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Publicado em Língua Portuguesa, ano 3, n.º 28, fevereiro de 2008 Mutação, analogia, mudança arbitrária, difusão de novas formas são os fenômenos que trilham a história das línguas Vários são os fenômenos que determinam a evolução das línguas. O primeiro e mais importante deles é a inovação lingüística, também chamada de mutação. Um segundo fenômeno, que de certa forma se opõe ao primeiro, é o princípio da analogia. Além desses, existem o processo de seleção cultural (a aceitação social ou não da inovação), a deriva lingüística (mudança arbitrária no ritmo ou direção da evolução por efeito de um agente externo, como a influência de falantes de prestígio) e a difusão das novas formas, que pode ser cultural (isto é, por contágio entre populações vizinhas) ou dêmica (por migração de falantes de uma região lingüística a outra). O relacionamento entre populações lingüísticas em contato obedece a duas tendências que Ferdinand de Saussure chamou respectivamente de força do intercurso e espírito de campanário. O intercurso, ou contato entre falantes de diferentes localidades, provoca uma influência lingüística mútua entre eles. Já o campanário é a tendência a resistir à inovação trazida de fora. Mutação fonética e nivelamento analógico De todas as formas de mutação, a fonética é a que mais transtorna o sistema lingüístico e a que, no limite, determina a transição de uma língua a outra. Afinal, o léxico e a sintaxe mudam bastante ao longo do tempo, mas, desde que o sistema fonológico permaneça o mesmo, temos a sensação de que a língua ainda é a mesma. A mutação fonética atinge de maneira regular todos os elementos que se achem sob as mesmas condições. Por exemplo, toda vez que um fonema (ou grupo de fonemas) se encontra num dado contexto fonológico – ou seja, precedido e/ou seguido de determinados fonemas –, ele estará sujeito a sofrer uma mutação regular que recebe o nome de metaplasmo. Essa mutação é regular porque se aplica igualmente a todas as palavras que contenham o mesmo fonema ou grupo no mesmo contexto. Assim, na passagem do latim vulgar aos dialetos ibéricos medievais, um dos quais resultou no português, toda consoante surda (cuja pronúncia não produz vibração das cordas vocais) que estivesse entre duas vogais se transformou em consoante sonora (em que as cordas vocais vibram). Igualmente, todo fonema k ou g que fosse seguido de e ou i evoluiu para tch e dj, respectivamente. Depois tch passou a ts e s, enquanto dj passou a j. A mutação fonética é um processo que afeta cegamente todos os fonemas que se encontrem sob as mesmas condições, conduzindo à separação de formas anteriormente solidárias e levando ao surgimento de irregularidades gramaticais. Todas as línguas naturais apresentam irregularidades, que podem surgir dentro da própria língua ou ser herdadas da chamada língua-mãe. As formas verbais portuguesas quero e quis representam um caso de flexão verbal irregular porque provêm de formas que já eram irregulares em latim: quaero e quaesii. Estas, por sua vez, remontam ao latim arcaico *quaiso e *quaissii (o asterisco indica que tais palavras não estão documentadas), o que significa que em algum momento da história houve um radical *quais- comum a essas formas. Contrário ao fenômeno desorganizador da mutação, ocorre o efeito unificador da analogia, que visa a restabelecer a regularidade da língua. Ambos os fenômenos se verificam com mais freqüência entre os falantes incultos, que, por estarem menos sujeitos às imposições da norma culta, gozam de maior liberdade para criar inovações lingüísticas. Quando estas se disseminam geograficamente e conquistam outros grupos sociais, especialmente os mais cultos, acabam por entrar para a norma-padrão da língua, passando a ser vistas como gramaticalmente corretas e modificando o sistema lingüístico. O tempo é o elemento perturbador por excelência da estabilidade lingüística. Por isso, a enorme diversidade de línguas que conhecemos, bem como toda irregularidade dentro de uma língua, resulta da mutação fonética, o que leva o pesquisador a recuar cada vez mais no tempo, em busca do estágio histórico em que ainda não havia ocorrido a mutação que conturbou o sistema gramatical. Evidentemente, nem sempre é possível acessar tal estágio diretamente por meio de documentos escritos, tampouco alcançar um estágio em que todos os elementos eram regulares: a todo momento, a língua apresenta formas gramaticalmente solidárias, formas solidárias divorciando-se e dando origem a paradigmas irregulares, formas irregulares reconciliando-se por força da analogia e, finalmente, formas que persistem como irregulares no sistema. Mutação e analogia nas línguas da Europa Nas línguas européias, a ação das duas forças – mutação e analogia – se deu de forma mais acentuada no período medieval, quando a fragmentação lingüística, aliada à ausência de uma língua nacional unificadora e à incultura da maior parte dos falantes, favoreceu bastante a ocorrência desse processo. Em fins da Idade Média, alguns dialetos começam a produzir literatura, ascendendo à condição de línguas de cultura. Para tal, foram bastante enriquecidos por empréstimos de vocábulos das línguas clássicas (grego e latim). Esse processo de transformação de um dialeto popular em língua literária teve a contribuição determinante de escritores e intelectuais, que acabaram estabelecendo o padrão lingüístico de cada idioma pela seleção das formas que deveriam ser adotadas. A partir do Renascimento, ocorreu uma progressiva concentração de poder nas mãos dos monarcas, o que deu origem aos Estados nacionais modernos. A unificação política de territórios exigiu uma concomitante unificação lingüística, pela adoção de um idioma oficial que permitisse a intercomunicação entre as diversas regiões do reino. Com a elevação das línguas literárias medievais à condição de idiomas oficiais, realizou-se um esforço de normatização gramatical, em que nivelamentos de caráter analógico surgidos da criação espontânea da fala popular foram aceitos e consagrados pela norma culta, como também certas inovações lingüísticas foram em grande parte implementadas pelos próprios gramáticos e escritores. Fatores políticos, econômicos, sociais e culturais tornaram aquele momento histórico altamente propício a essa intervenção arbitrária na língua. O idioma-padrão, assim criado, era até certo ponto uma língua “artificial”, na medida em que tinha por base o dialeto de maior prestígio político, literário e cultural, ao qual eram acrescentadas contribuições de outros dialetos, bem como das línguas clássicas. A falta de uma consciência política nacional, característica daquele período, praticamente impediu que surgissem reações regionalistas, contrárias à adoção de uma língua-padrão. O interesse oficial na implantação de línguas nacionais conduziu à criação de academias de letras, à elaboração de gramáticas e dicionários e à adoção dessas línguas em todas as formas de comunicação social. A invenção da imprensa também contribuiu imensamente para a divulgação das línguas-padrão e, de certa forma, até forçou sua adoção, já que a distribuição de obras impressas podia atingir escala nacional, ao contrário das obras manuscritas, de abrangência muito mais limitada. Nesse momento, gramáticos e escritores de línguas como o francês e o italiano realizaram uma série de normalizações e simplificações que visavam a eliminar irregularidades gramaticais surgidas da ação cega da evolução fonética. Por exemplo, a antiga irregularidade dos radicais verbais franceses nas formas rizotônicas (as que têm acento tônico no radical: preuve, preuves, preuvent) e arrizotônicas (com acento tônico fora do radical: prouvons, prouvez, prouver, prouvant, prouvé) é eliminada pelo nivelamento analógico (prouve, prouves, prouvons, prouvez, prouvent, prouver, prouvant, prouvé). O mesmo ocorre em italiano (vuola/volare > vola/volare; suona/sonare > suona/suonare). Outros tipos de nivelamento também ocorrem: latim videre > italiano antigo vedere > it. moderno vedere; Da mesma forma, muitas simplificações gramaticais também ocorreram (eliminação de certos tempos e modos verbais, substituição de formas verbais sintéticas por analíticas, e assim por diante). O que ocorreu no português Certas línguas, entretanto, não sofreram, senão muito levemente, tal processo, como é o caso do português. Isso explica a grande profusão de formas irregulares de nossa língua, o que faz de sua gramática, sem dúvida, uma das mais complexas dentre as línguas européias. A complexidade gramatical do português, inclusive em relação às demais línguas românicas, se deve em parte à falta de uma normalização e padronização mais efetivas na Renascença e em parte ao excesso de conservadorismo dos gramáticos, que por vezes rechaçam inovações simplificadoras por considerá-las barbarismos. Esse espírito de exacerbado apego ao vernáculo e à tradição greco-latina impediram muitas inovações que teriam sido proveitosas à língua. Ao contrário do que pensam os puristas, o povo não é nada estúpido (pelo menos em matéria de linguagem) e procura quase sempre resgatar a lógica e a simplicidade da língua, regularizando o que é irregular e “enxugando” as redundâncias. Por isso, as pessoas menos escolarizadas – mas também muitas de nível superior – conjugam “se eu pôr”, quando eu ver”, “se eu faço”, e assim por diante. Essas construções, tidas como solecismos em português, são perfeitamente gramaticais nas demais línguas românicas. Mas o português também realizou mudanças analógicas que foram aceitas pela gramática normativa. Em português medieval, o verbo jazer se conjugava no presente como fazer: jaço, jazes, jaz, jazemos, jazeis, jazem. No pretérito, conjugava-se como haver: jouve, jouveste, etc. Ora, hoje esse verbo se conjuga jazo, jazes, jaz, jazi, jazeste…, num claro exemplo da ação regularizadora da analogia. Infelizmente, exemplo claro mas raro. É que o português, por influência de uma política lingüística conservadora, tanto do passado quanto do presente, adotou postura inversa à dos outros idiomas neolatinos (e sobretudo dos germânicos), que realizaram uma progressiva simplificação gramatical. Em resumo, o português perdeu valiosas oportunidades de se tornar uma língua mais simples e talvez mais difundida. |
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