias”), etc.

Por sinal, as denominações dos tempos verbais em português não refletem fielmente os aspectos. Tanto que o futuro simples pode indicar aspecto pontual (“Partirei amanhã”), durativo (“Sempre amarei você”) ou iterativo (“Trabalharei todos os dias da minha vida”), ao passo que o presente simples é durativo (“O Sol brilha”) ou iterativo (“Ele trabalha todos os dias”), mas nunca pontual (pelo menos com sentido de presente).

Além disso, o português não marca bem a distinção entre o pretérito simples (correspondente a um tempo do grego chamado aoristo) e o presente perfeito: “eu fiz isso ontem à noite” (tempo do enunciado = ontem; tempo da ação = ontem) x “eu já fiz isso” (tempo do enunciado = agora; tempo da ação = antes de agora).

Ou seja, usamos o mesmo tempo verbal (pretérito simples) para denotar um tempo da ação passado, qualquer que seja o tempo do enunciado. Já o inglês e outras línguas românicas e germânicas fazem distinção entre as duas situações: I did that last night x I have already done that. Enquanto o nosso pretérito distingue entre pontual e perfeito (“Todos os dias, quando eu chegava, ela já tinha saído”), no presente essa distinção não se dá (não se diz “todos os dias, quando eu chego, ela já tem saído”, mas “todos os dias, quando eu chego, ela já saiu”).

Contradições

Os demais tempos verbais também apresentam contradições. Sobretudo, nossa língua é mais rica em aspectos verbais referentes ao passado do que ao futuro – como a distinção perfeito x imperfeito, que não existe gramaticalmente no futuro, embora seja semanticamente possível. Isso parece ser um reflexo do indo-europeu, língua ancestral do português, a qual não expressava o tempo futuro, apenas presente e passado.

Quer o tempo exista em si ou seja produto da maneira como nossa mente vê o mundo, o fato é que as línguas criaram mecanismos de referência em relação ao tempo semelhantes ao sistema de coordenadas da física.

Assim como nos problemas de física, em que um tempo to = 0 é fixado arbitrariamente e todos os outros tempos do experimento (t1, t2, tn), anteriores ou posteriores a to, são determinados em relação a ele, nossa noção de passado, presente e futuro depende do tempo cronológico em que ocorre a enunciação.

Aliás, assim como na física as posições sucessivas de um corpo em movimento, dadas pelas coordenadas x, y e z, são estabelecidas a partir de um ponto de referência de coordenadas xo, yo, zo = 0, também as noções lingüísticas de espaço (aqui, aí, lá) e pessoa (eu, você, ele) variam em função do ponto de referência escolhido. Mas isso é assunto para outra ocasião.

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