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Publicado em Língua Portuguesa , ano 1, n.º 12, outubro de 2006 O rebaixamento de Plutão a planeta anão ajuda a entender por que a astrologia, não sendo ciência, acabou recebendo o elemento -logia, que indica “estudo científico” Todos nós aprendemos na escola que o Sistema Solar é composto de nove planetas, certo? Errado. Há algum tempo, os astrônomos descobriram que há uma infinidade de corpos celestes para além de Plutão (mais precisamente na região conhecida como Cinturão de Kuiper) com as mesmas características desse planeta. Características que os tornam mais parecidos com cometas do que com planetas propriamente ditos. Por isso, no mês de agosto, os astrônomos reunidos em Praga na 26ª Assembléia Geral da União Astronômica Internacional (UAI) tiveram de decidir entre incluir todos esses astros na categoria de planetas (o que elevaria muitíssimo o número de planetas de nosso sistema) ou – o que de fato aconteceu – rebaixar Plutão à categoria de “planeta anão”. A decisão inusitada provocará uma reviravolta na astrologia, que considera Plutão o planeta regente do signo de escorpião. Já imaginaram como ficará o destino dos escorpianos, regidos por um planetóide de segunda? Na verdade, trata-se de mais um round na secular batalha entre a astronomia e a astrologia. É que, embora ambas sejam muito antigas, a astronomia ganhou, a partir do século 17, o status de ciência, com método e objeto bem definidos, ao passo que a astrologia permaneceu como prática divinatória baseada em crenças nunca provadas empiricamente. O que isso tem a ver com a língua que falamos? Pois bem: em grego, o elemento de composição ‑logia significa “discurso lógico, racional, estudo científico” e é usado, preferencialmente, para designar práticas ligadas ao universo da razão, como as ciências. Muitos termos compostos com ‑logia foram criados em épocas em que não havia uma distinção rígida entre o conhecimento científico e outros tipos de conhecimento. Por isso, a astrologia tem esse nome: quando foi instituída, ela era simplesmente um discurso sobre os astros (do grego ástron, “astro, corpo celeste, constelação”, derivado de astér, “estrela”) e fazia o mesmo que hoje fazem tanto os astrônomos quanto os astrólogos: estudava matematicamente o movimento dos astros e também sua influência sobre as lavouras e a vida das pessoas. Como resultado, em grego clássico, astrólogos significava tanto “astrólogo” quanto “astrônomo”. E entre aplicações práticas dessa “ciência” estava orientar embarcações no oceano pela posição das estrelas e prever o futuro das pessoas. Tanto que até os grandes generais consultavam seus astrólogos de confiança antes de iniciar uma batalha. Quando se iniciou o estudo científico dos astros, foi preciso criar um novo nome para essa nova ciência, já que astrologia era uma palavra cercada por uma aura de misticismo e crendice. Optou-se então por astronomia, ou “lei que rege os astros”, já que a ciência faz exatamente isso: enuncia as leis que regem os fenômenos da natureza. Mas, se o elemento ‑logia indica estudo científico, e se a astrologia não é uma ciência, então seria mais adequado – embora inviável por força da tradição – rebatizá-la de astromancia (o elemento de composição ‑mancia, que vem do grego manteía e se encontra, por exemplo, em cartomancia e quiromancia, significa “profecia, adivinhação, superstição”). Neurologia Por motivos análogos, a neurologia foi assim denominada quando se instituiu na pesquisa médica o estudo do sistema nervoso (neûron em grego significa “nervo”). Essa disciplina, como parte integrante da medicina, visa não apenas a conhecer e descrever o sistema nervoso, mas sobretudo a tratar as patologias que o acometem. Só que, na década de 90, os conhecimentos sobre esse órgão e suas relações com o resto do corpo, com a mente e a consciência cresceram tanto que foi necessário instituir uma nova ciência, encarregada de estudar especificamente o funcionamento do cérebro (que os especialistas chamam de “complexo mente-cérebro”). Como a neurologia já existia como especialidade médica, essa ciência nascente ganhou o nome de neurociência, às vezes também chamada de neurobiologia. O mais lógico seria talvez reservar a designação neurologia para o que hoje chamamos de neurociência e renomear a atual neurologia como neuriatria (o elemento ‑iatria significa “medicina”, como em pediatria e psiquiatria). O problema é que essas denominações já são de uso corrente há séculos, e alterá-las agora criaria grandes dificuldades, pois esbarraria no uso já consolidado da nomenclatura médica (embora os médicos tenham recentemente feito grande revisão em sua terminologia), além de tornar ambíguos os textos publicados antes de uma eventual mudança (como saber se, num artigo, o termo neurologia está sendo usado em seu novo sentido ou no tradicional?). Falsa impressão O problema maior está no uso ideológico que se faz das palavras, às vezes querendo dizer o oposto do que efetivamente se diz. Hoje, muitas vezes se criam termos compostos com ‑logia para dar uma falsa impressão de cientificidade a práticas que de científicas não têm nada, isto é, para conferir credibilidade a atividades que são pura charlatanice. Não é à toa que, nestes tempos em que a religiosidade anda em alta e o misticismo volta com toda a força, abundam práticas pseudocientíficas com nomes imponentes como projeciologia, cristologia, espiritologia, logosofia, radiestesia, radiônica e outros. Mais do que denominações que remetem ao campo da ciência, essas práticas procuram cercar-se de um arcabouço teórico às vezes fortemente matematizado (como no caso da astrologia e seus complexos cálculos para elaborar mapas astrais), o que confere uma aparência de grande rigor técnico, porém sem fundamento lógico ou empírico. Mas essa já é uma outra história. |
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