Artigos de Divulgação
 
  OS PRONOMES DE DEUS

Publicado em Língua Portuguesa , ano 2, n.º 17, março de 2007

As controvérsias religiosas provocadas pela existência das maiúsculas no Antigo Testamento

Estabelecem as gramáticas normativas do português que a palavra Deus, quando se refira à divindade suprema do cristianismo e do judaísmo, seja grafada com inicial maiúscula. Até aí, tudo bem, afinal, nesse sentido específico, Deus é praticamente um nome próprio, um substituto de Iavé (ou Jeová), já que o Terceiro Mandamento do Decálogo sentencia “não pronunciarás o nome de Jeová, teu Deus, em vão”. Por isso, os judeus – e posteriormente os cristãos – adotaram termos vicários para nomear a divindade, dentre os quais Adonai, que em hebraico quer dizer “o Senhor”.

Porém, as gramáticas determinam que também os pronomes pessoais referentes a Deus – e a Jesus, que para os cristãos é o filho de Deus – sejam grafados com inicial maiúscula (Ele, O, Lhe), o que dá origem até mesmo a esquisitices como as contrações d’Ele ou dEle. Trata-se obviamente de uma questão de respeito ao Ser Supremo a quem, segundo a crença dominante no Ocidente, todos devemos reverência. Mas por que devemos reverência ao Deus judaico-cristão e não a Alá, Osíris, Shiva, Jah, Zeus, Tupã, Oxalá e outros?

Preconceito etnocêntrico

Na verdade, essa prescrição ortográfica foge ao aspecto puramente gramatical da língua e adentra o aspecto religioso – do qual não é competência dos gramáticos se ocupar –, além de revelar um tremendo preconceito etnocêntrico: grafa-se com inicial maiúscula o Deus do cristianismo, mas com minúscula os deuses “pagãos”. O uso arbitrário, sancionado pela gramática, das iniciais maiúscula e minúscula quando se trata de nomear divindades mostra bem quanto respeito as sociedades cristãs têm pelas outras religiões.

Ateus e não católicos

Essa regra acaba por criar certos embaraços aos usuários da língua. Imagine um filósofo ateísta sustentando num ensaio a inexistência de Deus e tendo de grafar os pronomes O, Lhe, Seu com inicial maiúscula! É ridículo que, por observância à gramática, o autor tenha de prestar homenagem a um ser cuja própria existência ele questiona. Além disso, o Deus a que os filósofos costumam se referir, seja para afirmar seja para negar, é um Deus “filosófico”, existencial, não um Deus religioso.

Embora calcado na divindade única das religiões monoteístas, o Deus da filosofia não é necessariamente o Iavé judaico-cristão. Mesmo assim, os filósofos e pensadores se vêem constrangidos pela ortografia oficial a usar pronomes com inicial maiúscula para se referir a tal conceito. Contraditoriamente, não precisam lançar mão de pronomes de grafia bizarra quando se referem ao Ser, ao Todo, ao Uno, que para a filosofia também são nomes próprios e, no fundo, significam a mesma coisa: Deus.

Sabemos que Portugal era um país cem por cento cristão à época dos Descobrimentos (evidentemente, os judeus camuflados sob o disfarce de cristão-novos, muitos dos quais continuavam a praticar o judaísmo às escondidas, não entram na conta) e que, por isso, os países de língua portuguesa são predominantemente cristãos. Mas isso não significa que todos os portugueses, brasileiros, angolanos, moçambicanos, cabo-verdianos, timorenses, etc., sejam cristãos hoje em dia. Em sociedades democráticas, em que prevalece a separação entre Igreja e Estado, é garantida a todo cidadão a liberdade religiosa – que inclui o direito de não ter nenhuma religião e de não acreditar em nenhum Deus.

Será legítimo que a língua portuguesa, falada por muitos milhões de pessoas, dos mais diversos credos, patrocine ou favoreça, ainda que dissimuladamente, um determinado credo em detrimento dos demais? Não deveria a gramática ser neutra em relação a questões ideológicas?

Conservadorismos

A gramática normativa é, por sua própria natureza, conservadora, mas talvez falte a certos gramáticos sair do século 16 e fincar pé no mundo atual, em que a Igreja Católica já não tem mais poder absoluto, nem mesmo sobre a língua.

O fato é que a religião está tão arraigada em nossa cultura que, no Brasil, até os tribunais de justiça, que, mais do que qualquer outra instituição, deveriam primar pela imparcialidade, ostentam em suas paredes um crucifixo. Que tipo de julgamento será que um não-cristão recebe em nossas cortes?

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