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Publicado em Língua Portuguesa , ano 2, n.º 19, maio de 2007 Uso elitista da colocação pronominal em português contradiz tendência das gramáticas de outros idiomas de maior abertura à simplificação Costuma-se dizer que o português é uma língua difícil. Logo de início, é preciso esclarecer que não existe língua fácil: até mesmo um idioma artificial como o esperanto, criado para ser simples, tem lá as suas artimanhas. Todas as línguas apresentam dificuldades, sejam gramaticais, fonéticas ou mesmo ortográficas, e isso tanto para o estrangeiro quanto para o falante nativo. No entanto, estudos comparativos entre línguas permitem quantificar de forma objetiva o grau de complexidade de um idioma. Por exemplo, a comparação entre as conjugações verbais de várias línguas possibilita identificar qual delas possui mais paradigmas de flexão distintos, qual apresenta mais formas irregulares, e assim por diante. Se compararmos o português às demais línguas da Europa Ocidental (não vou tratar aqui do grego ou das línguas eslavas, cuja fama de complicadas já se tornou proverbial), observaremos que ela é mais simples em alguns aspectos e mais complexa em outros. Em matéria de colocação pronominal, por exemplo, o português é uma língua bem mais complexa – e mais conservadora – do que todas as suas irmãs românicas, e mais ainda do que as suas primas germânicas. Para entendermos o porquê disso, vamos analisar primeiro a gênese das regras de colocação pronominal, que remontam ao latim. Antepassados Na língua latina, as funções sintáticas (sujeito, objeto direto, adjunto adverbial, etc.) são indicadas pela terminação das palavras e não pela sua posição na oração. Por isso, a sintaxe do latim é bastante “frouxa”, dando ao falante grande liberdade de escolha da ordem dos elementos na frase. À medida que o latim evoluiu para as línguas românicas, essa característica sintática foi se perdendo. Por força de um fenômeno puramente fonético – a perda das consoantes finais das palavras –, tornou-se quase impossível distinguir a função sintática de uma palavra apenas pela sua terminação. Como resultado, as línguas românicas adotaram uma nova maneira de indicar a função sintática: por meio da posição da palavra na oração. É nesse momento que as gramáticas vão fixar a posição em que devem se situar os pronomes pessoais oblíquos átonos. Essa regulamentação se deu com base no uso que os falantes cultos faziam desses pronomes à época do estabelecimento das gramáticas. Com isso, praticamente todas as línguas provenientes do latim apresentavam em suas primeiras descrições gramaticais, entre os séculos 16 e 17, regras de colocação pronominal consideravelmente complexas, que envolviam duas posições relativas ao verbo: a próclise (pronome oblíquo anteposto ao verbo – me sento) e a ênclise (pronome oblíquo posposto ao verbo – sento-me). O português, por sinal, apresentava uma terceira posição nos tempos futuros: a mesóclise, isto é, o pronome oblíquo átono enxertado no meio do verbo (sentar-me-ei). A existência da mesóclise já distinguia, de princípio, a colocação portuguesa da de suas irmãs românicas. Posições livres Embora num texto espanhol ou italiano do século 16 fosse possível encontrar os pronomes ora antepostos ora pospostos aos verbos, a escolha da posição do pronome nessas línguas era mais ou menos livre, ao gosto do escritor. No português dessa época, já havia algumas restrições ao posicionamento dos pronomes (por exemplo, a presença de palavras de significado negativo, como não, nunca, nenhum, etc., exigia a próclise). Mas o fato é que, sobretudo a partir do final do século 19, e mais ainda após a Segunda Guerra Mundial, as línguas da família românica, com exceção do português, simplificaram sensivelmente os seus sistemas de colocação pronominal. Por iniciativa do uso popular e, a seguir, por adesão dos gramáticos a esse uso, fixou-se com a maioria das formas verbais o emprego da próclise, nas demais adotando-se a ênclise. Atualmente, o francês, o occitano e o romeno utilizam próclise com todas as formas verbais, exceto o imperativo positivo, em que ocorre ênclise (no imperativo negativo também se usa a próclise). O espanhol, o catalão e o italiano usam próclise em todas as formas, com exceção do imperativo positivo e das formas nominais do verbo (infinitivo, gerúndio e particípio). Nas línguas germânicas, a regra é ainda mais simples: ênclise sempre. (Em alemão e holandês, o pronome oblíquo às vezes aparece antes do verbo; na verdade, nessas línguas é o verbo que se desloca para o final da oração se esta for subordinada ou se o verbo estiver numa das formas nominais. Ainda assim, a regra é bastante simples.) Em português, como se vê no quadro abaixo, tudo é muito mais rígido. Complicações descartadas Segundo tais regras, o correto seria dizer isso me está incomodando (ou isso está incomodando-me) em lugar do natural isso está me incomodando. Pior ainda, se conjugarmos o verbo fazer acompanhado de um pronome “o” enclítico, teremos as bizarras formas faço-o, faze-lo, fá-lo, fazemo-lo, fazei-lo, fazem-no. Além de três formas diferentes para o mesmo pronome (o, lo e no), surgem formas verbais estranhas como fá ou faze. Nenhuma outra língua românica ou germânica apresenta tais anomalias. Com todas essas regras tão simples e lógicas, não é à toa que a colocação pronominal seja um dos grandes pesadelos de qualquer estudante de língua portuguesa. Imagine agora um estrangeiro tendo de assimilar esse emaranhado de prescrições e exceções! É preciso lembrar que essas regras valem para a chamada norma culta, mas, tanto na fala popular quanto nos textos literários e jornalísticos da atualidade, as regras são bem mais simples: para o povão, próclise o tempo todo e fim de papo; para os escritores e jornalistas, algum respeito pela norma culta, mas sem fanatismo. Por exemplo, mesóclise é algo terminantemente proibido. Aliás, a mesóclise hoje em dia é algo que praticamente só se vê em textos jurídicos. Só que os profissionais do direito também empregam “aluguer” por “aluguel”, “teúda” e “manteúda” por “tida” e “mantida”, e outros arcaísmos que remontam ao século 12. Ou seja, o idioma dos tribunais não pode ser considerado um bom exemplo do português moderno. Na prática, toda língua de cultura possui pelo menos três padrões de linguagem, ou registros: o registro formal, o informal e o popular (também chamado de não-padrão). O registro formal é aquele usado pelos falantes cultos (isto é, altamente escolarizados) em situações formais, como um discurso em cerimônia de formatura ou um livro didático. O informal é o utilizado pelos mesmos falantes cultos em situações informais (numa roda de amigos, por exemplo). Finalmente, o popular é usado pelos falantes de baixa ou nenhuma escolaridade em todas as situações. Diferenças Em outras línguas européias, tanto românicas quanto germânicas, a diferença entre o padrão formal e o informal não é tão grande. O brasileiro que aprende a língua inglesa não percebe muita diferença entre o inglês falado nas ruas, o dos jornais, revistas e livros e o inglês das gramáticas. Ao contrário, um estrangeiro que tenha aprendido português em seu país de origem com base na gramática normativa – e é isso o que geralmente acontece – logo perceberá a distância abismal entre a colocação pronominal dos livros escolares e o uso feito tanto pelos falantes cultos quanto pelos incultos. Por que isso acontece? Em primeiro lugar, porque os gramáticos do português são bem mais conservadores e resistentes às inovações de origem popular que os de outras línguas. Em segundo lugar, porque a gramática normativa toma por base o uso da língua feito sobretudo por autores clássicos, como Eça de Queirós e Machado de Assis. Em terceiro lugar, porque a gramática do português brasileiro, imbuída de um verdadeiro complexo de colônia, impõe um uso lingüístico que é fundamentalmente lusitano: enquanto a ênclise é a colocação mais comum em Portugal, no Brasil nenhum “mancebo” conseguiria conquistar uma “rapariga” lascando um sonoro amo-te, querida. O fato é que o povo tende a simplificar a língua, recorrendo freqüentemente à analogia. Por exemplo, se o futuro do subjuntivo de “colocar” é “colocar”, por que o de “pôr” é “puser”, o de “ver” é “vir” e o de “vir” é “vier”? O falante ingênuo (isto é, o que não é estudioso do idioma) ignora as razões históricas que geraram essas irregularidades e simplesmente profere “se eu pôr, quando eu ver, se ele vir falar comigo”, e assim por diante. No inglês, o futuro dos verbos, que antes era feito com o verbo auxiliar shall nas primeiras pessoas do singular e do plural e com will nas demais, hoje se faz com will em todas as pessoas, e isso consta em todas as gramáticas e livros escolares da língua. Mesmo a nobreza britânica, que sente pruridos em relação à fala cockney da plebe, abandonou há muito o uso de shall. De modo igual, a simplificação na colocação dos pronomes operada pelo espanhol, francês, italiano, etc., está contemplada em todos os compêndios de ensino dessas línguas. Portanto, se as gramáticas de outros idiomas são mais abertas à simplificação e preocupam-se acima de tudo com a eficácia da comunicação, no português o que fala mais alto é o apego à tradição. Daí essa disparidade tão grande entre a língua real das ruas e dos jornais e a língua ideal das gramáticas e das aulas de português. Isso revela algo mais sobre a nossa identidade cultural tupiniquim: as elites brasileiras, ciosas de nosso passado colonial, têm horror a tudo o que é popular e zelam pela complexidade gramatical como instrumento de dominação. Nossa cultura bacharelesca preza muito a fala rebuscada e a verborragia vazia de conteúdo desde que muito bem ornada de floreios e preciosismos.
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