Artigos de Divulgação
 
  QUERATITE, CERATITE E A QUESTÃO DO NACIONALISMO LINGÜÍSTICO

Certa vez um saudoso amigo meu, conceituado médico oftalmologista, me consultou sobre qual das duas formas, queratite ou ceratite, era a mais correta. Ele estava então envolvido numa disputa terminológica com um colega de especialidade e, como amante das letras assim como da medicina, tinha forte interesse por questões vernáculas. O parecer que lhe dei na época seguia mais ou menos o raciocínio abaixo.

A cultura grega clássica é cerca de quatro séculos mais antiga que a romana, tendo a Grécia conhecido seu apogeu político, econômico e também cultural no século V a.C. Na política, esse é o século de Péricles. É também o século dos grandes autores, como Ésquilo, Sófocles, Eurípides e Aristófanes, dentre tantos outros. É nesse momento que a língua grega assume seu máximo esplendor e torna-se a expressão verbal da magnífica civilização helênica. Sendo a língua através da qual vão se expressar os grandes literatos e, posteriormente, os grandes filósofos, como Sócrates, Platão e Aristóteles, o grego se enriquece, nesse período, de um sem-número de criações vocabulares que visam dar ao pensamento toda a flexibilidade e riqueza de matizes necessária à expressão não só dos mais delicados sentimentos, mas também dos mais complexos e abstratos conceitos filosóficos. Portanto, é nessa época que surgem no grego inúmeros neologismos, sobretudo nos domínios filosófico, científico e histórico.

Já a civilização romana, herdeira e tributária da Grécia, conhece seu apogeu cultural e literário no século I a.C., época do general e também escritor Júlio César, de Cícero, Virgílio, Varrão, Lucrécio e Ovídio. Nesse período, o latim vai buscar no grego muitas das palavras de que precisa para produzir uma prosa importante, que hospeda gêneros tão diversos como a história, a filosofia e a política. É sobretudo no domínio das ciências e do direito que o latim mais enriquece seu léxico com as contribuições do grego, seja na forma de empréstimos diretos, seja na forma de traduções dos termos gregos. As palavras gregas importadas pelo latim sofrem desde o início uma adaptação ao alfabeto latino, que se chama tecnicamente de transliteração. Desse modo, a letra grega fi
é transliterada como ph em latim; o teta grego passa a th, o qui passa a ch, o úpsilon se transforma em y, o capa (k) é transliterado para c, e assim por diante. A razão de o capa grego ser transliterado para c em latim é que, até o século I a.C., a letra c soava como k: assim, Cicero, por exemplo, pronunciava-se Kikero. Mais tarde, com a evolução fonética do latim, o c assumiu o som tch diante de e, i, y e dos ditongos ae e oe (como no italiano atual, em que Cicerone se pronuncia Tchitcherone). Por essa razão, palavras de origem grega, como cenotaphium e cerastes, outrora pronunciadas kenotaphium e kerastes, eram pronunciadas já na época do Baixo Latim, isto é, a partir do século III d.C., como tchenotaphium e tcherastes. Essa é também a pronúncia corrente do c no latim medieval e eclesiástico.

Por outro lado, o português e as demais línguas neolatinas ou românicas descendem do latim, mais precisamente do latim vulgar, que nada mais era que o latim falado pelas populações de baixa cultura de Roma, por sinal bastante influenciado nas diversas regiões do Império Romano pelos dialetos regionais e por vestígios de antigas línguas faladas pelos povos conquistados e submetidos por Roma. O latim vulgar, do qual só temos uns parcos documentos escritos, era falado ao longo do Império pelas classes baixas e populares ao mesmo tempo em que o latim clássico ou literário era usado nas comunicações formais, como os discursos no Senado ou as obras literárias e científicas. Esse latim vulgar foi pouco a pouco diferenciando-se em cada região, dando origem a uma série de dialetos chamados pelos lingüistas de romances. Esses romances regionais tenderam a se distanciar cada vez mais a partir da queda do Império Romano, em 476 d.C., quando as comunicações entre as províncias, que já eram precárias, se dissolveram de vez. Os diversos romances, falados entre os séculos V e VIII d.C., são os antepassados diretos das atuais línguas neolatinas. Estas passaram uma a uma a ter expressão escrita, tornando-se assim línguas de literatura, entre os séculos IX (no caso do francês) e XVI (no caso do romeno). Nessas línguas, o c das palavras herdadas do latim pronunciava-se originalmente como tch, a exemplo do latim vulgar. Essa pronúncia conservou-se na Itália e na Dácia (atual Romênia), enquanto nas províncias do Ocidente (Gália, Récia e Hispânia) transformou-se primeiramente em ts e depois em s (assim, o francês cercle, “círculo”, do latim circulus, foi pronunciado sucessivamente como tchercle, tsercle e finalmente sercle, pronúncia atual).

Praticamente até o século XVI, o latim literário era a única língua digna da ciência, da filosofia, do direito, da história, da religião, dos discursos cultos enfim. As línguas vulgares eram usadas apenas para produzir literatura menos solene, como poemas de amor e cantigas de trovadores. Os grandes tratados de medicina ou de astronomia, por exemplo, eram todos escritos em latim. Dessa forma, é natural que nos termos de origem grega existentes no latim erudito o c seguido de e, i ou y fosse pronunciado como tch, isto é, à moda latina. Isso faz com que também nas línguas vulgares todas as palavras de origem latina (e, dentre estas, as que haviam sido originalmente tomadas ao grego pelo latim) que contivessem c seguido de e, i ou y fossem pronunciadas à moda latina, com o som tch no italiano e com o som s no francês, no espanhol e no português.

Quando, a partir sobretudo do século XVI, as línguas vulgares passam a produzir também obras de erudição, dentre as quais tratados de medicina, elas muitas vezes vão buscar novas palavras diretamente no grego, sem passar pelo latim, bem como formar novos termos técnicos a partir de radicais gregos não latinizados. Essa conduta diz respeito não só às línguas neolatinas, mas também às línguas germânicas, como o inglês e o alemão, por exemplo. Isso explica por que o inglês escreve cinema mas kinematics: é que cinema é empréstimo do francês cinéma (o cinematógrafo foi inventado na França), que translitera do grego a partir do latim, ao passo que kinematics foi construído diretamente a partir do radical grego kínema e do sufixo -ikê (e o fundador da cinemática foi o inglês Isaac Newton), de modo que, se tal palavra tivesse existido em grego, sua forma seria kinematikê.

De um modo geral, as línguas neolatinas transliteram o capa grego (k) seguido de e, i ou y para c, mais raramente para qu (português e espanhol), k (francês) ou ch (italiano). Por essa razão, temos em português cerâmica, encéfalo, cinema, ciclo, etc., a partir do grego keramikê, enképhalos, kínema, kýklos, etc. Alguns termos técnicos, em especial no campo da medicina, apresentam duas formas paralelas, uma com c e outra com qu, como, por exemplo, ceratina/queratina e ceratite/queratite. Estatisticamente falando, a maioria das palavras gregas que contêm a letra capa são transliteradas nas línguas latinas exclusivamente com c e não com qu, k ou ch. As palavras que apresentam dupla grafia (e dupla pronúncia), tecnicamente chamadas de alótropos ou palavras alotrópicas, estão em franca minoria. Menos freqüentes ainda são as palavras que possuem apenas a grafia com qu, k ou ch, como é o caso do português querosene. Ocorre que essa palavra nos chegou por via do inglês, língua que, assim como o alemão, prefere as formas em k às formas em c. Um fato curioso é que o correspondente inglês à palavra portuguesa cético se escreve sceptical na Inglaterra e skeptical nos Estados Unidos, mas em ambos os casos a pronúncia é skeptical; em alemão e holandês temos skeptisch, em sueco, dinamarquês, norueguês e islandês temos skeptisk, enquanto em francês temos sceptique, em italiano scettico, em espanhol escéptico, em português cético e em romeno sceptic. Isso por si só nos mostra que as formas portuguesas em c deveriam ser preferidas às formas em qu. Mas é preciso reconhecer, por outro lado, que nem sempre o que é mais correto ou mais justificável em termos lógicos ou etimológicos é o que acaba consagrado pelo uso. Provavelmente, a grande influência da língua inglesa nos meios científicos, língua na qual é escrita a maior parte dos artigos e comunicações em todas as áreas da ciência, incluída aí a medicina, fez com que as formas inglesas keratin e keratitis influenciassem os médicos de língua francesa a adotar as formas kératine e kératite, os médicos de língua italiana a adotar cheratina e cheratite e assim por diante. Desse modo, temos dois caminhos a seguir: se optarmos por seguir a tendência predominante no meio científico internacional, que é a da imitação pura e simples das formas inglesas, adotaremos queratina e queratite; já, se assumirmos uma postura mais purista, tomando como critério de escolha a tendência histórica das línguas latinas de transliterar o capa grego por c, optaremos por ceratina e ceratite. Evidentemente, a questão é bastante complexa e envolve de um lado a tradição e de outro a influência muitas vezes colonialista de outras línguas sobre o português. O fato é que tanto ceratite quanto queratite estão dicionarizados em português, o que autoriza o uso tanto de um quanto de outro.

Em resumo, a questão não é das mais simples, pois envolve ingredientes de ordem fortemente ideológica. A língua é dinâmica, e, no caso do português, com seus 800 anos de história, diferentes tendências predominam neste ou naquele período. Assim, o que está em jogo acerca de uma questão à primeira vista estritamente lingüística como esta é, na verdade, o antagonismo entre duas posições políticas opostas: o nacionalismo de um lado, a sujeição à hegemonia estrangeira de outro. Em qual das trincheiras vamos lutar é uma escolha individual, mas quando as fileiras se cerram em torno de questões de língua — expressão maior da cultura e da nacionalidade —, os combates costumam ser aguerridos.

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