Artigos de Divulgação
 
  O CLÁSSICO E O MODERNO, O ERUDITO E O POPULAR NA ARTE 

(Publicado em Líbero, ano 2, n.º 1, 1999)

Classicismo x modernidade

O século XX marcou, no domínio das artes, a supremacia de duas realidades oriundas de rupturas históricas: de um lado, o fenômeno da arte moderna enquanto transgressão e superação dos cânones estéticos aceitos por nossa civilização desde a Antigüidade Clássica; de outro, o fenômeno da cultura de massa, decorrente do impacto das novas tecnologias sobre os meios de comunicação. Hoje, com a consolidação das conquistas da arte moderna e com o triunfo da cultura de massa, as dicotomias clássico x moderno e erudito x popular se impõem mais do que nunca.

Na verdade, a cultura ocidental sempre oscilou entre duas grandes dicotomias: a herança clássica, sobretudo greco-romana, em oposição à idéia de modernidade, e a cultura erudita, praticada pela e para a aristocracia, por oposição à cultura popular, de caráter vulgar e plebeu. A primeira dessas dicotomias se coloca, ainda no Renascimento, na forma de um questionamento por parte da classe intelectual, à qual pertenciam artistas, filósofos, pensadores e críticos, quanto ao próprio rumo da cultura européia, recém-saída das brumas da Idade Média. Uma vez rejeitada a ideologia medieval – e suas implicações nas artes –, havia agora dois caminhos a seguir: ou o retorno aos padrões estéticos e filosóficos da Antigüidade Clássica, ou a criação de uma cultura totalmente nova, a partir do nada. Os intelectuais e criadores dos séculos XV e XVI optaram, como se sabe, pelo primeiro caminho.

Assim, se a Idade Média se defrontou com o conflito entre a cultura antiga e os valores judaico-cristãos a ela superpostos, procurando adaptar a filosofia aristotélica aos ditames ideológicos do cristianismo – donde o surgimento da escolástica –, agora o Renascimento vinha sobrepor a cultura antiga aos valores ocidentais originários da Idade Média. Contraditoriamente, o termo Renascimento, aplicado ao movimento artístico e cultural desse período, procurava aludir a um verdadeiro renascer da cultura greco-romana ao mesmo tempo em que a nova fase histórica que ali começava era denominada pelos historiadores como Idade Moderna. Assim, a modernidade era, de fato, a ressurreição da Antigüidade. A consciência da falta de uma identidade legítima para essa cultura que se intitulava “moderna” levou mesmo a embates radicais, como a Querela dos Antigos e dos Modernos, que agitou o cenário literário francês nos séculos XVII e XVIII.

Cultura erudita x cultura popular

Por outro lado, a oposição entre uma cultura erudita ou aristocrática e uma cultura popular ou plebéia permeia toda a história ocidental. Na verdade, o próprio conceito de História está ligado ao do conflito de classes (daí ter Marx proposto que a construção de uma sociedade sem classes, a sociedade socialista, marcaria o fim da História). Assim, a história cultural tem sido marcada desde sempre por essa divisão entre a cultura da elite, considerada, aliás, por muito tempo como a única forma possível de cultura, e a cultura do povo, na verdade vista pela aristocracia dominante como a não-cultura, isto é, como a ausência completa de civilização. Na Roma antiga, essa oposição ficava clara principalmente na literatura e no teatro, em que a língua utilizada pelos escritores para tratar de assuntos nobres e elevados era a língua culta, deixado o sermo vulgaris apenas para o estilo “baixo” da comédia popular. De um modo mais geral, opunha-se a “grande arte”, destinada ao usufruto da aristocracia e, posteriormente, da alta burguesia, ao artesanato e aos folguedos populares, de origem camponesa, vistos sempre como manifestações rudes e toscas de um populacho rude e tosco.

O esgotamento da cultura de inspiração clássica em fins do século XIX, contemporânea da derrocada da nobreza européia e do esfacelamento das últimas monarquias, bem como do advento da civilização industrial e pós-industrial, que tornou a própria arte reproduzível, levou os artistas a proclamarem uma revolução estética que se inicia com a pintura impressionista e que deságua na pluralidade de tendências estéticas que marcou o século XX – os famosos ismos. Com isso, estabelece-se um novo conceito de arte moderna, entendida agora como a arte nascida das vanguardas do início do século XX, por oposição à arte praticada até o século XIX, chamada comumente de arte acadêmica, por ser aquela que se ensinava nas academias de belas-artes.

Indústria cultural e cultura de massa

O advento dos meios de comunicação de massa (cinema, rádio, televisão), decorrente do desenvolvimento tecnológico que permitiu a reprodução em larga escala dos bens culturais (surgimento da fotografia, do fonógrafo, etc.), deu origem à chamada indústria cultural e à cultura de massa. De um modo geral, a cultura que se expandiu através dessas novas mídias foi a cultura popular e não a erudita. Desse modo, o século XX assistiu ao cruzamento das resultantes de duas tensões dialéticas: a cultura moderna e a cultura popular. Por isso, às vezes, as dicotomias clássico/moderno e erudito/popular se confundem: o termo clássico às vezes equivale pura e simplesmente a antigo, tradicional, acadêmico, e às vezes se refere à esfera de cultura erudita (por exemplo, a oposição ainda corrente hoje em dia entre música clássica e música popular de um lado, e entre balé clássico e balé moderno de outro), mas, na verdade, trata-se de oposições diferentes, pois a dicotomia clássico/moderno representa uma oposição fundamentalmente cronológica, ao passo que a dicotomia erudito/popular é de caráter sobretudo sociológico.

A oposição dialética entre tradição e modernidade, vale dizer, entre conservação e mudança, dá origem aos conceitos de vanguarda, arte-padrão e academicismo. Este último caracteriza-se pelo apego fiel à tradição, sem nenhum aspecto de inovação; a vanguarda representa a ruptura com a tradição, a imposição do novo sobre o velho; a arte-padrão é a conciliação entre inovação e tradição, a convivência do novo com o antigo. Assim, toda inovação artística começa por uma ruptura com a tradição, por uma negação dos cânones vigentes. Uma vez sendo aceita socialmente, essa forma de arte inicialmente vanguardista passa a ser o padrão estético, isto é, o novo status quo. À medida que novas rupturas sejam feitas, por meio de novos movimentos de vanguarda, a arte-padrão tende progressivamente a tornar-se conservadora e a ser vista como arcaica. Esse é o ciclo dinâmico das modas estéticas que se sucedem no tempo.

Já a oposição dialética entre elite e massa produz os conceitos de arte erudita (aquela que atende o gosto da elite), arte popular (a que representa o gosto da massa) e arte eclética (que concilia ambos os gostos). Segundo o princípio formulado pela teoria da comunicação de que quanto maior for o repertório menor será a audiência (isto é, quanto mais rica a mensagem, menor o número de pessoas capazes de decodificá-la corretamente), a arte de vanguarda costuma ser uma arte elitista, já que propõe basicamente um alargamento do repertório artístico. À medida que o novo código de leitura das obras de arte estabelecido por essa vanguarda se dissemina socialmente, permitindo que mais e mais pessoas sejam capazes de decifrá-lo, a audiência, isto é, o público desse tipo de arte, também se alarga, consubstanciando a popularização da nova estética. Entretanto, certas formas extremamente conservadoras de arte são igualmente elitistas. Nesse sentido, tanto a vanguarda absoluta quanto o academicismo absoluto tendem a ter pouco público.

Quando os meios de comunicação de massa e a indústria cultural se consolidaram, tornando-se uma realidade incontestável, foi justamente a cultura popular a que mais se beneficiou do novo processo. Na música, por exemplo, foi o jazz, nos Estados Unidos do início dos anos 20, e não a música sinfônica, o gênero musical mais difundido pela indústria fonográfica e pelo rádio, então emergentes. Assim, a cultura moderna, nascida sob o signo da produção industrial, confundiu-se pouco a pouco com a cultura popular. Se quisermos descrever às futuras gerações o que foi a música do século XX, devemos assinalar sobretudo a música popular como a representante legítima de nossa cultura. De fato, se é verdade que a música sinfônica continuou a ser produzida no século XX e teve mesmo alguns representantes de importância indiscutível, como Stravinsky e Villa-Lobos, ninguém pode negar que o fenômeno realmente representativo em termos musicais deste século foi o advento do jazz, do rock e do pop, além, é claro, dos ritmos latino-americanos (samba, tango, bolero, etc.). Até o século XIX, a música popular restringia-se àquilo que hoje chamamos de música folclórica: no Brasil, o lundu, a modinha, o maxixe, etc. Quem quiser conhecer a “verdadeira” música do século XIX deve ouvir Beethoven, Wagner ou Tchaikovsky. Mas quem quiser conhecer a “verdadeira” música do século XX não pode ignorar os Beatles ou Frank Sinatra.

Sobretudo no campo da música, a arte popular ocupou o espaço antes reservado à arte erudita. Até o século passado, gêneros musicais como a missa e a ópera pertenciam ao domínio da música erudita (tomem-se a Missa Solemnis, de Mozart, e a ópera Aída, de Verdi); hoje, pertencem ao domínio da música popular (por exemplo, a Missa dos Quilombos, de Milton Nascimento e a ópera-rock Evita). Com isso, a música sinfônica do século XX, embora original, foi relegada a um plano secundário, a uma posição marginal. As conquistas harmônicas da música dodecafônica de Arnold Schönberg jamais chegaram ao grande público e permanecem até hoje restritas aos estudiosos da teoria musical.

Por outro lado, a cultura popular que logo se generalizou pareceu, num primeiro momento, operar uma verdadeira democratização da cultura. Se, tradicionalmente, a arte erudita é aquela consumida pela elite cultural e econômica e a arte popular, aquela consumida pelas classes mais baixas da sociedade, então o fenômeno da cultura de massa havia feito tanto ricos quanto pobres, tanto a elite cultural quanto o proletariado ouvir o mesmo tipo de música: Glenn Miller ou Louis Armstrong eram apreciados tanto nas classes mais altas quanto nas mais baixas. Porém, com o tempo, e na medida em que o conflito de classes não foi superado pela moderna sociedade capitalista (talvez tenha-se até mesmo agravado), essa cultura popular universal, que pretendia unificar o gosto artístico sob a égide do modelo de massas, logo se cindiu em duas: surgia uma música popular mais elitizada e outra mais vulgarizada. A própria cultura popular, que destronara a cultura erudita, reproduzia agora em seu próprio seio a mesma interminável luta de classes.

A emergência da cultura de massa provocou acirrada polêmica nos meios intelectuais, formados basicamente por membros da burguesia acostumados à cultura acadêmica e erudita. É nesse contexto que os pensadores da Escola de Frankfurt – dentre os quais Marcuse, Horkheimer e Adorno – vão delinear uma concepção estética de arte frontalmente contrária à cultura de massa, numa atitude abertamente conservadora, que denuncia a cultura das massas e a indústria cultural como alienantes. Diz Marcuse em A dimensão estética: " Em virtude de sua forma estética, a arte é absolutamente autônoma perante as relações sociais existentes. Na sua autonomia, a arte não só contesta estas relações como, ao mesmo tempo, as transcende. Deste modo, a arte subverte a consciência dominante, a experiência ordinária."

Umberto Eco assume uma perspectiva diversa ao afirmar em Apocalípticos e integrados que "[…] o universo das comunicações de massa é – reconheçamo-lo ou não – o nosso universo; e se quisermos falar de valores, as condições objetivas das comunicações são aquelas fornecidas pela existência dos jornais, do rádio, da televisão, da música reproduzida e reproduzível, das novas formas de comunicação visual e auditiva. Ninguém foge a essas condições, nem mesmo o virtuoso […]"

Conforme diz Maria Lúcia B. C. de Paula (Nem apocalípticos nem integrados: perspectivas da arte no final do século XX. Cultura Vozes, maio-junho de 1996, p. 118-119): "Embora no âmbito da arte os limites entre a cultura erudita e a cultura de massa fossem ficando cada vez mais confusos, no domínio da produção teórica estas esferas ainda se preservavam distintas e separadas. […] O clima nos últimos anos do milênio é outro. As fronteiras estão definitivamente borradas, com a cultura de massa invadindo cada vez mais domínios até então exclusivos da alta cultura, como por exemplo os museus de arte."

O erudito e o popular hoje

No presente, é difícil definir o que é erudito ou popular. Antigamente, como dissemos, a arte erudita era aquela consumida pela elite econômica e cultural, e vale a pena ressaltar que, até o século XIX, a elite econômica e a cultural coincidiam. Atualmente, é curioso notar artistas extremamente populares – até mesmo popularescos – ocupando grandes casas de espetáculos e cobrando ingressos mais caros do que a maioria dos artistas mais elitizados, circunscritos em geral aos pequenos espaços culturais. O que percebemos é que, enquanto a cultura erudita tradicional – a música de concerto, o balé clássico, a pintura acadêmica, etc. – marginalizou-se e tornou-se fenômeno social pouco significativo, a cultura popular preencheu sozinha o espaço social, atingindo todas as classes. No entanto, se hoje toda a arte tem raízes populares, não deixa de haver uma estratificação social da arte, e não apenas em termos da oposição elite x massa, mas em termos de uma gradação que vai do mais erudito ao mais vulgar.

Retomando o exemplo da música, notamos que a corrente erudita se diluiu, sobretudo a partir da segunda metade do século XX, de tal modo que compositores como Karlheinz Stockhausen e John Cage já não podem mais ser classificados quer como eruditos (isto é, sinfônicos) quer como populares; por outro lado, nota-se que tais compositores permanecem mais eruditos do que Egberto Gismonti, o qual é mais erudito do que Tom Jobim, que é mais erudito que Roberto Carlos, e assim por diante. De uma parte, o índice de popularidade cresce proporcionalmente ao tamanho do público atingido; de outra parte, decresce proporcionalmente ao aumento do nível cultural desse público. Identificam-se, assim, dois eixos ao longo dos quais a música – e a arte em geral – se situa: um eixo que vai da máxima elitização à máxima massificação, e um eixo que vai da tradição mais conservadora à vanguarda mais revolucionária. Nesse sentido, podemos dizer que tanto Paulinho da Viola quanto Zeca Pagodinho produzem uma arte conservadora, no caso o samba tradicional, mas aquele tem um público mais elitizado (isto é, ao mesmo tempo menor e mais culto) do que este último. A obra de Milton Nascimento é, sem dúvida, mais conservadora que a de Arrigo Barnabé e mais inovadora que a de Noel Rosa ou Beethoven. Por outro lado, é mais popular que a de Villa-Lobos ou Miles Davis, mas mais erudita que a de Amado Batista. Além disso, sua produção musical nos anos 60 e 70 era mais vanguardista do que sua produção a partir dos anos 80, que se mostra mais conservadora em termos formais, mais popular na fórmula estética e, portanto, mais linear.

Muitas vezes, vanguarda e tradição se interpenetram na produção artística. De um lado, a vanguarda utiliza elementos tomados à tradição para dar-lhes um novo papel significativo, dentro de um novo contexto. Desse modo, o rock progressivo representou uma inovação dentro do contexto do rock’n’roll ao assimilar elementos da música sinfônica, chegando até o desenvolvimento do chamado rock sinfônico de Rick Wakeman. Da mesma forma, a pintura surrealista aliou uma temática revolucionária (o onirismo e o nonsense) a uma técnica pictórica acadêmica, assim como a pop art incorporou ícones da arte acadêmica (por exemplo, a imagem da Gioconda) em colagens irreverentes. De outro lado, temos exemplos de arte tradicional que utiliza elementos de vanguarda. É o caso da pintura de Hieronymus Bosch, que em pleno século XV foi um precursor do surrealismo.

Também o erudito e o popular se mesclam muitas vezes na elaboração de um novo paradigma estético. De um lado, temos a música de Bach ou de Villa-Lobos, que incorporaram elementos populares para produzir um resultado erudito. De outro, temos o já citado rock progressivo, que assimila elementos eruditos para produzir um resultado popular. Essa mescla de erudito e popular, tradicional e inovador, leva a uma arte híbrida, difícil de ser classificada. Por exemplo, a música new age é erudita ou popular? E o free jazz, gênero de origem negra de complexidade melódica, harmônica e rítmica superior à da música de concerto, e que chegou mesmo a influenciar certos compositores sinfônicos? E os arranjos do tipo muzak, como Ray Conniff e Lawrence Welk, em que canções populares são transformadas em peças orquestrais com arranjo sinfônico? E Luciano Pavarotti cantando música popular?

Conclusão

A arte atual em geral, e a música em particular, fundiu a idéia de vanguarda à de raízes populares. A arte dos dias de hoje é moderna e popular ao mesmo tempo. Por outro lado, no dizer de Ezra Pound, “clássico é o que é moderno em qualquer época”. Portanto, toda arte que sobrevive à sua época se torna clássica. Nesse sentido, a oposição clássico x moderno remete a uma outra, moderno x eterno. Para Octavio Paz (apud Maria Lúcia B. C. de Paula), o homem clássico, sabendo-se mortal, propunha uma arte eterna. Já o artista moderno, ciente da historicidade, e portanto da efemeridade da arte, dedica-se ao exercício de sua temporalidade. Além disso, devemos lembrar que os conceitos de clássico, moderno, erudito e popular variam conforme a época (as valsas de Strauss, que eram modernas e populares em seu tempo, hoje são clássicas e eruditas). As trilhas sonoras instrumentais e músicas incidentais de filmes, peças de teatro e balés, que até a década de 50 pertenciam normalmente à música sinfônica (por exemplo, o tema de E o Vento Levou), são hoje domínio quase exclusivo da música popular. Finalmente, é preciso lembrar que, a partir dos anos 50, com a explosão do movimento jovem, as oposições culturais clássico/moderno e erudito/popular deram lugar à dicotomia cultura jovem x cultura adulta.

Nessa nova perspectiva, o jazz tradicional de Louis Armstrong e Frank Sinatra passou a representar o antigo, o clássico, por oposição à música e à cultura modernas, surgidas do movimento jovem (Elvis Presley, os Beatles, o movimento hippie). De outra parte, hoje, passados mais de 40 anos do surgimento do rock e da explosão do movimento jovem e da cultura pop, com sua rebeldia característica, já se começa a notar um fenômeno interessante: se até aproximadamente os anos 70 o rock era a música jovem por excelência (aqui no Brasil, além do rock procedente dos países de língua inglesa, a juventude – sobretudo a mais politizada – também ouvia o rock e o pop nacionais, representados primeiramente pela jovem guarda, e a seguir pela Tropicália e seus sucessores), enquanto os mais velhos preferiam o jazz tradicional e, no caso do Brasil, a música popular pré-bossa nova, a partir dos anos 80 já começam a surgir pais que foram adolescentes nas décadas de 50 e 60 e cresceram ouvindo rock e bossa nova; hoje, esses pais têm filhos que também escutam rock e a MPB moderna. Assim, o que temos hoje em dia é uma geração de jovens que apreciam o mesmo gênero de música que seus pais.

Em outras palavras, o conflito de gerações, que no início do século XX opunha a música de concerto à musica popular (o jazz e o samba tradicionais), que em meados desse século opunha o jazz e o samba tradicionais ao rock e à bossa nova, hoje se dá de forma mais sutil, dentro do próprio quadro do rock e da MPB pós-bossa nova e pós-tropicalismo: a diferença de gosto musical entre pais e filhos não é mais uma diferença de estéticas, mas sim uma diferença de estilos dentro de uma mesma estética (Beatles, Rolling Stones e Raul Seixas x Oasis, Alanis Morrisette e Paralamas do Sucesso; Caetano Veloso e Chico Buarque x Chico César, Carlinhos Brown e assim por diante). Aliás, é comum hoje em dia encontrarmos tanto pais quanto filhos “curtindo” Chico Buarque ou Raul Seixas, o que demonstra que o padrão estético nascido da cultura jovem e rebelde dos anos 50 e 60 está se tornando – se é que já não se tornou – o mainstream em matéria de música.

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