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Publicado em Língua Portuguesa, ano 3, n.º 33, julho de 2008 Estudos genéticos têm ajudado a compreender melhor o fenômeno dos idiomas O lema foi instituído pela lingüística do século 19: “As línguas são organismos que nascem, se desenvolvem, se reproduzem e morrem.” Baseia-se na semelhança entre a evolução lingüística e a biológica. A teoria da evolução das espécies (1859), de Charles Darwin, influenciou o pensamento científico da época, com reflexos na lingüística. Foi aí que a filologia, que até então partia do conhecimento das línguas para reconstituir textos, passou também a partir dos textos para reconstituir as línguas, numa “arqueologia” ou “paleontologia” lingüística. A metáfora biológica, uma heresia para um século 20 mais atento aos aspectos sociais e culturais (numa palavra, “humanos”) da língua, hoje volta com força com os avanços da lingüística e das bio e neurociências. Se a lingüística do século 19 se ocupou da evolução histórica e a do 20, da organização estrutural da língua, há hoje a articulação de ambas as perspectivas para compreender a linguagem como fenômeno a um tempo cultural e biológico. Os mesmos enfoques estrutural e evolutivo são dados ao estudo das espécies biológicas. É o que fazem a paleontologia, a anatomia e a fisiologia. Mas há uma disciplina que liga a evolução e a estruturação das espécies biológicas: a genética. Ela explica como ocorrem nos espécimes e se transmitem aos descendentes as mutações que, a longo prazo, acarretam a mudança da espécie. E pode fornecer ferramentas para compreendermos como a estrutura lingüística evolui enquanto funciona e funciona enquanto evolui. Nas últimas décadas, a lingüística evolucionária ocupa cada vez mais o interesse de especialistas, e teorias são propostas, devido às contribuições mútuas entre ciências humanas e biológicas (filologia, arqueologia, paleoantropologia, genética e ciência cognitiva). A iminente extinção em massa de línguas, com a perda da diversidade lingüística (catástrofe comparável à perda da biodiversidade), precipita a catalogação e descrição de línguas ágrafas (sem escrita), em especial africanas, ameríndias e polinésias, o que reaviva o interesse pela origem das línguas. Vários estudos nestas décadas correlacionam dados genéticos e culturais, especialmente a língua. Para o geneticista italiano Luigi Luca Cavalli-Sforza, a transmissão lingüística faz parte da transmissão cultural. Segundo sua teoria da Eva Africana, se, analogamente aos genes, a língua se transmite de uma geração a outra (embora por meios diferentes), é possível que todas as línguas atuais descendam de uma língua falada na África há 200 mil anos. Segundo o biólogo britânico Richard Dawkins, fatos culturais (que ele chama de memes) transmitem-se conforme a dinâmica da transmissão dos genes. Fatos lingüísticos e a própria língua seriam um caso particular de memes. Genética Na realidade, o modelo biológico evolucionário de sistema é universal, isto é, pode ser aplicado, com as devidas restrições e adaptações, a línguas, sociedades, civilizações, economias, sistemas computacionais, comunica-cionais, geológicos e cosmológicos. A qualquer sistema dotado de uma propriedade chamada “autopoiese” (forma de organização na qual o sistema produz e substitui seus próprios componentes, e se auto-reproduz, numa contínua articulação com o meio). Portanto, não surpreende que a língua seja passível do método que é aplicado a sistemas naturais, como a vida. Muito cedo se percebeu que a língua é um sistema regido por leis claras, que, como hoje se sabe, são fruto da natureza biológica da linguagem. O que perturbava os estudiosos eram as inúmeras exceções, que punham certo caos na aparente ordem da gramática. Uma compreensão mais profunda dos sistemas naturais permitiu perceber que as irregularidades também são previsíveis e explicáveis. Com isso, a metáfora biológica da linguagem volta a fazer sentido, feita a ressalva de que os lingüistas e filólogos do século 19 erraram ao comparar a língua a um organismo, isto é, a um espécime. Os fatos lingüísticos estruturam-se em três níveis: língua, norma e fala. Assim, a língua, que é um fenômeno social, corresponderia à espécie, e os atos de fala (fenômenos individuais) aos espécimes que compõem a espécie. Entre esses dois níveis situam-se as normas, fenômenos lingüísticos grupais (como gírias), equivalentes a subespécies ou raças. Decorre daí que não há línguas mortas, há falas mortas. As línguas não morrem, mas evoluem para outras línguas ou então se extinguem, quando não deixam descendentes. O procedimento de classificar animais, plantas e microorganismos em famílias, gêneros, espécies etc. é o mesmo que dá origem às árvores genealógicas das línguas. E, curiosamente, há uma forte correlação entre a árvore da evolução genética e a da evolução lingüística do ser humano. Cópia falha Poderíamos dizer, em linguagem figurada, que o homem é o produto da interação entre um hardware, um software e o contexto social. O hardware (cérebro) foi capaz de gerar um software (linguagem) que se autoproduz e interage com a sociedade como um organismo interage com o meio. A linguagem permite o pensamento simbólico, que desencadeia a ação, e por sua vez produz a mudança social. Esta acarreta a mudança (ou mutação) lingüística, que enseja novos pensamentos, num ciclo interminável. A linguagem altera a sociedade, que altera a linguagem. É por isso que a língua muda enquanto funciona (interage com o meio, com os falantes) e funciona enquanto muda. Se parasse de evoluir, cairia em desuso, pois não daria mais conta da mudança social. Por outro lado, quando uma língua cai em desuso, ela deixa de evoluir e permanece fossilizada nos registros que deixou. O termo mutação lingüística é um empréstimo tomado à biologia. Afinal, a inovação lingüística ocorre segundo um princípio similar ao da mutação genética. Nos seres vivos, as moléculas de DNA produzem cópias de si mesmas. A falha nesse processo resulta numa cópia imperfeita da molécula original. Conforme o DNA prossegue se auto-replicando, essas falhas, ou mutações, vão se acumulando, de modo que, após gerações, alterações significativas nos organismos já podem ser notadas. Evolução Analogamente, como todo ato de fala é recombinação de elementos e modelos preestabelecidos na língua, que o falante internalizou (léxico, construções sintáticas, pronúncia dos fonemas etc.), cada novo ato de fala é uma tentativa de reproduzir a expressão e o conteúdo de mensagens anteriores, tentativa que produz, porém, uma cópia “falha”, isto é, diferente, ainda que mínima e imperceptivelmente, do original, tanto no significado quanto na forma fônica dos elementos lingüísticos. As formas correntes e as mutantes sofrem o mesmo processo de seleção que as espécies biológicas. Não se trata de seleção natural, mas cultural. A forma nova (mutante) compete com a velha, de tal modo que convivem por um tempo, depois uma suplanta a outra. A nova palavra (ou pronúncia, construção sintática, significado, expressão idiomática, etc.) pode com o tempo se impor a mais e mais falantes, assim como palavras e expressões correntes podem tornar-se arcaísmos. Mas uma inovação pode ser abandonada pouco depois de ter sido criada. São os modismos. A inovação pode também permanecer restrita à fala do seu criador, sem conseguir adesão. É a adaptação da nova forma lingüística às necessidades sociais de comunicação que determina a sobrevida dessa forma. A diferença é que a mutação genética se transmite só de uma geração a outra (por herança), ao passo que a mutação lingüística também circula entre membros contemporâneos da mesma sociedade (por contágio). Mão dupla Esse mecanismo explica o processo da dialetação: pequenas mudanças fonéticas, gramaticais, semânticas ou lexicais criam, ao se acumular no tempo, dialetos; o acúmulo dessas mudanças, sobretudo por força do distanciamento geográfico ou social dos falantes, leva, ao fim de um longo período, ao surgimento de novas línguas. Enfim, o “erro”, tão condenado pelos gramáticos, é na verdade uma mutação. Os fenômenos evolutivos são a causa tanto da diversidade lingüística quanto da biodiversidade. A evolução lingüística suscita semelhanças inusitadas com problemas de natureza biológica. No livro Jurassic Park, Michael Crichton sugere a clonagem de animais extintos a partir do DNA de fóssil preservado. Ora, a ressurreição de uma língua como o extinto hebraico, mantido “fossilizado” nos textos do judaísmo e reavivado com a fundação do Estado de Israel em 1948, pode ser comparada ao mesmo processo. A paleontologia reconstrói a história dos seres vivos estudando o substrato geológico em que seus fósseis foram gravados, enquanto a geologia reconstitui a história desses substratos pela análise dos fósseis. Da mesma forma, a lingüística histórica estuda a história das línguas por meio dos textos que elas produziram e fornece subsídios para que a filologia reconstrua a história dos textos por meio do conhecimento da evolução das línguas |
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