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  A LÍNGUA E A CULTURA

Publicado em Língua Portuguesa, ano 3, n.º 27, janeiro de 2008

Quando perguntamos por que alguns povos se desenvolveram tanto e outros não, uma das razões para isso pode ser a língua que falam

No livro O pensamento selvagem, Claude Lévy-Strauss discute a oposição, arraigada tanto no meio acadêmico quanto no senso comum, entre línguas “primitivas” e “civilizadas” (ou “de cultura”). Segundo alguns lingüistas e antropólogos, línguas de povos primitivos – isto é, de sociedades tribais – não permitiriam abstrações. O próprio Lévy-Strauss contesta tal tese, afirmando que no idioma chinook, língua indígena da América do Norte, a frase “O homem mau matou a criança inocente” seria formulada como “A maldade do homem matou a inocência da criança”.

Na verdade, em muitas línguas do mundo, dentre as quais várias “civilizadas”, não há uma distinção clara entre concreto e abstrato, bem como entre predicado verbal e nominal (ou entre sujeito e predicado), e assim por diante. Mas o fato é que, ao compararmos os idiomas europeus com línguas nativas da África, América ou Oceania, percebemos que muitos dos aspectos familiares à nossa gramática faltam a essas línguas.

Essa constatação, baseada às vezes numa análise superficial e assistemática, ensejou vários tipos de preconceitos contra o que é diferente e, conseqüentemente, estranho. A idéia de que há línguas superiores e inferiores – e, portanto, povos superiores e inferiores – é tão velha quanto o mundo, já que preconceitos étnicos pululam até em textos como a Bíblia e o Gilgamesh.

Os gregos, pais da Civilização Ocidental, se referiam a qualquer povo que não falasse grego como bárbaro, onomatopéia que significa blablablá. A crença na superioridade de sua língua os fez confundir as regras da gramática grega com as próprias leis do pensamento humano, o que é muito diferente. Mas não resta dúvida de que o grego foi uma ferramenta valiosíssima na construção do pensamento racional que norteia nossa civilização até hoje. A literatura, a filosofia e a ciência ocidentais nasceram na Grécia, assim como as filosofias orientais se expressaram em línguas “complexas” como o sânscrito e o chinês, dentre outras. A pergunta é: teria sido possível construir todo esse cabedal de conhecimento a partir de uma língua como o chinook?

Cada língua representa uma cultura e, por conseguinte, uma visão de mundo. Por isso, não há palavras para Natal, democracia ou microprocessador digital em ianomâmi. (Talvez hoje, após anos de contato com os brancos, já haja.) Mas, será que a cultura determina a língua ou é a língua que determina a cultura? Segundo a tese de Sapir-Whorf, da qual já falei em outro artigo (“O recorte do real”, Língua, outubro de 2007), há uma coextensão entre língua e cultura, de tal modo que ambas se condicionam mutuamente. Não dá para saber ao certo quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha.

Nesse sentido, nenhum povo pode criar conceitos ou expressar vivências que a sua língua não permita. Por isso, quando perguntamos por que certos povos e não outros criaram certas coisas, por que alguns povos se desenvolveram tanto e outros não, uma das razões para isso pode ser a língua que falam. (Segundo o biólogo americano Jared Diamond, autor de Armas, germes e aço, as condições históricas e geográficas também influem.) Em resumo, certas idéias só poderiam ter sido criadas no âmbito de certas línguas.

Não se trata de uma visão racista ou etnocêntrica à la James Watson (geneticista ganhador do Prêmio Nobel que recentemente declarou crer na inferioridade intelectual dos africanos), mas da constatação de que certas línguas oferecem mais recursos a um pensamento complexo e abstrato do que outras.

Há algum tempo, a língua pirahã vem ocupando espaço na mídia por conta de estudos feitos pelo lingüista americano Daniel Everett, segundo os quais esse idioma carece dos mais elementares recursos de qualquer língua natural: não tem numerais além de dois, não tem nomes para cores, não distingue tempos verbais e, sobretudo, não possui recursividade, isto é, a capacidade de encaixar enunciados uns nos outros para formar seqüências mais complexas.

Por outro lado, o indo-europeu, falado na região do Cáucaso por volta de quatro mil anos a.C. e ancestral da maior família lingüística do mundo, já permitia contar até mil (com base no mesmo sistema decimal que hoje utilizamos), tinha uma rica flexão nominal e verbal, admitia diferentes modos e vozes, bem como apresentava recursividade tanto em termos de coordenação quanto de subordinação, o que permitia uma gama complexa de matizes de pensamento. As línguas descendentes do indo-europeu – dentre as quais o português – herdaram muitas dessas características e algumas delas estão hoje entre as mais importantes do mundo.

A maioria das línguas “primitivas” não conta além de três ou, no máximo, cinco, provavelmente porque a vida na selva não exige grande precisão aritmética. Tampouco exige frações, raiz quadrada, geometria… Portanto, foi a matemática que criou a numeração além de três ou foi a numeração decimal (ou duodecimal, ou hexadecimal) que possibilitou o advento da matemática?

Algumas línguas não têm conectivos como “e” e “ou”. Essa falta pode até não trazer grandes embaraços à comunicação entre caçadores-coletores, mas dificulta muito – se não impossibilita – o desenvolvimento da lógica como a conhecemos. Outros idiomas não admitem subordinação nem voz passiva, bem como não permitem discurso indireto ou construções subjuntivas, desiderativas ou optativas. Claro que tais carências – vistas como tais sempre de nosso ponto de vista eurocêntrico – ou acabam supridas por outros recursos expressivos ou simplesmente existem porque a cultura dos falantes dessas línguas não exige que sejam supridas. Mas, quer tenham sido as condições naturais que determinaram o surgimento da civilização – e a conseqüente complexificação da linguagem – em alguns lugares do planeta e não em outros, quer tenha sido o contrário, o fato é que a complexidade lingüística resultante desse processo ensejou um círculo virtuoso que prossegue até hoje. Não se trata de povos mais inteligentes do que outros, mas talvez de povos mais sortudos. O que nos resta é perguntar: quem nasceu primeiro, a língua ou a cultura?

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