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Publicado em Língua Portuguesa, ano 2, n.º 23, setembro de 2007 A confraternização nos jogos do Rio retomou velhos enganos entre o português e o espanhol O dia foi 13 de julho de 2007. No estádio do Maracanã se iniciam, com mistura solenidade e espetáculo, os XV Jogos Pan-Americanos. Presentes ao evento ou sintonizadas na TV, milhões assistiram a uma das maiores gafes em cerimônias do gênero. Além de vaiado três vezes, no momento em que se preparava para declarar abertos os Jogos, o presidente Lula foi surpreendido pelo presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman, que proclamou a abertura do evento em seu lugar. A quebra de protocolo, misturada às manifestações de hostilidade ao presidente, causou mal-estar. Mas, pouco antes, havia ocorrido outra gafe, da qual muitos não se deram conta, especialmente quem não conhece bem o espanhol. O mexicano Mario Vázquez Raña, presidente da Organização Desportiva Pan-Americana, inicia seu pronunciamento: “Hoy es una realidad lo que antes no pasaba de ilusión…” (Hoje é uma realidade o que antes não passava de ilusão…). Para dar ênfase e gravidade à sua fala, faz sugestiva pausa após a primeira palavra: hoy… Pois eis que 90 mil espectadores presentes ao estádio respondem com um efusivo e uníssono “oooooooooi!!!”. Muitos, até com candura d’alma, devem ter comentado como era simpático aquele mexicano, que, em vez da sisudez habitual, chegou saudando a “galera” do jeito mais informal que existe. Pois é, tudo isso porque o português e o espanhol têm muitas palavras em comum, mas com significados distintos. Em alguns casos, trata-se dos chamados heterossemânticos: palavras de origem comum que assumiram sentidos diferentes em cada língua. Em outros, temos falsos cognatos, isto é, vocábulos de origens diferentes que, por obra do acaso, assumiram formas fonéticas ou gráficas parecidas. Tanto num caso como no outro, a semelhança das formas e a enganosa sensação de que quem fala uma das línguas consegue se expressar sem embaraço na outra conduzem a sem-número de mal-entendidos, alguns anedóticos, outros acintosos. Afinal, muitos aqui acham que castelhano não passa de português mal-falado. E bradam num restaurante em Buenos Aires: “Garzón, yo quiero un cuepo de Cueca-Cuela!”. Pisando na bola Grandes eventos transformam em espetáculo a mais insignificante das gafes de linguagem e o Pan 2007 não fez por menos – basta lembrar um comentarista da Globo, o ídolo do basquete Oscar Schmidt, que insistia em reclamar da marcação “homem a homem” num jogo feminino. Deslizes à parte, palavras inocentes de uma língua podem ter significado picante ou constrangedor na outra, um convite ao mal-entendido, à gafe e à piada. Em espanhol, “matar la bicha con la porra” significa “matar a cobra com o porrete”. E “ahí viene un tarado pelado con su saco en la mano corriendo atrás de la buseta” quer dizer “aí vem um careca retardado com seu paletó na mão correndo atrás do microônibus”. Há ratas do gênero dignas de nota. No carnaval de Salvador, uma jovem dançava com os pés descalços atrás do trio elétrico quando uma turista argentina muito obsequiosa lhe perguntou: “No tiene miedo que le pisen?” (Você não tem medo de que lhe pisem?) Em vez de agradecer pela solicitude da portenha, a foliona ficou ofendidíssima com a observação. É que o verbo pisar em espanhol se pronuncia “piçar”, que em português tem a ver com o chulo “piça”. Outra feita, um “gringo” que almoçava num restaurante do Rio pediu um vaso (copo), ao que ao garçom o conduziu ao toalete por supor tratar-se do sanitário. E um geólogo argentino que viera dar uma conferência no Instituto de Geociências da USP perguntou se não teriam uma oficina (sala, escritório) onde pudesse depositar sua valise. Pois não é que o levaram ao setor de manutenção do Instituto? E o saudoso apresentador de TV Bolinha, fazendo as vezes de repórter no mundial de futebol de 1986, no México, entrevistava torcedores, quando deparou com um menininho paramentado com as cores da Argentina. Admirado pela precocidade do pequeno fanático, perguntou-lhe num “portunhol” tão caricato quanto descarado: “Quantos anos usted tiene?” E o garoto, assustado pela pergunta, respondeu: “Sólo uno!” Resposta lógica, afinal, ano quer dizer “ânus” na língua de Cervantes. Por isso, quando alguém com sotaque hispânico lhe disser “oi”, espere até que ele conclua a frase: pode não ser o que você está pensando.
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