Artigos de Divulgação |
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O DILEMA DO ENSINO SUPERIOR |
Não
é nenhuma novidade que o nível de qualidade do ensino
básico no Brasil é baixíssimo, notadamente nas
escolas públicas. Devido a anos de descaso das autoridades
com a educação, somados a certas políticas demagógicas
como a extinção da reprovação nas escolas
de primeiro grau, hoje os alunos egressos da escola pública
terminam o segundo grau com uma série de deficiências
de formação, e é nessas condições
que muitos ingressam na faculdade.
Por outro lado, o Ministério da Educação exige
dos cursos superiores o cumprimento de conteúdos programáticos
que pressupõem uma bagagem de conhecimentos prévios
e uma formação geral que os alunos não têm.
Em face desse quadro, os professores e coordenadores de cursos superiores
se vêem diante de um dilema: como ministrar aos alunos conteúdos
de nível superior e conseqüentemente formar bons profissionais
quando esses alunos não sabem o básico? Não é
de surpreender que encontremos alunos de cursos de ciências
exatas que não sabem resolver uma equação de
segundo grau e alunos de todas as áreas que mal sabem escrever.
Pois bem, o que fazer diante desse quadro, que afeta tanto as universidades
públicas quanto as particulares, estas últimas com mais
intensidade? Evidentemente não compete à universidade
fornecer ao aluno todo o conhecimento que ele não adquiriu
ao longo do ensino básico, nem é possível ensinar
em um ou dois semestres o que o aluno não aprendeu em onze
anos ou mais. Nas universidades privadas, a situação
é ainda mais grave, pois é para elas que vão
os alunos menos preparados, já que os estudantes de melhor
nível cultural acabam preenchendo as disputadíssimas
vagas das universidades públicas. Além disso, as universidades
privadas dependem das mensalidades de seus alunos para manter-se e,
por essa razão, não podem dar-se ao luxo de dispensar
candidatos menos qualificados. Se aplicam um processo seletivo muito
rigoroso, correm o risco de não conseguir preencher todas as
vagas e com isso tornar-se deficitárias. Se tentam compensar
esse déficit de receita através do aumento das mensalidades,
afugentam ainda mais alunos. Por outro lado, aceitando receber alunos
despreparados, essas universidades vivem um novo dilema: ou assumem
o risco de cumprir rigorosamente os programas preconizados pelo MEC,
oferecendo cursos de alto nível que poucos alunos conseguirão
cursar até o fim, ou baixam o nível dos cursos, com
isso permitindo que alunos com sérias falhas de formação
consigam um diploma de nível superior sem ter adquirido a competência
necessária. Em outras palavras, se os professores desses cursos
forem muito exigentes em suas avaliações, irão
reprovar a maior parte dos alunos e com isso provocar uma grande evasão
escolar ao longo do curso; se fizerem vista grossa às deficiências
de seus alunos, estarão contribuindo para lançar no
mercado de trabalho profissionais incompetentes, que acabarão
sendo retidos na “peneira” do próprio mercado e
acabarão condenados ao desemprego. Enquanto isso, o MEC pune
com a ameaça de fechamento tanto os cursos que apresentam grande
evasão escolar quanto aqueles que apresentam baixo desempenho
no “Provão”. Em resumo, se correr o bicho pega,
se ficar… Parece que o MEC exige que o Brasil tenha cursos superiores
de Primeiro Mundo enquanto têm cursos básicos de Quarto
Mundo. É preciso que tenhamos consciência de que esse
quadro caótico da educação no Brasil é
responsável, em parte, pelo aumento da exclusão social,
e conseqüentemente da miséria, da fome e da violência,
pelo aumento do desemprego (no Brasil, não faltam postos de
trabalho, faltam profissionais qualificados para ocupá-los)
e pelo aumento do nível de alienação dos cidadãos
brasileiros, o que só contribui para a manutenção
no poder dessa mesma classe política que é a grande
responsável pelo descaso com a educação a que
temos assistido.
Como professor universitário que tem procurado ao mesmo tempo
oferecer aos alunos o máximo de conhecimento superior de qualidade
e sanar na medida do possível suas deficiências de formação,
sinto-me numa encruzilhada e confesso que não tenho soluções
de curto prazo a oferecer. A única saída — de
longo prazo —, se esperamos que o Brasil tenha algum futuro,
é investir urgentemente no ensino básico.