Artigos de Divulgação |
|
| |
COGNIÇÃO: COMO PENSAMOS O MUNDO |
(Publicado em Ciência
Hoje, v. 30, n.º 175, setembro de 2001)
Para
conhecer o mundo à sua volta e levar esse saber a seus semelhantes,
o homem precisa transformar as informações recebidas
pelos sentidos (as experiências) em modelos mentais (os signos),
que possam ser transmitidos através de códigos apropriados
(as linguagens). Entender como esse processo se dá e quais
as suas conseqüências para o indivíduo, para a sociedade
onde vive e para a humanidade é o desafio que as chamadas ciências
cognitivas, integradas por diferentes áreas do conhecimento,
entre elas a semiótica, se propõem a enfrentar.
O
que distingue o homem das outras espécies animais e o levou
a ter o domínio completo do planeta é — todos
sabemos — uma coisa chamada inteligência. Esta é,
fundamentalmente, a capacidade de pensar de forma simbólica,
ou seja, através do uso de linguagens. Por isso, o Homo
sapiens é antes de mais nada Homo symbolicus.
A inteligência humana consiste na capacidade de “conhecer”,
ou, em outras palavras, “construir representações
mentais a partir de percepções sensoriais”. Tais
representações permitem não só adquirir
novos dados da experiência mas também reconhecer dados
anteriormente adquiridos.
Somos capazes de reconhecer um objeto que nunca vimos antes como sendo
uma cadeira apenas comparando esse novo objeto aos modelos mentais
que temos estocados na memória, frutos de muitas percepções
anteriores. As muitas cadeiras que já vimos na vida nos permitem
deduzir o que todas as cadeiras têm em comum: pés, assento,
encosto, uma forma anatômica que nos permite sentar nela, etc.
A experiência nos permitiu construir um conceito, ou seja, um
modelo mental de cadeira que nos permite reconhecer novas cadeiras
apenas olhando para elas e comparando-as a esse modelo. Se o novo
objeto coincide com o modelo, bingo! — estamos diante de uma
cadeira. Senão, procuraremos na mente outros modelos (outros
conceitos), até encontrar um que coincida com o objeto percebido.
Se não encontrarmos nenhum, então com certeza estaremos
diante de um dado novo, desconhecido, e a descoberta dará oportunidade
a um novo ato de conhecer, a partir do qual construiremos um novo
modelo, ou seja, um novo conceito. A esse processo se dá o
nome de “cognição”.
Mas de que são feitos esses modelos mentais? Qual é
a matéria-prima do pensamento? Assim como a combinação
das 23 letras do nosso alfabeto permite escrever todas as palavras
da nossa língua — mais de 500 mil — e criar outras,
em um processo inesgotável, há razões para supor
que os significados das palavras, ou seja, os conceitos que elas representam,
também resultam da combinação de um número
finito de elementos. E como o ser humano não pensa nem se comunica
apenas com palavras, usando também uma infinidade de outros
signos, esses elementos constitutivos da significação
seriam os responsáveis por encontrarmos sentido em imagens,
sons, cheiros, gestos, símbolos matemáticos, sinais
de trânsito, etc.
As indagações sobre a natureza da significação
deram origem a um campo de pesquisas que, embora relativamente recente,
tem se mostrado bastante fértil: as chamadas ciências
cognitivas. Trata-se acima de tudo de um campo multi e transdisciplinar,
que reúne os esforços de diversas ciências, tanto
humanas quanto naturais, que vão desde a biologia molecular
e a genética, passando pela neurofisiologia, até chegar
à psicologia e às ciências da linguagem, com a
lingüística e a semiótica à frente.
Este artigo apresenta uma visão geral desses esforços,
através de uma análise de como o homem processa semioticamente
o conhecimento do mundo e de si mesmo, ou seja, como ele processa
a informação percebida através dos sentidos e
a transforma em modelos mentais — em outras palavras, como as
experiências são transformadas em signos, processo que
os especialistas denominam “semiose”.
Universalismo e cosmovisão
Todas
as linguagens utilizadas pelo homem e seus respectivos discursos têm
certas características que poderíamos chamar de universais,
decorrentes dos próprios processos biológicos nelas
envolvidos. Tais processos são, é claro, comuns a todos
os seres humanos, como integrantes da mesma espécie animal.
Isso significa que todas as linguagens e seus discursos podem ser
descritos por meio de um mesmo modelo teórico.
Dessa maneira, todas as linguagens humanas, sejam verbais, não-verbais
ou sincréticas (que misturam duas ou mais linguagens verbais
ou não-verbais), são compostas por um léxico,
ou conjunto de signos, e por uma gramática, ou conjunto de
regras combinatórias desses signos. Essas linguagens têm
ainda a capacidade de engendrar novos signos na medida das necessidades
de cognição e de comunicação e, em velocidade
mais lenta, de modificar as regras de sua gramática. É
isso que garante a continuidade do funcionamento eficaz de uma linguagem
em face da mudança social, uma vez que as sociedades humanas
não são estáticas.
Outra característica comum a todas as linguagens é o
fato de que cada uma delas cria e recria permanentemente, na comunidade
em que é usada, um sistema de valores, ou seja, uma visão
de mundo. Também chamada de cosmovisão, ideologia ou
— termo criado pelo filósofo alemão Wilhelm Dilthey
(1833-1911) — Weltanschauung, essa concepção
de mundo pode ser entendida como um modo particular de ver e pensar
o mundo à nossa volta, próprio de cada cultura.
Constata-se, por outro lado, que, se existe um princípio universal
de formação das linguagens, das culturas e das ideologias,
o resultado desse princípio é um vasto conjunto de linguagens,
culturas e ideologias distintas, o que evidencia a riquíssima
diversidade cultural e lingüística do ser humano. Por
operar códigos que não são estritamente produtos
do determinismo biológico, como no caso dos animais, o homem
é a única espécie a criar milhares de códigos
diferentes para servirem de instrumentos de comunicação
e de pensamento.
O
que significa “conhecer”
Sabemos
que todos os seres humanos percebem biologicamente o mundo da mesma
maneira. Entretanto, a “leitura” que cada povo (e, em
menor grau, cada indivíduo) faz do mundo à sua volta
difere em função de seu sistema de valores específico.
Um exemplo clássico disso é a análise das cores
do arco-íris feita por diferentes culturas: para nós,
brasileiros, o arco-íris tem sete cores, enquanto para a tribo
africana dos bassas ele tem apenas duas cores. Isso não significa
que os bassas percebem as cores de modo diferente (os órgãos
da visão dos africanos são iguais aos dos brasileiros),
mas apenas que eles dividem o espectro das cores de outra forma. Assim,
onde um brasileiro reconhece duas cores distintas (vermelho e laranja,
por exemplo), um bassa reconhece duas tonalidades da mesma cor.
Diante disso, o que significa “conhecer”? É evidente
que não podemos conhecer o mundo tal qual ele é, por
conta, primeiro, das limitações de nossos próprios
órgãos dos sentidos e, em segundo lugar, da nossa própria
incapacidade de apreender a realidade em si. Na verdade, o mundo real
só pode ser pensado por nós depois de ser interpretado
em termos de uma cultura. Vale dizer, depois de ser traduzido em alguma
linguagem humana, com seu respectivo sistema de valores. Essa percepção
e interpretação ideológica da realidade implicam
um duplo processo de filtragem da informação potencial
existente no meio. O real é filtrado primeiro pelos nossos
sentidos (filtragem biológica) e, a seguir, pela nossa cultura
(filtragem ideológica).
Como se dá então a cognição, ou seja,
a transformação dos dados de nossa experiência
(captados pelos nossos sentidos) em conceitos e, em conseqüência,
em signos (figura 1), através dos quais pensamos?
Figura
1: Nosso conhecimento do mundo real passa por dois processos de filtragem,
o dos sentidos (biológico) e depois o da cultura (ideológico),
para ser transformado em conceitos e, em conseqüência,
em signos, que permitem a comunicação.
As
estruturas mentais
As
teorias semióticas mais modernas apontam para a existência
de vários níveis ou estruturas mentais através
dos quais passam as informações vindas do meio (como
estímulos sensoriais), até se transformarem em pensamentos
e daí em signos. Estes, transmissíveis de pessoa a pessoa,
tornam possível a comunicação.
O primeiro nível, segundo essas teorias, é imediatamente
posterior à percepção biológica e, ao
mesmo tempo, anterior ao tratamento — através de qualquer
linguagem — da informação ali contida. Essa instância
ao mesmo tempo anterior e comum a todos os códigos é
a chamada “estrutura hiperprofunda”: é o nível
de conceptualização, ou seja, da construção
de modelos mentais que depois poderão originar significados
de signos, dentro dos mais diversos códigos. Esse é
o nível em que são produzidos os chamados recortes culturais
(as divisões da realidade percebida, como no exemplo das cores
do arco-íris).
Os recortes, destacados do continuum da realidade que percebemos,
são mentalmente analisados e decompostos naquilo que pode ser
chamado de “partículas elementares da significação”,
por analogia com prótons, nêutrons, elétrons e
mesmo quarks, constituintes básicos de toda matéria.
Tais partículas elementares são chamadas de “noemas”
e representam traços semânticos conceptuais. Quando pensamos
no ouro, por exemplo, concebemos algo material, inanimado, sólido
à temperatura ambiente, amarelo, brilhante, metálico
e, para muitas culturas, também valioso, entre inúmeros
outros atributos (ou traços semânticos).
Aliás, todos os conceitos enquadram-se em três categorias
básicas, definidas pelo psicólogo alemão Karl
Bühler (1879-1963): objetos, processos e atributos. Os próprios
objetos e processos nada mais são que complexos de atributos.
Assim, podemos dizer que o complexo de atributos “sólido”,
“amarelo”, “brilhante”, “metálico”,
“valioso”, etc. define em nossa cultura o objeto que chamamos
em português de “ouro”. Esse conjunto de noemas
foi chamado de “lexe” pelo criador da noêmica, o
francês Bernard Pottier, e de conceptus pelo fundador
da semântica cognitiva, o também francês François
Rastier (ambos são lingüistas e semiólogos).
Pode-se dizer, apesar da diferença de nomenclatura, que lexe
e conceptus são a mesma coisa. A noêmica e a
semântica cognitiva são ciências de ponta que de
certa forma representam, para as pesquisas sobre a linguagem e o pensamento,
o que a genômica representa para as ciências biológicas.
A despeito de algumas diferenças em suas concepções
teóricas, ambas estudam o nível conceptual da cognição
humana, ou universo cognitivo. Essa instância é apontada
como intermediária entre o universo físico e o universo
semiótico (ou universo das linguagens). A concepção
do lexe ou conceptus como “feixe de noemas” inspirou-se
em grande parte na concepção de fonema como “feixe
de traços distintivos” formulada pela lingüística
estruturalista (ver “O fantástico mundo da linguagem”,
em Ciência Hoje n.º 164, também disponível
neste site).
Lexes
universais e lexes culturais
Na
passagem da percepção biológica à conceptualização,
o indivíduo analisa o objeto percebido em termos de noemas.
Pottier distingue três tipos básicos de noemas: as “latências”,
ou traços semânticos potenciais (tudo o que podemos pensar
a respeito do objeto); as “saliências”, ou traços
que se destacam no objeto (por exemplo, o aspecto circular e luminoso
do Sol); e as “pregnâncias”, ou traços que
o indivíduo ou a comunidade deliberadamente destacam no objeto
(por exemplo, o caráter sagrado da vaca na Índia).
Já os lexes (os complexos de noemas) têm duas formas:
os protolexes, ou lexes universais, comuns a todas as culturas e ideologias,
decorrentes da própria natureza biológica dos processos
mentais do homem, e os lexes construídos, ou lexes culturais,
conjuntos de noemas específicos de determinada cultura e portanto
disponíveis para formar significados de signos nas diversas
linguagens usadas nessa cultura. Os lexes culturais ocupam um nível
um pouco menos profundo que o dos universais.
Por serem universais, os protolexes — uma espécie de
arquétipos — permitem a “tradução”
entre linguagens pertencentes a culturas diferentes (dois idiomas
distintos, por exemplo). Já os lexes culturais, sendo privativos
de cada cultura, são os responsáveis pela diversidade
de visões de mundo observada entre povos distintos. Ao mesmo
tempo, porém, por estarem na base da visão de mundo
de cada povo, tais lexes garantem a reiteração da mesma
concepção de mundo, do mesmo sistema de valores, em
todas as linguagens (verbais, não-verbais ou sincréticas)
praticadas por um determinado povo.
O nível dos lexes culturais (dentro da estrutura do processo
de cognição) inclui também uma espécie
de gramática que disciplina a combinação dos
mesmos para a formação de “enunciados conceptuais”
que, em uma etapa posterior, darão origem a uma variedade de
“enunciados concretamente realizados”, através
dos quais expressamos nosso pensamento, seja qual for o código
semiótico utilizado. Esse léxico e essa gramática
conceptuais são, assim, a matriz de todos os nossos processos
semióticos e traduzem todas as nossas experiências mentais,
sejam elas intelectuais, sensíveis ou de outra qualquer natureza.
Como cada cultura recorta diferentemente o continuum da realidade
percebida, fica claro que o léxico conceptual é exclusivo
de cada povo. Dessa maneira, os significados específicos que
os signos têm em determinada linguagem não podem ser
transplantados diretamente para outra linguagem, especialmente quando
se trata de linguagens de comunidades culturais distintas. No entanto,
a informação potencial pré-semiótica contida
nos discursos produzidos em determinada linguagem sempre pode ser
traduzida para outra linguagem, dentro ou fora da mesma cultura. Isso
permite, de um lado, transformar um livro em um filme e, de outro,
dublar um filme em inglês para o português, por exemplo.
Podemos dizer que o que se traduz não é o significado
específico, já que este é privativo de um dado
código semiótico, mas sim o sentido, que é anterior
e ao mesmo tempo comum a todos os códigos.
Lexes
e linguagens
Outra
característica do lexe é que, sendo uma espécie
de matriz que vai gerar signos nas diferentes linguagens usadas dentro
de uma mesma cultura, é natural que ele contenha mais noemas
do que cada um dos signos que gera, já que, por definição,
o lexe é o conjunto que engloba os traços semânticos
de todos os signos (verbais, não-verbais e sincréticos)
que ele permite gerar. Assim, por exemplo, o conceito de “cavalo”
pode ser expresso em nossa cultura através da palavra “cavalo”,
falada ou escrita, do desenho desse animal, de uma escultura que o
represente, da imitação do seu relinchar, de uma onomatopéia
como “pocotó, pocotó” e outros signos (figura
2).
Figura
2: O conceito de “cavalo” pode ser expresso de diferentes
maneiras em nossa cultura.
Quando
dizemos a palavra “cavalo”, fazemos nosso interlocutor
pensar nesse animal, mas em princípio não lhe damos
qualquer informação adicional sobre ele: esse interlocutor
não saberá, apenas ouvindo a palavra “cavalo”,
se o animal em questão é grande ou pequeno, se está
ou não selado, se está parado ou em movimento, nem de
que cor é. Já uma fotografia colorida de um cavalo traz
necessariamente informações sobre cor e tamanho (por
comparação com objetos próximos também
presentes na foto), sobre o local onde ele se encontra, sobre seu
estado de movimento (deitado, em pé, parado, andando, trotando,
correndo) e eventualmente até sobre seu sexo (macho ou fêmea)
e idade (adulto ou filhote).
Entretanto, uma fotografia é uma representação
bidimensional do objeto “cavalo” que não nos permite
ter acesso a informações quanto à profundidade
ou perspectiva, que só uma imagem tridimensional poderia fornecer,
nem nos fornece qualquer informação tátil. Já
em uma radionovela, por exemplo, como não é possível
comunicar ao ouvinte a presença de um cavalo em cena através
de imagens, nem é apropriado recorrer a todo instante à
descrição verbal da cena por um narrador, costuma-se
sugerir a presença do cavalo pela imitação do
ruído de patas trotando, feita pelo contra-regra em geral com
o auxílio de cascas de coco. Nesse caso, não podemos
saber a cor nem o sexo do cavalo, nem se há alguém montado
nele, mas pensamos de imediato em um cavalo em movimento.
Como se vê, cada um dos diferentes signos utilizados em nossa
cultura para representar o conceito de cavalo comporta um certo número
de informações, mas não todas as informações
que o conceito abrange. Existem, aliás, certos traços
semânticos associados à idéia de cavalo que nenhum
signo artificial é capaz — pelo menos até o momento
— de comunicar, como o cheiro do animal (ainda não inventaram
fotografia ou televisão com odor). No entanto, esse é
um dos traços semânticos mais fortes do conceito em questão.
Tendo em vista, além disso, que os lexes não são
conjuntos estanques, isolados, mas mantêm intersecções
comuns e sobreposições, pode-se deduzir que o conjunto
de noemas comuns a vários lexes (por exemplo, os comuns aos
lexes de “cavalo”, “égua”, “potro”,
“cavalgar”, “eqüestre”, “equitação”,
etc.) constitui um “núcleo noêmico” em torno
do qual se estabelecem vários campos semânticos. Lexes
diferentes podem compartilhar um mesmo núcleo e possuir noemas
periféricos diferentes ou ter núcleos diferentes e compartilhar
noemas periféricos. Lexes diferentes podem ligar-se através
do compartilhamento de noemas, estabelecendo uma isotopia —
em um processo semelhante ao das ligações químicas,
em que átomos partilham elétrons e formam moléculas
(figura 3). Isso permite a constituição de enunciados
conceptuais que serão as matrizes de enunciados verbais, como
a frase “O homem morreu”, ou não-verbais, como
a cena de um homem morrendo em um filme. Tal fato deve-se à
compatibilidade semântica entre os noemas de <homem> e
<morrer>, o que já não acontece, por exemplo,
na frase “A mesa morreu”.

Figura
3: Esquema de um núcleo noêmico “cercado”
por vários campos semânticos — lexes diferentes
podem compartilhar um mesmo núcleo e ter noemas periféricos
variados ou ter núcleos diferentes e compartilhar noemas periféricos.
Os
campos semânticos, portanto, formam uma complexa rede (a chamada
“rede semântica”) que pode ser visualizada como
uma malha multidimensional. Nessa malha, os fios são os campos
semânticos e os nós, ou os cruzamentos de fios, são
os lexes (figura 4). Assim, cada lexe é o ponto de cruzamento
de muitos campos semânticos e cada campo semântico é
uma família de lexes inter-relacionados.

Figura
4: A chamada rede semântica é como uma malha multidimensional,
na qual os “nós” são os lexes e os “fios”
são os campos semânticos — cada lexe, portanto,
é o ponto de cruzamento de muitos campos semânticos.
O
percurso da comunicação humana
Para
que haja comunicação, são necessários
dois sujeitos com competência semiótica em determinado
código, que se alternarão nos papéis de emissor
e receptor. Também é preciso que esses sujeitos interajam
de tal modo que o primeiro deles — de início no papel
de emissor, ou sujeito codificador — perceba sensorialmente
o mundo à sua volta, a seguir analise o fenômeno percebido
em termos de latências, saliências e pregnâncias,
e assim forme um núcleo noêmico que originará
um ou vários lexes, ou conceptus, os quais se inserirão
em uma rede semântico-conceptual.
Os objetos mentais assim criados organizam-se em campos semânticos,
seja ocupando o espaço vago em um campo semântico já
existente, seja dando origem a um novo. A seguir, o lexe vai servir
de matriz a um ou mais signos dentro de um código específico
(verbal, não-verbal ou sincrético), pelo processo da
“semiose”. Nesse processo, o complexo de noemas (o lexe),
unidade conceptual comum às várias linguagens, transforma-se
em “semema”, ou seja, o significado de um signo específico
de determinada linguagem, unido a uma forma de expressão definida
(um significante que tenha a forma fônica ou gráfica,
no caso da linguagem verbal, ou a forma sonora, visual, gestual, tátil,
olfativa, gustativa, etc., em outras linguagens). Nessa passagem de
lexe a semema, o complexo semântico sofre uma filtragem em que
todos os noemas não compatíveis com a forma de expressão
da linguagem de destino são eliminados — os noemas táteis
e olfativos do lexe <cavalo>, por exemplo, desaparecem na palavra
“cavalo”, falada ou escrita, ou na fotografia desse animal.
Uma vez escolhida a linguagem e formado o signo que expressará
o conceito em jogo, ocorre a atualização desse signo,
ou seja, sua inserção em algum tipo específico
de discurso. Com isso, o signo rico em significados no nível
de sistema (por exemplo, uma palavra no dicionário, com as
suas diversas acepções) assume um significado determinado
em um tipo de discurso específico (por exemplo, a palavra utilizada
em determinada situação de comunicação,
com uma acepção bem definida). Finalmente, no nível
da manifestação concreta, esse signo é veiculado
em discurso (por exemplo, é pronunciado oralmente ou impresso
em papel), o que conclui a etapa da codificação ou emissão
da mensagem.
A partir de agora começa a etapa da decodificação
ou recepção da mensagem. A primeira coisa que o sujeito
receptor ou decodificador faz é perceber a manifestação
do emissor como fenômeno semiótico, ou seja, como mensagem
dotada de significado. A seguir, ele deve reconhecer a linguagem em
que essa mensagem está codificada (por exemplo, a língua
portuguesa). Feito isso, ele decodifica a mensagem em termos dessa
linguagem (inserindo cada signo em seu campo semântico e fazendo
as necessárias associações de sentido, bem como
articulando gramaticalmente os signos), reconhece o significado dos
signos, estabelece isotopias entre eles (através de sua contextualização)
e reelabora mentalmente os conceitos ali contidos, passando do semema
privativo de um dado código semiótico ao lexe comum
a todos os códigos.
Isso o conduzirá a uma espécie de nova percepção
sobre o mundo e à aquisição de um novo saber
sobre esse mundo, de um novo conhecimento. Esse novo saber modificará
mesmo que em níveis mínimos, sua cosmovisão construída
e ampliará seu campo noêmico e sua competência
como sujeito semiótico para produzir novos discursos, em novos
atos de comunicação, em uma cadeia interminável.
(Re)construção
permanente
Sabemos
que o conhecimento do homem sobre o mundo se dá basicamente
através da linguagem. Esta, no entanto, só tem uma existência
concreta nos discursos que produz. A língua portuguesa, por
exemplo, é na verdade uma abstração: ela só
existe através dos textos orais ou escritos que permitiu e
permite construir. Assim, a visão de mundo de cada indivíduo
é permanentemente (re)construída a cada novo pensamento,
concebido como uma espécie de diálogo interior em que
o sujeito conversa consigo mesmo através de representações
verbais, não-verbais e sincréticas.
De modo semelhante, a visão de mundo de uma comunidade se (re)constrói
permanentemente a cada novo ato de comunicação (verbal,
não-verbal ou sincrético) entre os sujeitos semióticos.
Como resultado, o conhecimento do mundo sustenta-se em um eterno devir
— em uma evolução incessante — e é,
portanto, um processo histórico. A acumulação
temporal desse conhecimento é o que chamamos de cultura, definida,
por sinal, com muita propriedade pelo semiólogo russo Yuri
Lotman como “a memória não hereditária
da sociedade”.
Sugestões
para leitura
GREIMAS,
A. J. Semântica estrutural, São Paulo, Cultrix,
1969.
POTTIER, B. Lingüística geral — Teoria
e descrição, Rio de Janeiro, Presença/Universidade
Santa Úrsula, 1978.
RASTIER, F. Sémantique et recherches cognitives, Paris,
PUF, 1991.