Artigos de Divulgação
 
  FATORES DE MUDANÇA E VARIAÇÃO DA LÍNGUA

A mudança é, sem dúvida, o fenômeno fundamental da linguagem. Na medida em que a língua é, ao mesmo tempo, produtora e produto de uma dada cultura, e sendo esta algo dinâmico, é natural que a língua acompanhe esse dinamismo.

No domínio da natureza, a mudança é sempre algo imperceptível. Num universo em que o comportamento dos seres é regido por leis físicas ou genéticas, prevalece o determinismo do instinto. Assim, a natureza parece funcionar sempre da mesma maneira, os fenômenos seguindo sua ordem natural, sem exceção. O que distingue o homem dos outros seres vivos é justamente sua capacidade de modificar a natureza com seu trabalho transformador. Nesse sentido, o homem foi o único animal capaz de criar diferentes modos de vida, diferentes civilizações, de se adaptar a todos os habitats oferecidos pela natureza e o único animal a produzir história. No mundo natural, a mudança temporal é medida em termos de milhares ou milhões de anos, o que dá à natureza o caráter de aparente permanência e perenidade. Já os fatos sociais e as criações intelectuais do ser humano evoluem a uma velocidade às vezes assustadora.

A língua foi chamada pelo lingüista francês Roland Barthes de sistema modelizante primário do ser humano por ser o primeiro e principal instrumento de comunicação e do pensamento de que o homem dispõe. Segundo os americanos Whorf e Sapir, ela é também o filtro através do qual o homem vê e pensa o mundo à sua volta, e assim se dá conta de sua própria experiência. Nesse sentido, a língua impõe a seus falantes uma visão de mundo que condiciona os comportamentos psíquicos e sociais dos indivíduos. Contudo, a capacidade humana de transformar o meio social e de explorar a natureza conduz o tempo todo a uma nova realidade social, que obriga o homem a uma nova visão de mundo, levando a novos recortes, novas apreensões e novos tratamentos do continuum dos dados da experiência, o que força a língua a mudar para poder continuar dando conta da realidade natural e social e servindo de instrumento da comunicação e do pensamento.

Dialeticamente, a língua muda para conservar-se e só se conserva na medida em que muda. Da mesma maneira como uma casa somente se conserva através do tempo na medida em que passe por periódicas reformas, a língua precisa adaptar-se constantemente às necessidades comunicativas da comunidade falante. Se não mudasse, isto é, se não se adaptasse a uma realidade social sempre nova, em pouco tempo a língua estaria totalmente divorciada da sociedade a que deveria servir. Nesse sentido, podemos dizer que a língua evolui porque funciona e funciona porque evolui: é o uso da linguagem que produz sua mudança e é esse permanente mudar que garante a continuidade de seu funcionamento.

Segundo o lingüista suíço Ferdinand de Saussure, considerado o pai da lingüística moderna, a língua possui duas características aparentemente contraditórias entre si: a imutabilidade e a mutabilidade. Para ele, a língua é dada aos falantes como uma realidade que nenhum indivíduo pode transformar por sua própria vontade; a língua é fruto de uma convenção social, e mudá-la exigiria o consenso social. Além disso, a língua é uma instituição herdada de gerações anteriores e não um contrato firmado entre os falantes no presente. Saussure insiste na arbitrariedade do signo lingüístico como uma escolha e, ao mesmo tempo, uma coerção. Por outro lado, a mutabilidade do signo — e, portanto, da língua — está ligada à própria inconsciência que os falantes têm das leis que regem o sistema lingüístico, assim como à própria tensão existente entre a língua enquanto bem social e os atos de fala individuais, com seu caráter particular e transitório.

Mas, se a língua é, conforme foi dito anteriormente, produtora e produto da cultura, a diversidade cultural em todos os seus aspectos é causa da diversidade lingüística. Além da mudança temporal, decorrente da evolução histórica, há também a diversidade geográfica, em que os diferentes habitats condicionam diferentes formas de cultura. Assim, a separação dos grupamentos humanos no tempo e no espaço é causa de sua diferenciação. Mais ainda, nas sociedades complexas, marcadas pela heterogeneidade social, como é o caso das modernas sociedades industriais e pós-industriais, em que a organização política e econômica e o domínio das técnicas conduziu à estratificação das populações e à especialização das práticas, a classe social, o grupo profissional e a própria situação de comunicação levam à diferenciação. Podemos, então, inferir quatro fatores principais responsáveis pela mudança lingüística: o tempo histórico, o espaço geofísico, a diferença das classes sociais e a variedade dos universos de discurso, entendidos estes como os diferentes ambientes sociais, ligados às diversas práticas profissionais, religiosas, recreativas, culturais, etc. que condicionam diferentes formas de expressão do pensamento e se caracterizam por diferentes estilos de escolha vocabular e sintática, como é o caso dos universos de discurso científico, político, jurídico, jornalístico, publicitário, dos jargões e das gírias específicas de cada profissão e de cada grupo social (os médicos, os economistas, os surfistas, por exemplo).

Na mudança histórica, o aspecto que mais chama a atenção é a mutação fonética. A alteração da pronúncia ao longo do tempo pode, muitas, vezes, ser mascarada pela grafia: o português cozer era pronunciado na Idade Média como codzer, distinguindo-se perfeitamente de seu hoje homófono coser. Como se vê, uma mudança de pronúncia pode implicar em mudança no sistema de sons distintivos da língua, ou fonemas, através do acréscimo, supressão ou reorganização das relações entre as unidades pertinentes. Uma mudança ao nível dos fonemas pode, por sua vez, acarretar alterações em paradigmas morfológicos, como, por exemplo, no caso da flexão de número em latim. No latim arcaico, o plural de domos, “casa”, era domoi. Assim, depreendiam-se claramente um radical dom , uma vogal temática o e as desinências do singular e do plural s e i, respectivamente. A evolução de domos para domus e de domoi para domi levou à oposição entre as terminações us e i, consideradas estas como unidades irredutíveis.

Freqüentemente, a mudança histórica se dá não apenas ao nível fonético, mas também ao nível do significado. É assim que muitas palavras, independentemente da conservação ou mutação de sua forma fonética e/ou gráfica, adquirem com o tempo novos significados, podendo manter ou não os antigos. Finalmente, novas unidades léxicas se introduzem na língua, fruto de criação interna ou de empréstimo, enquanto outras caem em desuso e desaparecem.

A mudança espacial é resultado da diferente evolução temporal da língua em comunidades lingüísticas separadas geograficamente. A distância geográfica, responsável pela falta de comunicação entre dois grupos de falantes de uma mesma língua, produz em cada um dos grupos uma evolução histórica independente, que, a longo prazo, poderá redundar até na não intercompreensão entre os grupos. As migrações humanas também são outro fator que conspira a favor da mudança espacial. Ocorre, assim, o fenômeno da dialetação, que pode, com o tempo, conduzir ao aparecimento de novas línguas.

A separação entre classes sociais, tanto do ponto de vista físico quanto em termos do modo de vida, faz com que indivíduos pertencentes a classes sociais distintas se expressem de formas diferentes e reproduzam visões de mundo parcialmente diversas. Surgem, assim, os diferentes socioletos, ou normas lingüísticas particulares de cada classe social. Finalmente, os diferentes grupos sociais (grupos profissionais, religiosos, etários, etc.) existentes numa sociedade complexa tendem a produzir discursos privativos desses grupos. Temos aí os vários idioletos e tecnoletos de uma sociedade.

A análise científica do fenômeno da mudança lingüística em função dos fatores acima abordados pode-se dar centrando-se o foco da atenção num estado de língua isolado ou na comparação entre dois ou mais estados de língua. Assim, por exemplo, em relação à mudança temporal, é possível fazer uma análise da língua num momento dado de sua evolução ou confrontar dois diferentes momentos dessa evolução com vistas a verificar que elementos ou relações se mantiveram ou mudaram.

Do mesmo modo, pode-se estudar uma determinada variedade dialetal isoladamente ou confrontar diferentes variedades dialetais, tentando inclusive mapear as fronteiras entre os territórios lingüísticos, assim como podemos estudar a linguagem de uma determinada classe social ou fazer uma comparação entre os usos da língua por diferentes classes sociais. Podemos, por fim, analisar um universo de discurso específico, reconhecendo suas características próprias, ou comparar essas características àquelas de outros universos de discurso.

Além dessas oito possibilidades de análise, podemos também realizar uma fusão e integração das análises individual e comparativa. No caso da mudança temporal, podemos não apenas descrever e confrontar duas etapas históricas distintas da língua, mas podemos também compreender como as relações internas entre os elementos do sistema no estado 1, responsáveis por seu funcionamento eficaz naquele dado momento, conduziram justamente ao estado 2, integrando, assim, dialeticamente, evolução histórica e funcionamento num único e mesmo processo.

Da mesma forma, podemos analisar um dialeto isoladamente, compará-lo a outros dialetos, ou, ainda, analisar globalmente as mudanças espaciais. Podemos, igualmente, fazer estudos globais das mudanças devidas à classe social e ao universo de discurso. Essa tendência à visão global do fenômeno da mudança lingüística é que norteia, atualmente, a maioria dos estudos científicos da linguagem, o que mostra que, hoje, ao contrário da segmentação e da visão parcial do objeto de estudo que tínhamos até um passado relativamente recente, a lingüística atual opta por uma análise global desse objeto, com o concurso de um ponto de vista dinâmico, isto é, dialético.

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