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Publicado em Língua Portuguesa, ano 3, n.º 35, setembro de 2008 Modos verbais semanticamente alternativos aos da gramática mostram que diferentes maneiras de conceber ações pedem diferentes formas de expressá-las A gramática tradicional nos ensina que o português tem três modos verbais: indicativo (situação efetiva: “O dia está chuvoso”), subjuntivo (situação potencial: “Espero que ele venha”) e imperativo (ordem para que o receptor execute uma ação: “Feche a porta”). Tanto que Paschoalin e Spadoto, em sua Gramática – Teoria e Exercícios, afirmam: “modo indicativo – exprime um fato certo, uma certeza; modo subjuntivo – exprime um fato possível, duvidoso, hipotético; modo imperativo – exprime uma ordem, um conselho, um pedido”. Mas a gramática baseia seu conceito de modo, fundamentalmente, no aspecto formal dos verbos e não na sua dimensão semântica. Por exemplo, a frase “Talvez ele esteja doente” equivale a “Ele está talvez doente”: são duas formulações sintáticas diferentes da mesma informação; a mera mudança de posição do advérbio “talvez” altera o modo do verbo. Mas, afinal, a idéia manifestada por essas frases é efetiva ou potencial? Dito de outro modo, o verbo é semanticamente – e não apenas morfologicamente – indicativo ou subjuntivo? Pode-se argumentar que “Talvez ele esteja doente” significa “Pode ser que ele esteja doente”, por isso o verbo deve estar no modo subjuntivo. O problema desse raciocínio é que “Pode ser que ele esteja doente” é um período composto por subordinação enquanto “Talvez ele esteja doente” é um período simples. Portanto, o advérbio “talvez” teria o mesmo valor de uma oração. Contudo, esse mesmo raciocínio não explica “Ele está talvez doente”, em que “talvez” não exige o subjuntivo. (Teríamos, nesse caso, uma oração intercalada “Ele está, quem sabe, doente”?) O fato é que a determinação do modo verbal pela gramática se baseia no critério morfológico, isto é, na conjugação do verbo. Assim, “fazes” é indicativo, “faças” é subjuntivo e “faze” é imperativo. Tudo muito claro, não fosse o fato de que certas formas de um modo são idênticas às de outro (por exemplo, “faça” pode ser subjuntivo ou imperativo; “canta” pode ser indicativo ou imperativo”, e assim por diante). Que é modo? O Dicionário de Lingüística, de Jean Dubois et alii, afirma que o modo “é uma categoria gramatical, em geral associada ao verbo, e que traduz (1) o tipo de comunicação instituído pelo falante entre ele e seu interlocutor (estatuto da frase) ou (2) a atitude do falante com relação aos seus próprios enunciados”. Já o Moderno Dicionário da Língua Portuguesa, mais conhecido como Michaelis, define modo como “variações que os verbos tomam e pelas quais eles exprimem as diversas maneiras por que se realizam os fatos por eles expressos”. Ou seja, o modo tem a ver, em princípio, com a natureza da ação expressa pelo verbo e da maneira como o emissor concebe tal ação (potencial, efetiva etc.). Mas, também em princípio, diferentes maneiras de conceber ações pedem diferentes formas lingüísticas de expressá-las, daí que o modo semântico, e mesmo pragmático, se torna uma classe gramatical. Só que, se existe uma correspondência biunívoca entre o semântico-pragmático em certas línguas, em outras – a maioria, aliás – essa relação se vê bastante transtornada. Por exemplo, o inglês traduz o mais das vezes pelo indicativo ações que nós, falantes do português, expressamos pelo subjuntivo (“if he comes” = “se ele vier”). Em compensação, nos referimos pelo indicativo a situações que os italianos exprimem no subjuntivo (“perguntei quem era o seu pai” = “domandai chi fosse suo padre”). Em algumas línguas, nem mesmo a concordância de tempo verbal é respeitada, como, por exemplo, em “Ich fragte, wer sein Vater sei”, que em alemão quer dizer, literalmente, “perguntei quem seja o seu pai”. Tudo isso é ilustrativo de que, se o modo reflete a relação entre o enunciado lingüístico e a realidade, então, semanticamente, há outros modos verbais além dos três apontados pela gramática normativa. Afinal, não comunicamos lingüisticamente apenas fatos concretos, fatos presumidos e ordens. Também veiculamos desejos, aspirações, imprecações, fórmulas rituais… Por isso, temos que considerar também o modo desiderativo, que exprime um desejo sabidamente irrealizável ou hipotético (“Ah, se eu fosse rico!”, “Bem que ele podia me ajudar…”), o optativo, espécie de imperativo dirigido a uma terceira pessoa e/ou ao próprio emissor (“Que ele se dane!”, “Que possamos estar vivos até lá”), e o performativo, em que o próprio enunciado institui a realidade que descreve (“Eu vos declaro marido e mulher”, “A sessão está encerrada”). “Modos” da realidade Portanto, os modos semântico-pragmáticos são as maneiras como o locutor caracteriza a ação ou estado que relata. Temos as seguintes possibilidades: 1) Situação efetiva (o locutor tem certeza de que o fato se deu ou se dará); 2) Situação virtual (o fato pode verificar-se, mas não ocorreu ainda); 3) Situação incerta (o fato pode ter-se dado, mas o locutor ignora ou não tem certeza); 4) Situação hipotética (o locutor considera um fato abstratamente, sem que ele precise ou venha a se realizar); 5) Indução a que a situação ocorra (o locutor apela ao interlocutor que realize a ação expressa no enunciado); e 6) Instituição ritual da situação (o próprio enunciado cria, ao ser veiculado, e graças à autoridade do locutor, a situação por ele expressa). Do ponto de vista lingüístico, as frases “Talvez ele esteja doente” e “Ele está talvez doente” denotam uma situação cujo estatuto de verdade é desconhecido do emissor, embora se saiba que ele ou está doente ou não está. O modo semântico, diferentemente do gramatical, se relaciona ao conteúdo lógico do enunciado, aos esquemas cognitivos dos falantes e à própria natureza ontológica da realidade. Por uma questão bastante razoável de economia lingüística, nenhuma língua que se conheça tem tantos modos gramaticais quantos são os modos semânticos. É por isso que o português expressa em apenas três paradigmas de conjugação, por sinal com elementos comuns entre eles, os seis – ou mais – possíveis modos de conceber a realidade. De toda maneira, vemos o quanto a gramática tradicional se distancia da realidade da linguagem e o quanto a sua análise é simplista. |
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