Artigos de Divulgação
 
  A DESMONTAGEM DE PALAVRAS

Publicado em Língua Portuguesa, ano 3, n.º 26, dezembro de 2007

Há quatro processos que permitem criar novos vocábulos: o fonológico, o morfológico, o semântico e o alogenético

De que são feitas as palavras? Como se criam novos vocábulos (os chamados neologismos) para denominar novos conceitos ou renomear os já existentes?

A todo momento, ocorrem na vida dos falantes de uma língua experiências que exigem a adoção de novas palavras para dar conta delas. Paralelamente, coisas ou fatos sociais já conhecidos podem receber novos nomes, pelas mais diversas razões, seja porque o nome antigo adquiriu conotações arcaicas ou pejorativas, seja para acentuar a posição social do falante (as gírias são um bom exemplo disso), seja ainda por influência estrangeira (o nosso vocábulo vernáculo mosteiro está sendo progressivamente substituído pelo latinizado “monastério”, provavelmente por força das traduções a partir do inglês monastery).

Seja qual for a razão para criar novas palavras, há quatro processos que permitem fazer isso e, portanto, quatro tipos de neologismos numa língua: o fonológico, o morfológico (ou sintagmático), o semântico e o alogenético.

O neologismo fonológico é aquele em que a palavra surge de uma combinação inédita de fonemas, não procedente de nenhuma palavra já existente na língua, como em “chinfrim”, “zureta” e “poperô”, ou nas onomatopéias (“tique-taque”, “miau”, etc.).

O neologismo morfológico resulta de dois processos básicos: composição (puxar + saco = puxa-saco, perna + longa = pernilongo) e derivação (cera > encerar > enceradeira, farofa > farofeiro).

O neologismo semântico surge da atribuição de um novo significado a uma palavra já existente. Por exemplo, já havia em português a palavra “presunto” para designar um tipo de alimento quando a gíria dos marginais passou a usar o termo com o significado de “cadáver”. Igualmente, “arrasar”, que sempre significou “destruir”, passou a ter também o sentido de “fazer sucesso”.

Finalmente, o neologismo alogenético, também chamado de empréstimo, é a importação, com ou sem adaptação fonética ou gráfica, de palavras estrangeiras: futebol, abacaxi, pizza, bonbonnière.

Composição

O que nos interessa aqui é discutir a formação de palavras pelo processo morfológico, isto é, por composição ou derivação. Para compreender a estrutura de um vocábulo, faz-se normalmente a chamada análise morfológica (ou mórfica), que consiste na decomposição da palavra em seus morfemas, ou unidades mínimas dotadas de significado. Algo como desmontar a palavra, num caminho inverso àquele pelo qual ela foi construída. Para isso, recorre-se à comparação com outras palavras que tenham elementos comuns, por meio de oposições binárias. Assim, ao confrontar “leiteiro” e “sapateiro”, é possível depreender o sufixo ‑eiro, designativo de profissão. Ao mesmo tempo, comparando-se essas palavras com “leiteria”, “aleitamento”, “sapatão”, “sapataria”, podem-se reconhecer as raízes “leite” e “sapato”, das quais “leiteiro” e “sapateiro” derivam por sufixação.

Se comparo a palavra “menininhas” com o singular “menininha”, abstraio o morfema ‑s, indicativo do plural. Confrontando agora “menininha” com “menininho”, deduzo o morfema ‑a do gênero feminino. Se oponho “menininho” a “menino”, obtenho o sufixo diminutivo ‑inh. O que sobra é o radical menin‑, que entra na formação de palavras como “menino”, “menina”, “menininho”, “meninote”, “meninice”, “meninada”, e que não pode ser dividido em partes menores ainda dotadas de significado.

Cabem aqui algumas observações. Em primeiro lugar, nem todo morfema tem vida autônoma na língua. Enquanto “menino” e seus derivados (“menininho”, “meninote”, etc.) são palavras da língua portuguesa, ‑inh e ‑s não são, e só podem ser encontrados combinados a outros morfemas dentro das palavras.

Em segundo lugar, quando um morfema, ainda que tenha existência autônoma, se combina com outro para formar uma nova palavra, ele pode sofrer mutação. Por exemplo, para fazer o plural de “casa”, acrescenta-se o morfema ‑s e obtém-se “casas”. Já o plural de “cão” é “cães”, e o plural de “sal” é “sais”. Ou seja, os morfemas cão e sal sofrem mutação para cãe‑ e sai‑, respectivamente, ao serem combinados com o morfema ‑s. Essas formas mutantes de um morfema são chamadas alomorfes.

Pois agora vem agora a parte mais complexa do problema: determinar quais são os elementos mínimos de uma palavra ainda portadores de significado. Isso porque existe uma diferença entre a interpretação diacrônica, que leva em conta a história da palavra, e a sincrônica, que toma a língua em seu momento atual, sem nenhuma consideração de natureza histórica. A primeira perspectiva considera a palavras do ponto de vista de sua formação. Já a segunda analisa o modo como as palavras são interpretadas pelos chamados falantes ingênuos (isto é, que não são estudiosos da linguagem e, portanto, não têm conhecimentos técnicos sobre a história ou a mecânica do idioma.)

Perceber

Desse modo, palavras como “perceber”, “conceber” e “receber” não podem ser decompostas numa análise estritamente sincrônica, visto que ‑ceber não significa nada em português. No entanto, todos sabem que per‑, con‑ e re‑ são prefixos. Mais ainda, sente-se claramente a comutação entre tais prefixos e a manutenção de um radical comum quando se passa de um desses verbos aos demais.

Historicamente, essas palavras provêm do latim percipere, concipere e recipere, todos derivados do verbo capere, “pegar, tomar”, mediante o seu alomorfe combinatório ‑cipere. Os prefixos permaneceram como tais em português, mas o elemento ‑cipere, que a evolução fonética transformou em ‑ceber, tornou-se obscuro.

Um outro exemplo: a palavra “acaso” é decomponível em a‑ + caso ou não? Se um falante culto, que tem maior conhecimento lingüístico, inclusive etimológico, souber que “caso” se relaciona com “casual” e, portanto, também significa casualidade, ele irá analisar “acaso” como a‑ + caso. Já um falante menos escolarizado certamente não perceberá a relação. Então, como analisar morfologicamente as palavras?

Sabemos que “noite” e “escuro” produziram respectivamente “anoitecer” e “escurecer”. Pode-se então deduzir daí a existência de um sufixo ‑ecer que indica processo. Ora, em “oferecer” e “aparecer”, é lícito fazer as decomposições ofer‑ + ‑ecer, apar‑ + ‑ecer? A questão é: ofer‑ e apar‑ têm significado autônomo em português? Afinal, ofer‑ ocorre em “oferta”, “ofertar”, e apar‑ ocorre em “aparência”, “aparente”. Além disso, poderíamos analisar apar‑ como a‑ + par‑ (de “parecer”, “comparecer”), ou deveríamos analisar “aparecer” como a‑ + parecer, sendo este último indecomponível? Para complicar ainda um pouco mais as coisas, lembremos que ofer‑ provém do latim offerre, resultante da anteposição do prefixo ob‑ ao verbo ferre (radical verbal fer‑, “levar, trazer”), e este ocorre em aferir, “conferir”, “preferir”, “proferir”, “sofrer” (por meio do alomorfe fr‑), dentre outros.

Em resumo, é mais fácil criar palavras do que analisá-las. Não apenas porque a etimologia nem sempre é evidente (e as pesquisas etimológicas, por mais sofisticados que sejam os seus métodos, nem sempre são conclusivas), como também porque as perspectivas sincrônica e diacrônica, sempre presentes na língua, por vezes oferecem interpretações diferentes. Isso se deve ao fato de que a língua é o resultado do equilíbrio instável e fugaz entre conservação e mudança, entre permanência e ruptura. A língua que falamos hoje é um estado momentâneo e transitório de um movimento incessante de mudança, chamado evolução.

Voltar