Artigos de Divulgação
 
  A DISTÂNCIA ENTRE SER E ESTAR

Publicado em Língua Portuguesa, ano 3, n.º 37, novembro de 2008

As diferentes maneiras de expressar estados de permanência e transitoriedade revelam peculiaridades de cada idioma

As línguas românicas da Península Ibérica – português, galego, espanhol e catalão – são praticamente os únicos idiomas europeus a fazer distinção entre os verbos “ser” e “estar”, e, portanto, a marcar gramaticalmente a diferença entre estados permanentes e transitórios do sujeito. Em italiano existe o verbo stare, mas com o significado mais restrito de “permanecer, ficar” e mesmo de “estar em pé, estar parado”. (Esse verbo também se usa como auxiliar nos tempos contínuos: sta lavorando = “está trabalhando”.) Nesse sentido, stare não se contrapõe a essere (“ser”), mas a verbos como sedere (“estar sentado”) e camminare (“andar”), por exemplo. O mesmo acontece com seus equivalentes em inglês (stand) e alemão (stehen). Nem por isso tais línguas ignoram a diferença entre permanência e transitoriedade; elas apenas expressam esses atributos de outras maneiras.

Estados permanentes são qualidades inerentes ao sujeito, que fazem parte de sua essência, como a cor amarela do ouro ou o calor do Sol, ao passo que estados transitórios indicam condições passíveis de mudança, como a temperatura de um ambiente, a localização de um objeto ou o humor de uma pessoa. Isso não significa que um estado tido como permanente seja imutável: a solidez secular de um banco, apregoada até em seu slogan, não impede que ele quebre; o sexo de um indivíduo parecia imutável até surgir a cirurgia de mudança de sexo, e assim por diante.

Contudo, costumamos atribuir a certas condições um caráter mais estável do que a outras e, por isso, fazemos em português a distinção entre “ser” e “estar”, bem como entre “ter” e “estar com”. Observe a diferença entre “ele é diabético” (ou “ele tem diabetes”) e “ele está gripado” (ou “está com gripe”). Em outras línguas, essa diferença é assinalada em alguns casos, em outros não.

No inglês, o uso do verbo to be num tempo contínuo pode indicar estado momentâneo, enquanto o tempo simples indicaria permanência: that guy is always strange (“aquele cara é sempre estranho”) x that guy is being strange today (“aquele cara está estranho hoje”), mas it is cold today (“está frio hoje”). Igualmente, have pode significar a posse permanente (isto é, a propriedade) de algo, assim como hold denota uma posse circunstancial: he has a big house (“ele tem uma casa grande”) x who holds my car keys? (“quem está com a chave do meu carro?”).

Permanências

Mas as equações ser/ter = permanência e estar/estar com = impermanência não estão livres de contradições, contra-exemplos e casos espinhosos, que demandam a investigação do nível cognitivo hiperprofundo da linguagem para ser explicados. Um amigo meu, professor de português para estrangeiros, certa vez me relatou que, ao explicar em aula a diferença semântica entre “ser” e “estar”, um aluno americano lhe perguntou: se “ser” é definitivo e “estar” é passageiro, por que se diz “ele está morto” em vez de “ele é morto”, já que a morte é definitiva e irreversível? Essa pergunta, aparentemente ingênua, desnuda toda a problemática que subjaz ao uso desses dois verbos supostamente inofensivos.

Afinal, se nossa idade muda todos os anos, por que dizemos ora “ela tem 30 anos” ora “ela está com 30 anos”? E por que     “meu filho ainda é jovem”, mas “meu avô é (ou está) muito velho”? E por que o português pergunta “onde é (ou fica) a igreja?”, revelando a estaticidade de um prédio, ao passo que, na mesma situação, o espanhol indaga “¿dónde está la iglesia?”

A bem da verdade, muitos desses usos são estereotipados e, portanto, não obedecem a uma lógica resistente a toda prova. São idiossincrasias que todas as línguas apresentam. (A razão de o espanhol usar estar em relação a uma igreja, por exemplo, tem a ver com a etimologia do verbo, no caso, o latim stare, que significava “estar de pé, ereto, fixo, imóvel”. A idéia de fixidez e estabilidade de uma construção arquitetônica passou do latim ao espanhol através do verbo estar a despeito da mudança semântica que se operou em outros contextos.) Mas há casos que podem, sim, ser explicados à luz do nosso conhecimento sobre a cognição humana.

No exemplo “estar vivo/morto”, o uso de “estar” em lugar de “ser” se justifica em termos pragmáticos: sabemos que uma pessoa viva tende a permanecer viva até que algo provoque sua morte, bem como sabemos que, embora a morte seja um evento certo (aliás, o único evento certo da existência humana), a probabilidade de morrermos antes de ficarmos velhos é relativamente pequena; por isso, a vida é vista como estado permanente quando se diz “naquele tempo, a minha avó ainda era viva”.

Acidente

Mas vou propor uma outra situação: imagine que houve um acidente de automóvel (e desculpe-me o leitor pelo trágico exemplo), e os policiais, ao resgatarem as vítimas, precisam verificar se há ou não sobreviventes. A pergunta que eles fazem é “esta vítima está viva ou morta?”. Ou seja, o que se enfoca nesse caso não é o estado permanente de vida em que ela se encontrava antes do acidente, mas a sua condição momentânea, circunstancial, imediatamente após o acidente. Tanto que é comum dizer “o motorista do carro está morto, mas os demais ocupantes ainda estão vivos”, porém ninguém diz “meu avô está morto há dois anos” e sim “meu avô morreu há dois anos”.

Nesses casos, o francês e o italiano não fazem distinção entre “está morto” e “morreu”: est mort em francês e è morto em italiano significam indiferentemente as duas coisas.

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