Artigos de Divulgação |
|
| |
O FANTÁSTICO MUNDO DA LINGUAGEM |
(Publicado em Ciência Hoje,
v. 28, n.º 164, setembro de 2000, e em
Pesquisas Especiais Barsa Society, CD-ROM versão 2.1.,
2001)
A
linguagem, seja verbal, escrita ou outras, permite ao ser humano expressar
qualquer pensamento, o que faz dela a base de todo o conhecimento.
Apesar disso, a ciência que a estuda, a lingüística,
é pouco conhecida, embora tenha sido a primeira disciplina
de humanidades a ganhar status científico. Conhecer um pouco
da história dessa ciência — e a importância
do estudo da linguagem — é o objetivo deste artigo.
Quando
se fala em ciência, as pessoas pensam logo nas ciências
naturais, como física, astronomia, biologia, e esquecem que
as disciplinas de humanidades também são ciências.
Hoje, porém, a maioria das ciências humanas tem rigor
metodológico comparável ao das ciências naturais
e usa ferramentas como a lógica e a matemática para
descrever seus objetos de estudo e construir teorias complexas.
Para que as ciências humanas adquirissem esse rigor, foi decisiva
a contribuição da lingüística. Ela foi a
primeira dessas disciplinas a se constituir como ciência, no
final do século XVIII, com método e objeto próprios
e bem definidos, emprestando depois às demais o seu método
de pesquisa. Para entender como isso ocorreu, podemos fazer uma viagem
no tempo, desde a Antigüidade, quando a curiosidade sobre a linguagem
humana começou a inquietar os filósofos e sábios,
até os dias atuais.
Na verdade, a linguagem é tão importante que, sem ela,
não seríamos capazes de pensar, pois todo pensamento
estrutura-se na forma de alguma linguagem, seja ela verbal, visual,
gestual, etc. O filósofo grego Parmênides (535-450 a.C.)
já dizia que “ser e pensar são uma só e
a mesma coisa”, idéia reafirmada pelo filósofo
francês René Descartes (1596-1650) na famosa frase “penso,
logo existo”.
Não é à toa que em várias doutrinas o
conceito de existência está intimamente ligado à
palavra: o filósofo grego Heráclito (540-480 a.C.) chamou
de logos (“palavra”, em grego) o princípio
universal do “ser”, ao mesmo tempo palavra e pensamento.
Na mesma perspectiva, a Bíblia afirma que no princípio
era o “verbo”, ou seja, a palavra, ligando o conceito
de linguagem diretamente à própria idéia da “criação”
(ou existência). Se é impossível, como destaca
a filosofia da ciência, conhecer a realidade “em si”,
mas apenas construir uma imagem dela, baseada em nossos sentidos e
em nosso pensamento, e se pensamento é linguagem, então
a linguagem é a base para todo o conhecimento humano sobre
a natureza e o próprio homem. Apesar disso, a ciência
que a estuda, a lingüística, ainda é pouco conhecida.
Quando se discute a questão da linguagem, a primeira pergunta
é: “Por que o homem fala?” Na verdade, todos os
animais usam alguma forma de linguagem, mas os diversos ruídos
que produzem só expressam idéias genéricas de
sentimentos, como fome, dor ou medo. O homem é o único
a usar uma linguagem articulada, capaz de expressar todas as nuances
do pensamento, inclusive conceitos abstratos.
Várias teorias tentam explicar como o homem passou de grunhidos
isolados a um sistema de elementos articulados (as palavras) que se
combinam por um conjunto de regras (a gramática), formando
conceitos complexos. A explicação mais recente é
a “teoria da torre de Babel”, inspirada na lenda bíblica
segundo a qual, no princípio, todos os homens falavam a mesma
língua, que teria sido confundida por Deus como castigo à
ambição humana de atingir o céu construindo uma
torre.
Segundo a teoria da torre de Babel, a capacidade humana para desenvolver
uma linguagem é produto da herança genética:
todos, ao nascer, são capazes de aprender qualquer linguagem.
Se nós, brasileiros, falamos português, é porque
essa é a primeira língua que nos ensinam na infância.
Essa capacidade já devia estar presente nos ancestrais da espécie
humana, os hominídeos, há alguns milhões de anos.
É claro que os hominídeos mais primitivos apenas grunhiam,
mas com o tempo e a evolução biológica eles passaram
a andar eretos, a fabricar instrumentos e a falar.
A fala articulada resultaria, portanto, de uma lenta evolução
a partir de um código primitivo de grunhidos. Isso sugere que
a primeira língua humana teria surgido em apenas um grupo de
hominídeos, fragmentando-se em muitos dialetos à medida
que a população humana espalhou-se pela Terra. Essa
língua-mãe de todos os idiomas, que os lingüistas
chamam de proto-world, teria sido falada há vários
milhares de anos.
A
origem dos estudos lingüísticos
A
primeira descrição minuciosa e sistemática de
um idioma foi realizada por volta do século 6 a.C. por um indiano
chamado Panini. Ele elaborou uma gramática do sânscrito,
língua sagrada da Índia. Mas só na Grécia
antiga, a partir do século V a.C., teve início, de fato,
a especulação racional sobre a linguagem. Como para
os filósofos gregos linguagem e pensamento eram a mesma coisa,
compreender o pensamento exigia estudar a linguagem. Aristóteles
(384-322 a.C.), por exemplo, ao propor suas categorias do pensamento
(substância, atributo, ação, etc.), estava de
fato propondo o que é hoje conhecido como classes gramaticais:
substantivo, adjetivo, verbo, etc.
É curioso que a preocupação com o estudo da língua
de uma civilização nunca ocorre quanto ela está
em seu apogeu, mas só durante sua decadência. Tal estudo
assume, assim, um caráter de resgate do período áureo
daquela civilização, marcado pela influência de
grandes autores, os chamados “clássicos”. Quando
o grego foi estudado de modo sistemático, no século
IV a.C., a civilização grega não estava mais
no auge. Cidades que um século antes eram os centros da civilização
helênica, como Atenas, já viviam sob o domínio
do rei macedônio Alexandre, o Grande. Ele também dominava
o Egito, onde fundou a cidade de Alexandria, que logo se tornou um
pólo cultural famoso por sua biblioteca e pelos sábios
que lá trabalhavam.
Esses sábios iniciaram os estudos do grego. Eles formularam
a hipótese, hoje chamada de concepção “clássica”
ou “imperial”, de que as línguas, como os impérios,
apresentam três fases: a) a de formação,
em que a língua, pobre e rude, é falada por pastores
e camponeses, e surgem os primeiros autores; b) a de apogeu,
quando surgem os grandes autores, por isso chamados de “clássicos”;
e c) a de decadência, em que a língua começa
a se degenerar e diminui a qualidade da produção literária.
Em resumo, toda língua de cultura passaria por três estágios:
arcaico, clássico e tardio. Não por acaso, o período
clássico coincidiria com a fase de apogeu político e
econômico do Estado em que é falada. Essa concepção
levou os sábios alexandrinos a elegerem o grego do século
V a.C., auge do poderio político e econômico de Atenas,
como o modelo de língua a ser seguido. A gramática,
definida como a “arte de escrever com correção
e elegância”, tinha caráter eminentemente normativo,
ou seja, era um conjunto de regras a ser seguido por todos os que
pretendessem escrever bem.
As regras eram definidas pelo modo como os “clássicos”
haviam usado a língua. Mas existiam diferentes versões
dos mesmos textos clássicos, muitas com passagens obscuras,
em função das mudanças sofridas pela língua.
Para estabelecer as regras, portanto, os gramáticos precisavam
escolher em que versão se baseariam. Para resolver esses problemas,
os sábios de Alexandria criaram também a filologia.
Só que, para estabelecer qual dentre as muitas versões
de uma obra era a mais confiável, os filólogos se valiam
das regras da gramática, caindo assim num círculo vicioso
interminável.
Mesmo ultrapassada, a concepção clássica de língua
ainda está presente. Por isso Camões ou Machado de Assis
são tidos como clássicos da língua portuguesa
— estaríamos, portanto, vivendo a “decadência”
dessa língua — e vemos os índios como primitivos,
com uma cultura e uma língua “arcaicas”. Esse conceito
errôneo tem levado a tragédias, como o extermínio
de populações “primitivas”, tidas como inferiores,
por populações que se acham mais avançadas, ou
superiores.
Veio também da Grécia antiga a primeira concepção
de signo lingüístico, definido por Aristóteles
como um som com significado estabelecido. Assim, a palavra “cão”,
por exemplo, representa esse animal por uma convenção
estabelecida entre os falantes. Platão (428-347 a.C.), outro
filósofo grego, dizia existirem duas realidades: a imanente,
ou “mundo real”, e a transcendente, ou “mundo ideal”.
O mundo real, ou das “coisas” (res, em latim),
é o que habitamos, e o ideal, ou mundo das “idéias”
(ideae, em latim), é o das formas sem substância,
só atingível pelo pensamento. Os signos seriam objetos
do mundo real (coisas) que representam objetos do mundo ideal (idéias).
Língua
e signo na Idade Média e na Renascença
Todo
o conhecimento da Idade Média, época de grande obscurantismo
cultural, era aquele herdado da tradição greco-romana,
conservado basicamente nos mosteiros por monges que copiavam os antigos
escritos gregos e latinos. O domínio da doutrina cristã
nesse período acabou influenciando as idéias dos filósofos
antigos, inclusive sobre a linguagem. A grande síntese do pensamento
medieval foi feita no século XIII por São Tomás
de Aquino, que adaptou, em sua Suma Teológica, as
idéias de Aristóteles aos dogmas da Igreja.
Na época, uma questão essencial agitava o meio eclesiástico:
adorar imagens é ou não pecado? Um dos chamados Dez
Mandamentos diz que não se deve construir nem adorar imagens
da divindade, mas os templos católicos sempre foram decorados
com imagens de Cristo e dos santos. Para resolver a questão,
São Tomás propôs que adorar imagens de Deus e
dos santos enquanto objetos em si é um pecado, mas se estas
são vistas como representações (signos) da divindade,
então não é pecado, pois a adoração
é dirigida não à imagem, mas à divindade
representada. Com isso, Tomás de Aquino de certa forma antecipou
a concepção “metonímica” de signo:
“O signo é a parte menor, material e visível,
de uma realidade maior, imaterial e invisível”.
Na Renascença, a noção do signo como uma parte
do que ele representa foi substituída por uma concepção
que enfatizava seu caráter material. Todo signo, para os renascentistas,
é signo de alguma coisa. A linguagem, portanto, seria um sistema
racional de descrição da natureza, e seus signos seriam
representações adequadas da realidade. Os pensadores
daquela época, no entanto, jamais explicaram direito o que
significa uma “representação adequada da realidade”.
A maior contribuição da Idade Moderna ao estudo da linguagem
foi a elaboração das primeiras gramáticas das
línguas vulgares. Na Idade Média, só o grego
e o latim, consideradas línguas de civilização,
eram usadas em textos “cultos”: obras jurídicas,
de filosofia, de ciência, etc. Restava às línguas
vulgares — português, francês, inglês, etc.
— a poesia, a prosa literária e o teatro. No Renascimento,
sobretudo após a invenção da imprensa, no século
XV, as línguas vulgares ganharam o caráter de línguas
nacionais e idiomas de cultura. Isso tornou necessário padronizar
sua ortografia e definir sua gramática, para conter a evolução
e a inovação livres dos dialetos.
Surgem, assim, as primeiras academias (a Accademia della Crusca, fundada
em Florença em 1572, e a Academia Francesa, de 1634), com a
missão de zelar pela pureza da língua. O espírito
purista teve vários defensores entre as pessoas cultas da época,
e inspirou a maioria das gramáticas normativas de outras línguas.
É por isso que a gramática do português parece
tão conservadora: seu modelo é do século XVII
e seus padrões de correção e elegância
vêm de autores “clássicos” do século
XIX.
Na França, porém, além da corrente purista, surgiu
na época outra forma de pensamento sobre a linguagem, influenciada
pelo racionalismo cartesiano, e portanto bastante apegada à
lógica: era a chamada escola de Port-Royal, sediada no convento
de mesmo nome, perto de Paris. Esses gramáticos publicaram
em 1660 a Grammaire Générale et Raisonnée,
que destaca a estrutura racional da linguagem, vista como essencialmente
lógica e universal. Eles atribuíam discursos ilógicos
e mal-entendidos de comunicação à natureza imperfeita
do ser humano: os homens, e seus discursos, são imperfeitos,
mas sob esses discursos há uma ordem perfeita e universal —
ou seja, divina. Assim, a natureza última da linguagem deveria
ser buscada na teologia.
O
estudo histórico-comparativo das línguas
A
lingüística torna-se uma ciência no século
XIX, ao adotar o método de estudo denominado “histórico-comparativo”.
Esse método surgiu ainda no final do século XVIII, na
Índia, então colônia da Inglaterra. Um alto funcionário
britânico da Companhia das Índias Orientais, Sir William
Jones, grande conhecedor de línguas, percebeu diversas semelhanças
entre o sânscrito, o grego, o latim e as línguas germânicas
(como o inglês). Como não havia evidência histórica
de contato entre Europa e Índia, e como os textos em sânscrito
eram muito mais antigos que os gregos ou latinos, Jones imaginou que
todas essas línguas seriam aparentadas e teriam um ancestral
comum.
Essa hipótese levou ao estudo sistemático da história
dessas línguas, através da comparação
das suas formas, e as semelhanças e diferenças entre
as palavras de cada uma permitiriam reconstruir o idioma primitivo
do qual teriam se originado. Essa língua hipotética,
o “indo-europeu”, teria sido falada em algum lugar entre
a Europa Oriental e o Oriente Médio entre 8 mil e 4 mil anos
a.C. — muito antes da invenção da escrita. Não
há qualquer registro dessa língua, mas seu vocabulário
e sua gramática são bem conhecidos hoje, graças
ao processo de reconstrução. Comparando, por exemplo,
o sânscrito vrkas, o grego lykos, o latim
lupus, o gótico wulfs, o lituano vilkas
e outros, chegou-se à palavra hipotética indo-européia
wlkwos, que significa “lobo”.
O mesmo processo, aplicado a todas as línguas conhecidas no
mundo, permitiu classificá-las em famílias lingüísticas,
de modo semelhante à classificação de animais
e plantas feita pela biologia. Aliás, a biologia, ciência
de maior prestígio no século XIX, tornou-se o modelo
de inspiração da lingüística histórico-comparativa.
Os lingüistas da época chegaram a comparar a língua
a um organismo vivo, que nasce, cresce, se desenvolve, se reproduz
e morre. Daí o surgimento de expressões como “língua
viva”, “língua morta”, “língua-mãe”,
“línguas-filhas”, “línguas-irmãs”
e assim por diante.
A lingüística do século XIX buscava leis fonéticas
sem exceção que explicariam a evolução
das línguas. Um dos méritos do método histórico-comparativo
foi mostrar que “erros” gramaticais ou de pronúncia
de falantes menos escolarizados são, na verdade, inovações
lingüísticas que, se aceitas pelos demais falantes, têm
seu uso disseminado e levam à mudança (evolução)
da língua. Mas isso não explica como uma língua
funciona, apenas como evolui. É evidente que a mudança
lingüística decorre do uso que é feito da língua,
mas isso não explica a causa da alteração. Por
isso, no final do século XIX, o modelo histórico-comparativo
esgotou-se. O lingüista suíço Ferdinand de Saussure
(1857-1913) percebeu isso e propôs uma nova abordagem, que deu
origem à lingüística moderna. Por isso, ele é
considerado o “pai da lingüística”.
O
nascimento da lingüística moderna
Saussure
era um dos maiores expoentes do método histórico-comparativo,
tendo lecionado em grandes universidades européias, como Paris
e Genebra, mas passou a criticá-lo, descontentando os comparatistas.
Por isso, foi aos poucos afastado de suas funções docentes
na universidade, até que só pôde ministrar cursos
de extensão.
Em três desses cursos, entre 1907 e 1911, Saussure sintetizou
suas idéias sobre o que deveria ser, a partir de então,
a pesquisa da linguagem, mas ele morreu em 1913, antes de colocá-las
no papel. Estudiosos da época, porém, haviam freqüentado
esses cursos, notando o potencial revolucionário dessas idéias,
o que levou alguns deles, em especial Charles Bally e Albert Séchehaye,
a publicar, em 1916, o Curso de Lingüística Geral,
a partir de fichas das aulas do mestre e de anotações
de alunos.
Na visão de Saussure, a linguagem poderia ser estudada diacronicamente
(por meio de sua evolução histórica) ou sincronicamente
(tomando como objeto de estudo um dado momento dessa evolução).
Portanto, a lingüística histórico-comparativa era
essencialmente diacrônica, ao passo que ele propunha uma abordagem
basicamente sincrônica. Saussure comparou a língua a
um jogo de xadrez, onde as peças são os elementos da
língua e as regras são sua gramática. A configuração
do tabuleiro após cada jogada constitui uma sincronia, não
importando como o jogo chegou até ali nem o material de que
são feitas as peças. Apenas a posição
relativa das peças e sua função — os movimentos
que podem executar — têm importância.
Nascem daí outras importantes dicotomias. Em primeiro lugar,
Saussure opõe “língua” e “fala”.
A língua seria o conjunto abstrato e socialmente partilhado
de signos e de regras combinatórias que permite produzir os
atos de fala, e a fala seria cada produção concreta
feita por quem usa a língua. Ele também distinguiu entre
a “forma” e a “substância” da língua.
Sendo a língua um sistema onde o valor de cada elemento não
está no elemento em si, mas na função que exerce,
ela é basicamente um sistema de formas (“formal”)
cuja substância é irrelevante. Tal sistema, em que cada
objeto mantém com os demais uma relação de semelhança
que permite reconhecê-los como sendo do mesmo conjunto e uma
relação de diferença que permite identificar
um a um, é chamado de “estrutura”. A constatação
de que a língua é uma estrutura é a base do “estruturalismo”,
corrente de pensamento que dominaria a lingüística e influenciaria
as demais ciências humanas.
Saussure insistiu ainda no caráter social da língua,
oposto ao caráter individual da fala. Ele afirmou que a língua
é uma instituição social, cuja explicação
última deve ser buscada na sociologia, e previu a criação
de uma ciência, chamada semiologia, para estudar todos os signos
(verbais e não-verbais) da vida social. A lingüística,
que estuda os signos verbais, faria parte dessa nova ciência.
A concepção de signo de Saussure decorre do caráter
social da língua. Até então, as palavras eram
vistas como meros rótulos dados às coisas. Assim, de
uma língua para outra mudariam apenas os nomes pelos quais
são designadas as mesmas coisas. Saussure mostrou que, na verdade,
línguas distintas dão nomes diferentes a coisas também
diferentes. Um exemplo: aquilo que os brasileiros chamam de “rio”
recebe dos franceses dois nomes, fleuve ou rivière,
de acordo com o destino do curso d’água em questão:
para o mar ou para outro rio. Uma história folclórica
conta que exploradores franceses surpreenderam-se ao encontrar, na
África, um curso d’água que nascia nas montanhas,
corria pelas savanas e… desaparecia no deserto. Eles não
sabiam dizer se era um fleuve ou uma rivière.
Isso mostra que cada povo expressa através de sua língua
uma visão particular de mundo. Assim, a maneira como cada língua
“recorta” o mundo em conceitos influi no próprio
modo de pensar de cada povo.
Se, para Saussure, o significado do signo varia de língua para
língua, então o próprio significado é
parte do signo. Assim, ele concebeu o signo lingüístico
como uma entidade de duas faces: o significante ou expressão
(a forma material do signo, ou seja, a forma acústica ou gráfica
da palavra) e o significado ou conteúdo (a imagem mental, ou
seja, o conceito da coisa designada). A “coisa” propriamente
dita, que Saussure chamou de referente, não faz parte do signo
e pode até não existir — que “coisa”
é representada, por exemplo, pela palavra “amor”?
O signo “árvore”, do português, tem como
significante o som dessa palavra ou a seqüência de letras
que a compõe, e como significado o modelo mental de uma árvore,
construído a partir da observação de inúmeras
árvores concretas. Tal conceito (o significado) é uma
abstração baseada apenas no que é comum a todas
as árvores: um tronco, raízes, folhas, etc. O que é
circunstancial não faz parte desse conceito. Assim, existir
ou não o desenho de um coração flechado no tronco,
com os nomes de um homem e de uma mulher, não faz parte da
definição de árvore (ver figura).
Ao
pôr a visão de mundo particular de cada povo dentro da
linguagem, Saussure transformou o estudo da linguagem em um valioso
meio de compreender a ideologia — o modo de pensar — dos
povos. O desenvolvimento de suas teses fez com que o estruturalismo,
aplicado de início à lingüística, chegasse
às demais ciências humanas.
Evolução
e conquistas do estruturalismo
A
partir de 1930, surgiram na Europa diversas escolas lingüísticas.
Entre as mais importantes estão a escola de Praga, liderada
por lingüistas como Nikolai Troubetzkoy, Roman Jakobson e André
Martinet, e a escola de Copenhague, de Louis Hjelmslev e Hans Uldall.
Ao mesmo tempo, uma corrente lingüística também
“estruturalista” surgia nos Estados Unidos, mas voltada
para questões específicas daquele país.
Enquanto a Europa tinha como objeto de estudo as línguas européias,
a maioria com longa tradição literária, lingüistas
americanos, como Leonard Bloomfield e Edward Sapir, estudavam as línguas
indígenas de seu país, que não têm escrita.
O grande desafio desses lingüistas era tentar compreender, a
partir de gravações com falantes, a estrutura dessas
línguas sem passado documentado, gramáticas ou dicionários.
Isso mostra que, partindo do mesmo método da análise
sincrônica, correntes diversas do estruturalismo elaboraram
teorias bastante diferentes.
A escola de Praga dedicou-se à fundação da primeira
disciplina dentro da nova lingüística, a fonologia (o
estudo dos fonemas da língua), oposta à fonética
(o estudo dos sons da fala). A escola de Praga mostrou que se pode
tratar o sistema de fonemas de uma língua de modo lógico-matemático,
usando ferramentas até então exclusivas das ciências
naturais. Os resultados obtidos na fonologia fizeram com que esse
rigor metodológico fosse aplicado aos demais ramos da lingüística
— a morfologia (estudo da estrutura e formação
das palavras), a sintaxe (estudo da frase), a semântica (estudo
do significado), etc. — e, a seguir, a outras ciências
humanas, entre elas a antropologia, a sociologia, a ciência
política, a história e a ciência da comunicação.
Em fins dos anos 60, o estruturalismo, ao lado do marxismo e do existencialismo,
já era a corrente de pensamento mais respeitada das ciências
humanas. Essa corrente estabeleceu de modo inequívoco a relação
entre a língua e a cultura, levando à idéia de
que a natureza última da linguagem deve ser buscada no conjunto
das ciências humanas. Do estruturalismo surgiram disciplinas
de fronteira como a sociolingüística, que estuda a relação
entre língua e classes sociais, e a psicolingüística,
que estuda, entre outras coisas, o aprendizado da língua e
as patologias da linguagem. Outro mérito do estruturalismo
foi ter realizado o projeto de Saussure de criar a semiologia —
a ciência geral dos signos — pela transposição
de conceitos e métodos da lingüística a outros
sistemas de signos e outras linguagens: pintura, escultura, música,
etc.
A
gramática gerativo-transformacional
O
esgotamento do estruturalismo ocorre ao longo dos anos 60, quando
surgem novos pontos de vista sobre a linguagem. O principal deles
aparece em 1957, no livro Estruturas sintáticas, do
lingüista norte-americano Noam Chomsky. A origem da teoria de
Chomsky — chamada de gramática gerativo-transformacional
— é curiosa. No auge da chamada guerra fria, entre Estados
Unidos e União Soviética, o serviço secreto norte-americano
encomendou ao lingüista um método de ensino que tornasse
mais rápido o aprendizado de línguas estrangeiras (sobretudo
russo) por seus agentes. Chomsky pensou que, se fosse possível
descobrir o que há de universal na linguagem humana (aquilo
que todas as línguas têm em comum), a estrutura do pensamento
humano seria obtida e poderia ser adaptada a qualquer língua.
Ele partiu do princípio de que a aptidão lingüística
é inata, de que as estruturas sintáticas de base são
finitas e estão registradas na mente humana desde antes do
nascimento. Já as infinitas “estruturas gramaticais”
(as frases que se pode formar nas várias línguas) são
“geradas”, a partir das estruturas de base, através
de processos de “transformação” também
em número finito — daí veio o nome de gramática
gerativo-transformacional. Essa proposta converte a língua
em um algoritmo matemático que, a partir de finitos estados
iniciais e processos de transformação, pode gerar infinitos
enunciados finais — processo simulável por computador.
Evidentemente, essa teoria é valiosa para o desenvolvimento
de computadores “inteligentes”, que reconhecem e processam
enunciados lingüísticos.
Em tese, aquele que dominasse as estruturas do pensamento seria capaz
de dominar todos os humanos. Felizmente, as aplicações
políticas da teoria de Chomsky fracassaram. Restaram suas aplicações
no processamento automático da informação (leia-se
informática) e no ensino convencional de línguas.
Na Europa, o esgotamento do estruturalismo também foi percebido.
Ocorre que, se a lingüística histórico-comparativa
era estritamente diacrônica, o estruturalismo clássico
era estritamente sincrônico. Nenhuma das correntes fornecia
uma explicação “pancrônica”, unindo
evolução e funcionamento da língua. Além
disso, o estruturalismo ortodoxo estudava a língua mas não
a fala, a produção de mensagens mas não sua recepção,
o texto produzido mas não as estratégias de produção,
e assim por diante.
A partir do início dos anos 70, os aspectos deixados de lado
pelos estruturalistas começaram a ser investigados. O principal
evento do período foi a transformação da semiologia
estruturalista na “semiótica”, que pretende ser,
mais que uma ciência dos signos, uma ciência da significação,
ou seja, da produção dos signos. Nessa ótica,
os diferentes “sistemas semióticos” — linguagens
verbais, não-verbais ou sincréticas, que unem o verbal
ao não-verbal — não são apenas sistemas
de signos (conjuntos finitos e estáticos de signos e regras
de combinação), mas sobretudo sistemas de significação
(que contêm, além de signos e regras, uma “máquina
semiótica” capaz de produzir novos signos e novas regras).
Assim, um sistema semiótico é o que produz discursos
que, por sua vez, alteram o próprio sistema, gerando novos
discursos que mudam de novo o sistema, em um ciclo contínuo.
Sintetizando, a língua evolui porque funciona e funciona porque
evolui, o que vale para qualquer linguagem.
Outro grande avanço das ciências da linguagem na fase
pós-estruturalista é a investigação das
estruturas elementares da significação. Pode-se dizer
que o estudo e a compreensão dessas estruturas está
para a linguagem, e em conseqüência para o pensamento,
como a pesquisa e compreensão das partículas elementares
da matéria (elétrons, fótons, quarks, etc.) está
para a física. O princípio básico é o
seguinte: tudo o que pensamos (sons, palavras, imagens, cheiros, sentimentos,
etc.) é formado pela combinação de constituintes
básicos chamados “noemas”. Assim, todo o conhecimento
que o homem tem do mundo e de si mesmo compõe-se de noemas,
agrupados de modo organizado, mais ou menos como as partículas
elementares juntam-se para formar átomos, estes juntam-se para
formar moléculas e assim por diante. As pesquisas nesse terreno
apenas começaram, mas já apontam para uma convergência
entre as ciências da linguagem, da significação
e da cognição.
As
aplicações da lingüística e da semiótica
A
função principal da ciência é levar o homem
ao conhecimento, abrir sua visão para novas realidades e alargar
seus horizontes mentais. Isso é feito pela ciência pura.
Secundariamente, a ciência pode ter aplicações
tecnológicas na solução de problemas práticos
do dia-a-dia. É a chamada ciência aplicada. Assim, mesmo
que a lingüística e a semiótica não tivessem
aplicações práticas, o conhecimento que geram
já justificaria sua existência. Mas elas também
permitem várias aplicações.
A lingüística está para a área de letras
como a física está para a engenharia ou a biologia para
a medicina, por exemplo. Assim, há importantes aplicações
da lingüística no ensino de línguas, no ensino
e no estudo científico da literatura, na crítica literária,
na elaboração de gramáticas e dicionários,
na normalização de terminologia técnica e científica
e em muitas outras áreas. A semiótica, por sua vez,
é muito útil na área das comunicações
e das artes, com aplicações no jornalismo, na publicidade,
no marketing e no estudo da pintura, da escultura, da música,
do teatro, do cinema, etc. É ainda útil ao estudo de
qualquer linguagem (na arquitetura, na culinária, na moda,
etc.).
A lingüística e a semiótica também têm
aplicações em ciências naturais, como a computação,
onde a compreensão da transmissão e do processamento
de informação ajuda a criar programas de “inteligência
artificial”, que simulam o raciocínio humano, e a biologia,
onde a principal utilidade está na decodificação
do código genético, também uma linguagem. A lingüística
ajuda a decifrar escritas antigas (paleografia), a estudar línguas
sem escrita, a identificar e tratar disfunções de linguagem
(como gagueira e outras). Essas ciências têm ainda aplicações
na psicologia e na psicanálise, na lógica e em conseqüência
na matemática. Nos tempos atuais, a semiótica também
é usada no estudo dos discursos políticos, para detectar
seu significado (muitas vezes oculto) e a ideologia subjacente a eles,
e para reconhecer as mentiras neles contidas.
Hoje, já consolidadas como ciências, a lingüística
e a semiótica continuam a se desenvolver e a ampliar seu campo
de ação, como revelam os estudos na área da cognição
humana. Mas ainda são investigados os domínios tradicionais
da linguagem. Assim, permanece a busca de ancestrais comuns a todas
as protolínguas identificadas no século XIX, e para
isso os lingüistas voltam-se hoje para línguas pouco analisadas
até agora, como aquelas nativas da América, África
e Oceania.
Outros campos férteis das pesquisas atuais são a geolingüística
e a dialetologia, que estudam variações territoriais
de hábitos lingüísticos — fonéticos,
sintáticos, léxicos, etc. — para estabelecer mapas
lingüísticos. Países desenvolvidos traçam
e atualizam seus mapas lingüísticos desde o século
XIX, mas no Brasil só existem mapas parciais de algumas regiões,
como São Paulo e Paraíba. No país, também
é valiosa a pesquisa e descrição das línguas
indígenas.
A língua tem sido sempre a principal marca da identidade de
um povo e é o que o faz lutar por sua liberdade e auto-afirmação.
Mais do que isso, não se pode esquecer que todo desentendimento
humano, entre pessoas ou entre grupos, decorre antes de tudo de falhas
de comunicação. Por isso, entender a comunicação
humana e seu instrumento, a linguagem, é não apenas
interessante e fascinante, mas sobretudo imprescindível se
queremos viver em harmonia.
Sugestões
para leitura
HILL,
A. A. (org.) Aspectos da lingüística moderna,
São Paulo, Cultrix/EDUSP, 1974.
MADEIRA, R. B. Linguagem, semiótica e comunicação,
São Paulo, Plêiade, 1996.
MALMBERG, B. A língua e o homem. Introdução
aos problemas gerais da lingüística, Rio de Janeiro,
Nórdica/São Paulo, Duas Cidades, 1976.
MORRIS, C. W. Fundamentos da teoria dos signos, Rio de Janeiro,
Eldorado, 1976.