Artigos de Divulgação |
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REPENSANDO O ENSINO DE LITERATURA |
(Publicado na Folha de São Paulo, 10 de julho
de 2000, p. A3)
Como
todos sabem, o ensino de literatura portuguesa e brasileira faz parte
do currículo escolar de primeiro e segundo graus e o conhecimento
dessas literaturas é exigido na maioria dos concursos vestibulares.
A justificativa para o ensino dessas disciplinas é a necessidade
de nossos jovens tomarem contato com a literatura e, assim, com a
língua portuguesa escrita em sua mais alta expressão.
Em suma, o conhecimento literário faz parte da formação
geral e humanística que se espera de qualquer cidadão
escolarizado.
No entanto, o ensino de literatura nas escolas tem-se restringido,
as mais das vezes, à história da literatura brasileira
e portuguesa, exigindo do aluno, por exemplo, que decore o fato de
que o início do romantismo no Brasil se deu com a publicação,
em 1836, de Suspiros Poéticos e Saudades, de Gonçalves
de Magalhães, ou que o barroco se caracterizava, dentre outras
coisas, pelo teocentrismo. Paralelamente, exige-se a leitura de alguns
livros enfadonhos, como, por exemplo, os de José de Alencar,
que não servem, atualmente, como modelo nem de estilo literário
nem de uso lingüístico do português.
Ora, a literatura é uma arte como qualquer outra, como a música,
a pintura, a escultura, o teatro… Entretanto, o ensino de educação
artística nas escolas não se restringe à história
da arte, mas, antes, procura incentivar a criatividade dos alunos
através da elaboração de trabalhos manuais. Igualmente,
o ensino de música (nas escolas onde ele existe) não
objetiva fazer os alunos saberem em que ano nasceu Beethoven, mas
sim transmitir a eles os rudimentos de teoria musical e de prática
de algum instrumento. Note-se que nem o conhecimento de música
nem o de artes é exigido nos vestibulares (exceto, é
claro, para as carreiras de música e de artes plásticas).
Assim, se o conhecimento das outras artes não é pré-requisito
para a maioria das carreiras universitárias, por que o de literatura
o é? A meu ver, o conhecimento literário só deveria
ser exigido aos candidatos ao curso de letras (mesmo assim, se um
estudante universitário de inglês só estuda a
literatura dessa língua na faculdade, não seria o caso
de um estudante de português aprofundar-se na história
das literaturas de língua portuguesa também na faculdade,
ao invés de fazê-lo no colégio?).
Se o objetivo do ensino de literatura na escola média é
estimular no aluno o hábito da leitura, então por que,
ao invés de obrigá-lo a ler obras de ficção
de séculos passados, não se propõe a ele a leitura
de obras importantes de não-ficção da atualidade,
como os livros de Sérgio Buarque de Hollanda e Milton Santos,
por sinal muito bem escritos, ou os de Carl Sagan, que possuem, aliás,
excelentes traduções em português? Será
que o estudo de obras, nacionais ou estrangeiras, que tratam de questões
reais do mundo contemporâneo, como a globalização
e a poluição, por exemplo, não é mais
relevante que o estudo de obras ficcionais?
No meu entender, o conhecimento de literatura não é
mais importante do que o de outras formas de manifestação
artística, nem deveria ser privilegiado em detrimento das demais
artes. Além disso, em termos culturais a literatura universal,
com Dante, Goethe, Rousseau, Dickens e Joyce, dentre outros, é
tão importante quanto a literatura de língua portuguesa.
Por outro lado, a literatura é um dos produtos da língua,
mas não o único nem o mais importante (parece-me que
a principal função da linguagem é permitir a
comunicação pragmática entre os seres humanos
e não produzir literatura). Assim, por que a leitura dos estudantes
deve se dar apenas sobre a literatura de ficção e não
sobre jornais, revistas e livros de não-ficção?
E por que os exames vestibulares não exigem dos candidatos
à universidade cada vez mais o domínio de uma cultura
geral, indispensável a qualquer profissional de nível
superior, em lugar de cobrar deles apenas o conhecimento histórico
da literatura portuguesa e brasileira?