Artigos de Divulgação
 
  SOBRE ARISTÓTELES E A CULTURA

Inteligente é quem percebe o óbvio.
Antigo provérbio chinês

Havia na Antigüidade a crença quase geral de que a Terra era chata. Tal convicção predominava sobretudo entre as pessoas mais simples, mas também muitos indivíduos de cultura mais elevada comungavam desse ponto de vista. Como sempre, havia algumas vozes discordantes aqui e ali, mas o chamado “bom senso” parecia indicar que a Terra fosse realmente plana, pois diversas evidências disso podiam ser encontradas rotineiramente. Por exemplo, os terrenos onde se constroem edificações costumam ser planos; as ruas por onde caminhamos também costumam ser planas, salvo por algumas ondulações; por mais que caminhemos ao longo de uma estrada, nunca temos a sensação de ficarmos cada vez mais inclinados conforme avançamos. Mesmo a presença de montanhas ou depressões em determinado terreno parecia não afetar o caráter fundamentalmente plano da superfície terrestre. Afinal, alguém que percorresse um território suficientemente extenso depararia em seu caminho com subidas e descidas, mas, na média, as elevações e depressões se compensariam mutuamente, de modo que o resultado final seria um território predominantemente plano. Acreditar nisso era uma questão de bom senso, e aqueles que discordassem com certeza deviam ser parvos ou loucos.

No entanto, um sábio (ou louco) grego um tanto incômodo chamado Aristóteles argumentou que, se a Terra fosse realmente plana, os navios não deveriam desaparecer no horizonte, como de fato acontece. Aliás, se a Terra fosse plana, sequer haveria horizonte. Portanto, a Terra devia ser esférica ou, pelo menos, possuir um formato arredondado em todas as direções (já que há horizontes em todas as direções). A impressão de que nosso planeta é chato não devia passar de uma ilusão, causada certamente pelo nosso pequeno tamanho em comparação ao da Terra. Esse argumento parece irrefutável a qualquer um de nós hoje e deveria ser irrefutável também a qualquer mente minimamente inteligente daquela época. Todavia, não foi isso o que aconteceu. Embora o raciocínio de Aristóteles tenha conquistado adeptos, durante muitos séculos ainda grande parte da humanidade preferiu aferrar-se às suas crenças já arraigadas a considerar a possibilidade lógica de Aristóteles estar com a razão.

Exemplos de situações semelhantes pululam ao longo da História. Muitos daqueles que hoje consideramos gênios foram tachados de loucos em suas épocas porque cometeram a insanidade de sustentar uma opinião divergente do “bom senso” dominante, ainda que munidos de sólidas provas lógicas ou materiais. Alguns fatos, embora óbvios, dificilmente são percebidos à primeira vista e, por isso, requerem exame mais acurado. Muitas vezes, apenas um dentre muitos observadores consegue perceber o óbvio e, ao tentar mostrar aos outros o que ele vê e eles não, é tratado como o personagem de Platão que retorna à sua caverna de origem depois de visitar o mundo exterior e narra aos seus companheiros o que viu.

Pois bem, quando sustento, como fiz em meu livro Anatomia da Cultura, que o principal atributo das práticas humanas que se convenciona chamar de cultura — as artes e as atividades intelectuais em geral —, eu diria mesmo seu próprio traço diferencial e identificador, é o predomínio daquilo que chamo de função hedônica (isto é, a capacidade de conduzir o destinatário dos discursos culturais a um estado de prazer), tenho suscitado alguma controvérsia, especialmente nos ambientes acadêmicos, nos quais o espírito obstinadamente inquiridor e amante da verdade, típico da ciência, deveria reinar, mas onde, não obstante, há muitas pessoas dogmáticas, neuroticamente apegadas a seus próprios conceitos de “verdade”. Para elas, dizer que a principal função da literatura, por exemplo, é o entretenimento, soa como heresia digna da fogueira inquisitorial. Afinal, para elas entretenimento é palavra execrada, tal sua conotação de alienação, de manipulação das consciências pela mídia capitalista, e, nesse sentido, a literatura, que sempre esteve entre as mais elevadas das artes, jamais poderia ser profanada pelo espírito mercantilista e fútil da indústria da diversão para as massas.

Ora, todos hão de concordar que a literatura é uma arte. Mas, o que isso efetivamente quer dizer? Em outras palavras, o que significa afirmar que uma determinada prática, especialmente um determinado tipo de discurso, é uma arte? Ao longo dos tempos, tem-se conferido um caráter sempre elevado à arte e à cultura em geral, talvez herança de uma visão essencialmente elitista da arte e da cultura. Assim, uma verdadeira obra de arte deve nos tocar profundamente, fazer-nos refletir sobre a realidade, por mais incômodo que isso possa ser, e assim desenvolver em nós uma visão crítica do mundo em que vivemos, transformando-nos em cidadãos conscientes e seres humanos melhores. Nesse sentido, os livros de Agatha Christie não devem ser considerados por críticos literários que se prezem como exemplos de literatura, já que proporcionam basicamente entretenimento, sem grandes qualidades lingüístico-poéticas ou demonstrações de consciência social. (Será que não mesmo?) Muito menos os de Paulo Coelho, que, contraditoriamente, figura entre os imortais das letras tupiniquins.

A questão é que esse veredicto, ainda que proferido por eminentes e renomados críticos, é um juízo de valor, não um juízo de fato, e carece, portanto, de fundamento científico, já que não se apóia em critérios objetivos, demonstráveis universalmente e de forma independente da opinião ou do gosto pessoal de quem faz a análise. E acontece que a ciência se baseia em juízos de fato e não em juízos de valor, que, aliás, qualquer um pode fazer — e faz —, sem precisar para isso de formação científica.

O que caracteriza uma obra de arte em geral e uma obra literária em particular é seu aspecto lúdico, ficcional, ora mais ora menos realista, mas de qualquer maneira não real. Sem dúvida, uma obra artística pode ser apenas lúdica, hedônica, sem ter qualquer preocupação de outra natureza. Que sentido de conscientização social ou existencial podemos encontrar na Mona Lisa de Da Vinci ou na Flauta Mágica de Mozart? Certamente nenhum, a menos que façamos uma leitura extremamente pessoal e idiossincrática, e por isso mesmo não-científica, dessas obras. Portanto, uma obra de arte pode, sim, visar apenas ao entretenimento, ao prazer sensorial e emocional de seus destinatários. Uma obra literária ou teatral socialmente engajada não é necessariamente melhor do que uma obra puramente fantasista. As canções de Chico Buarque que falam simplesmente de amor não são menos dignas da arte poético-musical do que aquelas de denúncia política, explícita ou velada.

É claro que a grande arte costuma mexer com nossa consciência, influenciar nossos pensamentos e atitudes, muitas vezes obrigando-nos a ver o que não queremos, dando-nos um “soco no estômago”, como diria o filósofo Renato Janine Ribeiro. Entretanto, o que procuro fazer ver é que não é esse o papel principal da arte. Um texto de crítica social, política ou existencial que não possua um caráter explícita e deliberadamente estético e de entretenimento não é um texto literário, mas mais provavelmente um ensaio filosófico, discurso político ou texto jornalístico. Se eu redigir um artigo criticando a política hegemonista do atual presidente dos Estados Unidos, certamente estarei produzindo um ensaio de ciência política ou um artigo digno de figurar na seção de editorais de algum jornal ou revista, dependendo do grau de profundidade, do método de abordagem e do público ao qual me dirijo. Mas, se eu escrever a história de um fictício presidente norte-americano (ou de algum país fictício parecido com os Estados Unidos), cujos traços de personalidade sejam uma caricatura de George W. Bush, e o ambientar numa época qualquer, não necessariamente atual, certamente estarei produzindo um texto literário, cujo valor subjetivo evidentemente dependerá muito do meu talento como ficcionista. Contudo, tal história — ou estória — terá traços objetivos de narrativa ficcional, isto é, literária. Charles Chaplin tinha certamente um grande objetivo político — denunciar as atrocidades de Hitler — quando filmou O Grande Ditador, mas o fato é que, sendo ele basicamente um comediante, o efeito principal de seu clássico filme tem sido fazer rir. E nisso, tendo sido ele o mestre que foi, sua crítica do regime nazista torna-se ainda mais contundente do que seria se ele tivesse redigido um manifesto político puro e simples, como muitos políticos e intelectuais fizeram. Se alguns dos espectadores desse filme riem, choram, mas também refletem sobre o absurdo da tirania enquanto outros — a maioria — apenas riem ou choram, isso é algo absolutamente normal e previsível. Já totalmente inusitado seria encontrar algum espectador que percebesse no filme apenas o conteúdo político, ignorando totalmente seu teor de graça e emoção. Em resumo, a arte entretém a todos, mesmo que faça pensar só a alguns, porque é exatamente essa a sua função principal: entreter, emocionar, causar prazer.

Mas, se o que define em primeiro lugar toda a cultura e não só a literatura e as artes em geral é a tentativa sistemática de propiciar prazer ao público, então soa ainda mais herético afirmar que o objetivo primordial da ciência pura deve ser produzir e veicular conhecimento para o prazer intelectual e existencial do ser humano. Afinal, segundo o consenso dominante em nossos meios intelectuais e em nossa mídia, a função da ciência pura é tornar-se ciência aplicada e, a seguir, tecnologia, com a finalidade de suprir as necessidades humanas, sobretudo as materiais. E se um determinado campo de investigações só produz conhecimentos que parecem jamais encontrar aplicações práticas, como, por exemplo, a filosofia, a arqueologia ou a crítica literária, a solução é simples: basta decretar que não são ciências, mas sim “humanidades”, com todos os difusos contornos semânticos que esse termo comporta.

Muitos intelectuais (e também pretensos intelectuais) dirão que esse tipo específico de ciência pura, as “humanidades”, cumpre um papel social, que é conferir cidadania. Afinal, o homem que não pensa sobre sua realidade e não conhece sua história não é um cidadão. Nesse sentido, toda a cultura tem o papel de conferir cidadania — hoje, é voz corrente nos meios intelectuais e políticos que a cidadania não se faz só com história ou consciência social, mas também com o acesso aos bens simbólicos de entretenimento, ou, se preferirem, às artes e esportes: cinema, teatro, música, futebol… Mas, e a cosmologia? E a filologia? E a história do vinho? Será que conhecer as características físicas do Universo num passado distante, ou o modo como se falava o latim no século IV, ou ainda as bacanais gregas em celebração ao deus do vinho, Dioniso, tem algo a ver com o exercício da cidadania em nossa sociedade atual? Será que os leitores de livros que tratam desses temas buscam aplicações práticas desses conhecimentos no seu dia-a-dia? Acho muito pouco provável. Ainda que o financiamento de projetos de pesquisa em cosmologia possa ser um corolário do financiamento das pesquisas em astronáutica ou tecnologia bélica, o fato é que cosmologia não é astronáutica nem tecnologia bélica, e seus resultados em nada contribuem para essas áreas. Menos defensável ainda seria o financiamento de pesquisas filológicas ou eno-históricas (perdoem-me o neologismo) se o argumento fosse a vinculação de tais pesquisas a aplicações em incentivo à cidadania ou mesmo à indústria do vinho.

A conclusão de que a cultura está irrecusavelmente ligada ao prazer — seja ele sensorial, intelectual, emocional ou espiritual —, tal qual enunciada sobretudo em meu livro, resulta de uma teoria consistente, fundada em princípios e métodos científicos e, portanto, em evidências empíricas e juízos de fato, não em achismos ou opiniões pessoais. Essa teoria conduz, evidentemente, a conclusões inesperadas, como a de que a religião também pode ser uma forma de entretenimento (no sentido mais amplo desse termo, bem entendido) ou a de que, a contragosto de muitos intelectuais da academia, a telenovela e a música mais popularesca também são formas de arte, tanto quanto as obras de Shakespeare ou Beethoven, ou ainda a de que não só Paulo Coelho e Agatha Christie mas até o anedotário popular são literatura. Se tais conclusões são surpreendentes e mesmo incômodas, devo lembrar que a tese de Einstein de que o tempo e o espaço não são absolutos, mas podem contrair-se ou alongar-se, ou o paradoxo quântico de que uma partícula pode ao mesmo tempo estar e não estar num determinado lugar são igualmente surpreendentes e incômodos, mas estão sendo provados na prática dia após dia. Enfim, ao contrário do que se acreditou até a Idade Média, a Terra é redonda e os navios não só desaparecem no horizonte como também podem circundar o globo e reaparecer exatamente do lado oposto.

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