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Publicado em Língua Portuguesa, ano 3, n.º 34, agosto de 2008 Apesar de não termos o dual em português, vários resquícios dele permaneceram em nossa língua e estão presentes na fala do dia-a-dia sem que percebamos Estamos tão acostumados com a idéia de as línguas que nos são mais familiares, como o espanhol, o francês, o italiano, o inglês e o alemão – além do próprio português, é claro –, terem dois números, o singular e o plural, que nem nos damos conta de que muitas línguas do mundo não são assim. Há desde as que não conhecem a noção de número – como a maioria das línguas indígenas, que sequer têm numerais além de dois ou três, o que inviabiliza a própria ação de contar – até os idiomas que possuem número dual e trial. Sabe-se que o indo-europeu, língua falada no Cáucaso há cerca de seis mil anos, e da qual o português remotamente descende, tinha três números: singular (um), dual (dois) e plural (mais de dois). Embora essa característica gramatical não tenha passado ao latim e por isso não tenha chegado até nós, várias línguas indo-européias mantiveram esse sistema de três números, como o grego e o germânico antigos. Antes de mais nada, convém explicar o que é o dual. No grego clássico, por exemplo, os nomes e verbos tinham terminações específicas para cada número. A expressão Ho híppos kalós estìn (O cavalo é belo) referia-se a um só animal, Tò híppo kaló estón (Os cavalos são belos) referia-se a dois, e Hoi híppoi kaloí eisín (igualmente, os cavalos são belos), a três ou mais. Portanto, o grego tinha três flexões de número para substantivos, adjetivos, pronomes e artigos, e conjugava os verbos no singular, dual e plural. Apesar de não termos o dual em português, vários resquícios dele permaneceram em nossa língua e estão presentes na fala do dia-a-dia sem que percebamos. Muitas de nossas expressões dizem implicitamente se que estamos falando de dois indivíduos ou vários. Compare os pronomes “ambos” e “todos” nas seguintes frases: “Tenho dois filhos; ambos estão na faculdade” e “Tenho três filhos; todos estão na faculdade”. Nos dois casos, há a idéia de totalidade, mas “todos” é o total de um conjunto de vários elementos, enquanto “ambos” significa “todos os dois”. Também fazemos uma distinção entre dois ou mais no emprego do adjetivo “outro”. Em latim, essa palavra se traduz por alter (outro dentre dois) e alius (outro dentre muitos). Em português, alter é “o outro”, e alius é “um outro”. Ou seja, temos um só adjetivo onde o latim tem dois, mas distinguimos entre dual e plural por meio do artigo (definido ou indefinido). Aliás, a existência de dois adjetivos diferentes para “outro” em latim se deve à ausência de artigos naquela língua. Como sabemos, os graus do adjetivo são dois: comparativo e superlativo. Na verdade, o grau comparativo do latim indica a supremacia de um elemento sobre outro e pressupõe o confronto entre dois. Já o superlativo latino representa a supremacia de um elemento sobre outros dois ou mais, estabelecendo um confronto entre vários. O comparativo é indicado pelo sufixo ‑ior e o superlativo, pelo sufixo ‑issimus (ou ‑imus). Assim, a frase latina Validior manuum dextra est (a partir do adjetivo validus, “forte”) significa “A mão direita é a mais forte (das duas)”. Já Aquila velocissima avium est (do adjetivo velox, “veloz”), quer dizer “A águia é a mais veloz das aves” (isto é, de todas as aves). O português não tem, em geral, formas diferentes para o adjetivo comparativo e o superlativo: “maior” é ao mesmo tempo comparativo e superlativo de “bom”. Mesmo assim, a sintaxe permite distinguir ambos os casos: “maior do que” é comparativo, enquanto “o maior de” é superlativo. Além disso, temos alguns adjetivos de origem culta que expressam a idéia de grau superlativo, como “máximo”, “mínimo” e “último”. O latim possui ainda vários adjetivos terminados em ‑ter (ou ‑terus), que têm sentido dual. Além de alter, há uter (qual dos dois), ceterus (o outro, o restante), e vários outros. Esse sufixo latino provém do indo-europeu ‑teros, que indicava oposição binária e passou também às línguas germânicas. A terminação ‑ther do inglês tem essa origem e ocorre em palavras que têm sentido opositivo: either (conjunção “ou”, pronome “um e outro”), neither (conjunção “nem”, pronome “nem um nem outro”), whether (conjunção “quer”). A própria conjunção or (ou) esconde, em razão da evolução fonética, o sufixo ‑ther. Enfim, será mesmo verdade que as línguas européias só têm singular e plural? ______________________________________________________________________________ Que e Qual Quando pergunto “Que sapato é este?”, estou buscando a especificação de um indivíduo dentre muitos. Já se pergunto “Qual sapato é este: o meu ou o seu?”, o uso do interrogativo “qual” em lugar de “que” sugere a escolha entre dois. Outras línguas indo-européias, como o francês e o inglês, empregam respectivamente os interrogativos quel / lequel e what / which, conforme podemos ver no exemplo a seguir: Português Que sapato é este? Qual sapato é este: o meu ou o seu? Francês Quel soulier est celui-ci? Lequel soulier est celui-ci: le mien ou le tien? Inglês What shoe is this? Which shoe is this: mine or yours? ______________________________________________________________________________ |
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