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O grupo musical mineiro 14 Bis, formado por Sérgio Magrão, Vermelho, Heli Rodrigues e pelos irmãos Cláudio e Flávio Venturini (que deixou o grupo em 1987 para seguir carreira solo), pode ser considerado o braço pop do chamado Clube da Esquina, o já lendário movimento musical mineiro que se organizou na década de 70 em torno de Milton Nascimento. O 14 Bis não é, no entanto, uma banda de rock ortodoxa; na verdade, eles inauguraram uma tendência nova na música popular brasileira ao unir o rock e o pop, sobretudo sob a influência dos Beatles, a elementos típicos da MPB, especialmente as toadas, tão características da música mineira. A principal importância do grupo se deve ao fato de essa fusão de rock e MPB ter permitido a transição da música popular brasileira dos anos 70, herdeira da bossa nova, ao rock brasileiro dos anos 80. Histórico O
14 Bis surge em 1979 da reunião de músicos provenientes
de dois outros grupos: O Terço (Flávio Venturini e Magrão),
voltado para o rock progressivo, e Bendegó (Vermelho e Heli),
de tendência ao rock rural, mais Cláudio Venturini, irmão
mais novo de Flávio. Este conhece Vermelho (cujo apelido deriva
do tom ruivo de seus cabelos) ainda em 1968, quando ambos serviram
o exército. A descoberta de afinidades foi imediata e daí
surgiria uma fecunda parceria. A partir do circuito de bailes de Belo
Horizonte e dos festivais estudantis de música do final dos
anos 60, a dupla travou contato com alguns nomes que posteriormente
viriam a se tornar expoentes da música mineira: Beto Guedes,
Lô Borges, Toninho Horta, Tavinho Moura, Túlio Mourão
e outros. Já nesse período, Flávio e Heli tocam
juntos em alguns conjuntos de rock de âmbito doméstico.
Em 1973, Flávio e Vermelho participam como instrumentistas
e arranjadores do primeiro LP de Lô Borges, conhecido como “o
disco do tênis” por ter na capa a foto de um par de tênis.
No mesmo ano, participam também de um álbum que reuniu
Beto Guedes, Toninho Horta, Novelli e Danilo Caymmi. A partir daí,
Flávio vai integrar o grupo O Terço, onde conhece o
baixista Sérgio Magrão, e Vermelho e Heli partem para
o Bendegó. Influências barrocas no som do 14 Bis Se
o 14 Bis já é um grupo musical original por conta da
fusão rock/pop/MPB, ele apresenta ainda uma outra característica
inovadora no cenário da música popular brasileira: o
resgate de elementos do barroco, estilo artístico que tanto
marcou a história de Minas Gerais. Uma das características
mais marcantes da música barroca é o contraponto, isto
é, a superposição de duas ou mais melodias que
reproduzem um determinado tema. Nesse sentido, a música barroca
é uma música “polifônica”. O 14 Bis
tem como traço vocal característico a harmonização
polifônica das vozes, o que constituiu uma novidade em termos
do rock brasileiro, cujos grupos, em sua maioria, até hoje
ainda cantam em uníssono. Mais ainda, a marca registrada do
14 Bis é o seu vocal de falsete, recurso até então
muito pouco explorado na MPB, o qual remete, sem dúvida, ao
vocal dos castrati, cantores de ópera dos séculos
XVII e XVIII que, por terem sofrido ablação dos testículos,
conservavam uma voz aguda e infantil mesmo depois de adultos. Assim,
o vocal do grupo lembra muito um coral infantil, típico das
cantatas e oratórios barrocos. Conclusão O 14 Bis representou nos anos 80 muito mais do que um simples grupo de rock destinado a adolescentes, como tantos outros da época. Sua música nunca se prendeu a modismos, e isso explica por que, passada a onda do rock nacional, o grupo continuou a fazer sucesso. O alto grau de elaboração formal das músicas, mesmo que sob a roupagem ingênua da música popular, faz com que os fãs da banda sejam em geral pessoas de gosto musical apurado, apreciadoras de boa música. Mas sobretudo a fantástica fusão da universalidade, representada pela linguagem do rock e do pop, com a mineiridade, da qual faz parte, sem dúvida, a herança barroca, deu ao 14 Bis seu caráter extremamente original e mostra por que a música popular é um campo fértil de estudos, que deveria ser levado mais a sério pela nossa cultura acadêmica. |
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