Artigos de Divulgação
 
  A CIÊNCIA PURA COMO CAMINHO PARA O DESENVOLVIMENTO 

Apesar de sua condição de país subdesenvolvido (ou “emergente”, como hoje se prefere dizer), o Brasil possui algumas ilhas de progresso e desenvolvimento, dentre as quais estão algumas de suas universidades. De fato, a pesquisa científica realizada por universidades brasileiras em certas áreas coloca nosso país em posição de destaque, competindo muitas vezes de igual para igual com países do Primeiro Mundo. Tal ocorre por exemplo em relação à tecnologia desenvolvida por nossos cirurgiões na área de transplantes de órgãos, ou à tecnologia dos supercondutores e semicondutores, ou ainda no que diz respeito às fabulosas aplicações da engenharia genética, sobretudo na agricultura. Todavia, contrariamente ao que ocorre no Primeiro Mundo, no Brasil o progresso científico não tem se dado de forma harmônica em todas as áreas do conhecimento, mas, na verdade, beneficia quase exclusivamente a chamada pesquisa aplicada, isto é, aquela cujo fim imediato é a produção de tecnologia (entendida esta não apenas como o uso de técnicas sofisticadas na indústria e na medicina, mas como todo e qualquer processo prático que vise a solucionar problemas e a satisfazer necessidades materiais do ser humano). Progresso semelhante não parece ocorrer em relação à pesquisa básica, cujo objetivo é produzir conhecimento puro e simples, sem ter um objetivo prático em vista (embora aplicações dessa pesquisa possam ocorrer a médio e longo prazo). A situação é ainda pior dentre as chamadas ciências humanas, que tradicionalmente não produzem tecnologia e cujas pesquisas se situam, por isso mesmo, no campo da ciência básica, também conhecida como ciência pura. Essa situação se deve, historicamente, a uma concepção tacanha de ciência, que, calcada numa postura utilitarista, privilegia o conhecimento “aplicado”. Conseqüentemente, o saber puro é visto com freqüência como “perfumaria”. Infelizmente, sobretudo no setor das ciências humanas, os próprios produtores do conhecimento, isto é, os cientistas e pesquisadores, contribuem para a perpetuação dessa visão, que atinge não só a opinião pública leiga como também — e isso é o mais preocupante — os agentes financiadores da pesquisa científica (empresas, governo, etc.).

Para entendermos a importância e a profundidade das implicações dessa questão, é preciso primeiro compreendermos o significado e a função social do conhecimento científico, tanto nas ciências naturais quanto nas humanas, o que equivale a indagar por que se faz pesquisa. Ora, a produção do conhecimento cumpre basicamente três funções sociais: 1) satisfazer a curiosidade do ser humano, ampliando seus horizontes intelectuais e espirituais e permitindo-lhe compreender o lugar que ocupa no próprio mundo em que vive, o que torna o conhecimento científico, juntamente com as artes e as religiões, uma forma de cultura; 2) permitir o desenvolvimento de novos métodos de solução de problemas práticos do ser humano e de facilitação da vida, através da diminuição do esforço, do aumento da eficiência, da eliminação da dor, etc., justamente o que chamamos de tecnologia; e 3) realimentação da própria pesquisa científica, fornecendo dados e subsídios para pesquisas subseqüentes, que venham mais cedo ou mais tarde a cumprir uma das duas primeiras funções — ou ambas.

Percebe-se desse modo que o conhecimento em geral e o conhecimento científico em particular devem ter duas destinações fundamentais: a produção de tecnologia e a produção de cultura. Assim, seria lógico deduzir que todo conhecimento que não permite aplicações práticas a curto prazo deve pelo menos possuir uma utilidade cultural, enquanto elemento ampliador e enriquecedor da visão de mundo do homem. Para que esse conhecimento cumpra seu papel cultural, é óbvio que ele deve estar disponível ao maior número possível de pessoas, e, portanto, não deve ser hermético nem ficar confinado a uma única classe social ou grupo profissional. Este é o fundamento da divulgação científica e da chamada ciência popular.

Assim, o conhecimento puro que não gera tecnologia imediata nem é de interesse imediato da opinião pública se justificaria na medida em que serve de base à produção de novos conhecimentos que venham futuramente a cumprir quer a função utilitário-tecnológica quer a cultural. O problema da elitização do conhecimento se dá quando essa cadeia de alimentação e realimentação do saber puro tende a prolongar-se indefinidamente, sem que se atinja uma das duas finalidades. Quando isso ocorre, a produção do saber passa a ser um fim em si mesma e deixa de ter qualquer propósito social. Por conseguinte, a classe intelectual, responsável pela geração desse saber, passa a viver isolada do resto da sociedade, recusando-se a dialogar com ela, que, no entanto, é quem sustenta financeiramente os esforços de pesquisa através do pagamento de impostos.

Em países do Terceiro Mundo como o Brasil, a pesquisa científica está praticamente circunscrita às universidades públicas, onde se desenvolvem tanto a pesquisa básica quanto a pesquisa aplicada. Nesses países, o Estado, principal financiador das pesquisas, norteado por uma filosofia “desenvolvimentista”, em geral tende a estimular a ciência aplicada e a tecnologia, em detrimento da pesquisa fundamental, por acreditar que um país pobre não deva desperdiçar recursos investindo em pesquisas que não tragam retorno imediato em termos de benefícios à sua indústria e à sua população. Essa filosofia, no entanto, vai na contramão do que fazem os países do Primeiro Mundo, onde desde os anos 60 diversas pesquisas vêm demonstrando que os períodos históricos de maior desenvolvimento tecnológico e social têm sido justamente aqueles em que a ciência pura é mais incentivada. Segundo a revista Nature, nos Estados Unidos, por exemplo, a pesquisa básica é atualmente a principal prioridade do governo, ao mesmo tempo em que na Europa esforços de pesquisa aplicada como os antigos programas Framework haviam registrado poucos êxitos apreciáveis no fomento da inovação industrial.

Mas o incentivo à ciência pura não deve significar que esta não deva também ter uma destinação social. Se é verdade que existem muitos estudos importantes que não se destinam primariamente à geração de tecnologia nem são de interesse direto da opinião pública, que devem no entanto prosseguir porque poderão contribuir indiretamente para a geração de tecnologia futura (eu citaria como exemplo os estudos em física das partículas elementares), existem por outro lado muitos campos do conhecimento, em especial nas ciências humanas, que não permitem aplicação tecnológica nem mesmo a longo prazo (a não ser talvez aplicações na educação), cuja justificativa é exatamente o engrandecimento cultural. Pesquisas em filosofia, história da arte, crítica literária ou arqueologia, por exemplo, certamente não são implementadas pelo seu potencial “tecnológico”, mas sim para o enriquecimento cultural da humanidade, que se dá obviamente através do enriquecimento cultural de cada indivíduo. Nesse sentido, a principal razão da existência de tais ciências é a mesma que justifica a existência das artes: a sua capacidade de transformar o ser humano, de abrir seus olhos e sua cabeça para novas realidades, de fazê-lo pensar a si próprio e ao mundo à sua volta, proporcionando-lhe ao mesmo tempo uma forma de entretenimento. A diferença entre a ciência pura e a arte reside precisamente no tipo de entretenimento proporcionado: no caso da arte, trata-se de um prazer estético, sensorial, ao passo que, na ciência, temos um prazer intelectual, o prazer da descoberta, da compreensão do como e do porquê das coisas, o prazer da satisfação da curiosidade.

Por tudo isso, é natural que ciências como a filosofia ou a arqueologia tenham como principal objetivo a produção de um conhecimento cujo principal destinatário seja o público leigo, o cidadão comum de instrução média ou superior, muito mais do que o público especializado das academias, do mesmo modo como também muitas ciências naturais puras, como a cosmologia, por exemplo, tenham seu grande foco de interesse na divulgação científica. De fato, há quase tantos livros de divulgação sobre a origem do Universo quanto tratados acadêmicos sobre o assunto. Entretanto, ainda hoje a divulgação científica é a exceção e não a regra, principalmente nas ciências humanas. Num setor em que o próprio fundamento da busca do saber é o princípio do humanismo puro, é impressionante o quão pouco desse saber é efetivamente dirigido à humanidade leiga. em outras palavras, o que impera ainda hoje é um deplorável elitismo por parte dos cientistas humanistas.

Quantas teses são defendidas cujo destino inevitável é o pó das prateleiras das universidades, quantos livros e artigos são escritos pelo seleto clube dos intelectuais acadêmicos e endereçados a esse mesmo clube! O elitismo das ciências humanas em geral só faz contribuir para o crescimento do preconceito já bastante difundido de que tais ciências não servem para nada a não ser para o deleite egoísta dos próprios intelectuais, não passando de um ócio pequeno-burguês.

Um país “emergente” como o Brasil precisa, sem dúvida, estimular cada vez mais a pesquisa básica se quiser sair de sua condição de subdesenvolvimento crônico, e esse estímulo deve ser dado igualmente a todas as frentes de pesquisa, até porque não se pode prever quais delas encontrarão futuras aplicações tecnológicas e quais não. Mas, se quisermos sair do Terceiro Mundo em direção ao Primeiro, temos de incentivar também a cultura nacional, que passa necessariamente pela produção intelectual dirigida ao povo em geral e não apenas à academia. Aos intelectuais acadêmicos, àqueles que produzem ciência básica, especialmente os humanistas, cabe perceber que a sociedade que patrocina suas pesquisas tem o direito de saber o que eles produzem e para que, e, mais ainda, tem interesse, curiosidade e vontade de saber. Em outras palavras, tem fome de conhecimento. Basta que lhe dêem o alimento.

Voltar