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O QUE É ARTE |
O
que a alma faz por seu corpo o artista faz por seu povo.
GABRIELA MISTRAL
Muitas
definições de arte já foram ensaiadas ao longo
do tempo, e no entanto essa prática social tão antiga
quanto a humanidade continua sendo um objeto difícil de definir.
Os diversos significados que o termo acumulou até os dias de
hoje comprovam que essa noção ainda é, em grande
parte, intuitiva. Por essa razão, os estudiosos do assunto
têm buscado uma definição conceptualmente rigorosa
do que seja a arte. Vou tentar apresentar aqui uma nova definição
de arte, tal qual a entendemos nos dias de hoje, baseada nos conhecimentos
fornecidos pela disciplina científica chamada semiótica
da cultura. Mas, para isso, vamos antes revisar rapidamente o
histórico dos significados dessa palavra.
O termo arte representou, historicamente, conceitos bastante
diferentes, alguns dos quais subsistem até hoje. Na Antigüidade
greco-romana, o termo grego tékhne e seu equivalente
latino ars designavam um conjunto bastante heterogêneo
de atividades que, entretanto, tinham em comum o fato de exigirem
uma habilidade específica para serem exercidas. Assim, arte
era toda atividade que envolvesse uma aptidão não inata,
cujo exercício dependia, portanto, de aprendizado. Mário
Vitorino, pensador do século IV d.C., classificava as artes
em artes animi, ou artes do espírito (poesia, música,
astrologia, gramática, retórica, direito, filosofia),
artes corporis, ou artes corporais (arremesso, salto, corrida,
levantamento de peso), e artes animi et corporis, ou artes
do corpo e do espírito (agricultura, ginástica, medicina,
arquitetura). Desse modo, o que Mário Vitorino e seus contemporâneos
chamavam de arte corresponde a atividades das mais diversas naturezas
(estética, científica, esportiva, divinatória,
técnica). Durante a Idade Média, período em que
as diferentes profissões se organizavam em corporações,
começou a surgir a distinção entre arte e artesanato;
entretanto, o termo arte ainda continuava a designar atividades
tão diferentes quanto o direito, a medicina, a matemática,
a astronomia, a música, a teologia e a filosofia. A divisão
das “sete artes liberais” em trivium (gramática,
lógica e retórica) e quadrivium (geometria,
astronomia, aritmética e música) baseava-se em critérios
muito mais corporativos do que epistemológicos.
Apenas no Renascimento, com a aparição da ciência
moderna, é que a palavra arte deixou de ser aplicada às
disciplinas científicas, ficando então restrita às
atividades de cunho estético. Todavia, persistiu o seu uso
em relação a atividades que hoje classificamos como
técnicas, como nas expressões artes e ofícios
ou artes gráficas, por exemplo.
A distinção entre arte, ciência, esporte e técnica
é um fenômeno relativamente moderno (uma das grandes
contribuições nesse sentido foi dada pela filosofia
positivista de Augusto Comte). Mesmo assim, muitas definições
modernas dessas atividades ainda pecam por uma certa imprecisão
terminológica, por um contorno semântico mal definido.
Por isso, se quisermos defini-la em termos rigorosos, podemos começar
dizendo que a arte é todo processo de produção
e veiculação de discursos sociais cuja função
predominante seja a função estética. E o que
vem a ser a função estética? Para entendê-la,
precisamos falar um pouco sobre as funções dos discursos
sociais. Em primeiro lugar, convém explicar que discursos sociais
são aqueles discursos cujo receptor é tido como coletivo,
ou seja, não é um indivíduo isolado, mas um grupo
aberto e indeterminado de indivíduos, que chamamos de público.
Dessa maneira, a arte, assim como as demais atividades culturais (isto
é, ciência, esporte e religião), caracteriza-se
por ser uma atividade produtora de discursos dirigidos a um público.
Todos os discursos sociais possuem uma função principal
ou primária. A maioria dos discursos sociais — assim
como de resto a maioria das práticas humanas — tem caráter
eminentemente pragmático, isto é, visa a satisfazer
alguma necessidade prática do ser humano. Esse é o caso
dos discursos jornalístico, publicitário, político,
jurídico, tecnológico, bem como dos discursos da ciência
aplicada (a que gera tecnologia), da arte aplicada (como a arquitetura,
a culinária e a arte terapêutica), do esporte aplicado
(em geral com finalidade terapêutica) e da religião aplicada
(a que procura livrar o homem do sofrimento, tanto físico quanto
espiritual). Por outro lado, existem quatro atividades, que chamamos
de culturais, cuja função primária não
é a satisfação da necessidade, mas sim a produção
do prazer. São elas a ciência pura (a que gera conhecimento
para satisfação da curiosidade humana), a arte pura
(que faz do belo um fim em si próprio), o esporte puro (isto
é, a competição com fim puramente lúdico)
e a religião pura (a que conduz à iluminação
e ao autoconhecimento). Portanto, enquanto as atividades pragmáticas
se originam de um dever (isto é, necessidade ou obrigação),
as atividades culturais têm origem num querer, numa busca do
prazer, seja ele sensorial, intelectual, físico ou espiritual.
Por isso, podemos chamar tais atividades de hedônicas
(do grego hedoné, prazer) e, conseqüentemente,
dizer que elas possuem como função primária a
função hedônica. A função estética
é, portanto, apenas um dos tipos possíveis de função
hedônica. O lingüista e crítico literário
tcheco Jan Mukarovsky a explica mais ou menos assim:
A cada objeto ou ação,
inclusive à linguagem, pode-se atribuir uma função
prática — utilitária para os instrumentos, comunicativa
para a linguagem, e assim por diante. Se, todavia, um objeto ou ação
tornar-se o foco de atenção por si mesmo e não
por causa da função prática que desempenha, diz-se
que tem uma função estética; isto é, provoca
uma reação pelo que é, e não por aquilo
para que serve. Assim, a função estética como
tal não se limita a obras de arte e literatura mas pode aparecer
com relação a qualquer objeto ou ação.
A
noção de função estética proposta
por Mukarovsky pode ser ilustrada através do seguinte exemplo.
Tomemos um objeto qualquer, digamos, uma faca. Enquanto objeto utilitário,
essa faca só terá valor para nós na medida em
que cumprir o papel para o qual foi concebida, isto é, cortar
coisas (alimentos, corda, tecido, etc.), incluindo-se aí a
possibilidade de ser utilizada como arma. No entanto, se pendurarmos
uma faca na parede da sala, ao lado dos quadros, ou a pusermos sobre
a mesa de centro ou sobre a lareira, servindo de decoração,
essa faca não mais terá valor enquanto instrumento cortante,
mas sim enquanto objeto decorativo. Pouco importará agora se
a faca em questão está ou não afiada, se é
própria para cortar carne, e assim por diante. Nosso julgamento
sobre a faca estará baseado no critério belo/feio,
agradável/desagradável, e não
no critério útil/inútil ou
funcional/disfuncional. Enquanto objeto de decoração,
a faca não nos chama a atenção pelo trabalho
que pode desempenhar ou pelas tarefas que podemos realizar com ela,
mas sim pelo simples fato de estar ali, exposta aos nossos olhos,
exatamente para ser vista e, quem sabe, alegrar o ambiente.
Segundo Roman Jakobson, a função estética (que
ele chamou de função poética) da linguagem ocorre
quando a mensagem se volta para si própria, isto é,
quando deixa de ser simplesmente um meio de transmissão de
informação e passa a ser um fim em si mesma. No exemplo
mais patente que temos de função poética da linguagem,
que é a própria poesia, vemos que um poema quase nunca
tem função utilitária, e se a tem, esta é
secundária, mas sua principal função é
produzir prazer estético, é ser uma obra de arte feita
de palavras. É nesse sentido que podemos dizer que um poema
não é um meio e sim um fim em si próprio, ao
contrário de mensagens utilitárias como, por exemplo,
uma notícia de jornal, uma bula de remédio, um contrato
jurídico, etc., que só têm valor para nós
pelas informações que transmitem e não por sua
beleza estética.
Numa concepção elargida dessa função,
podemos chamar de função estética à capacidade
que um discurso possui de provocar reações psíquicas
no receptor a partir de estímulos estritamente sensoriais —
visuais, auditivos, táteis, olfativos e gustativos. Pode-se
dizer, assim, que toda mensagem — verbal, visual, sonora, gestual,
cinestésica (tátil, olfativa ou gustativa) ou sincrética
(isto é, resultante de combinações dos tipos
anteriores) — cuja finalidade principal ou única seja
a de produzir reações psíquicas no receptor através
do uso de estímulos sensoriais é uma obra de arte.
Todavia, há dois tipos básicos de arte: as artes narrativas
e as artes não-narrativas. Dentre as primeiras estão
a literatura, a poesia épica, o teatro, o cinema, a história
em quadrinhos, etc. Dentre as segundas estão a poesia lírica,
a música, a pintura, a escultura, a arquitetura, a gastronomia,
etc. Nas artes não-narrativas, todos os estímulos dirigidos
ao receptor da mensagem são de natureza sensorial. Já
nas artes narrativas, nas quais, como se pode depreender da própria
denominação, a mensagem narra uma história, e
portanto existem personagens e uma trama, um enredo, isto é,
uma sucessão temporal de acontecimentos inter-relacionados,
os estímulos são de duas ordens diferentes: além
dos estímulos puramente sensoriais, há também
os estímulos decorrentes da expectativa em relação
ao desfecho da trama. Em outras palavras, havendo um conflito entre
as personagens, criador de uma tensão que pede resolução,
e que é a base de toda narrativa, o interesse do receptor pelo
texto recai também sobre a resolução desse conflito.
Assim, o que prende a atenção do público num
romance, num filme, numa peça de teatro, além, é
claro, dos estímulos verbais, sonoros, auditivos, etc., é
a curiosidade de saber quem é o criminoso e como ele será
preso, se o herói vai conseguir ou não conquistar o
coração da heroína, e assim por diante. Nessas
artes, além da função estética, está
presente também o que chamamos de função
lúdica, que é outro tipo de função
hedônica, desta vez característica dos discursos esportivos.
Na função lúdica, o prazer produzido pela mensagem
advém da identificação do receptor com um dos
sujeitos da chamada estrutura polêmica do discurso, isto é,
um dos sujeitos que disputam o objeto em jogo. Assim, através
de um mecanismo de transferência e projeção psicológica,
a vitória do sujeito (isto é, a conquista do objeto
de valor) é gratificante para o receptor da mensagem identificado
com aquele sujeito, como se a vitória fosse do próprio
receptor. É por isso que, numa competição esportiva,
sempre torcemos para um dos competidores, ou, no enredo de um romance
ou filme, nos identificamos com algum dos personagens, em geral o
protagonista, e assim desejamos seu sucesso.
Nos termos de Umberto Eco, a função lúdica e
a função estética da arte narrativa correspondem
respectivamente à “aspiração ao prazer
do enunciado” e à “aspiração ao prazer
do ato de enunciação”. Ou, ainda, ao prazer do
“quê” e ao prazer do “como”, isto é,
ao “prazer do Mundo Possível descrito na história
que o texto conta” e ao “prazer pela estratégia
do conto”.
Num romance policial, por exemplo, a função lúdica
se sobrepõe claramente à função estética;
já num romance de Guimarães Rosa ou de Joyce ou então
num filme musical, a função estética —
representada pelo trabalho formal com as palavras no caso do romance
e pelos números de música e dança no caso do
filme — rivaliza fortemente com a função lúdica
e em certos casos chega a prevalecer. No cinema surrealista, a função
lúdica quase inexiste.
Cumpre lembrar ainda que a arte tem secundariamente a função
de fazer pensar, de instigar a reflexão, de fazer o homem meditar
sobre sua realidade e sobre o drama da existência. Assim, também
costuma comparecer na arte, ainda que como função secundária,
a função epistêmica, que é a capacidade
que um discurso possui de provocar reações psíquicas
no receptor a partir do estímulo à reflexão e
ao raciocínio, função essa que é característica
sobretudo dos discursos científicos.
Quando dizemos que a arte é tanto a produção
quanto a veiculação de discursos estéticos, estamos
incluindo no âmbito da arte não só a instância
da criação artística (a instância da autoria)
mas também a instância da interpretação,
que faz a mediação entre o autor e o público.
Assim, no caso da música, por exemplo, temos na instância
da criação o compositor e na instância da interpretação
o instrumentista, o cantor, o arranjador, o regente. Do mesmo modo,
no plano do teatro, temos de um lado o dramaturgo e de outro o diretor
e os atores.
Outra decorrência dessa definição de arte é
que, sendo ela bastante ampla e abrangente, inclui muitas práticas
que só rara ou excepcionalmente são lembradas como formas
de arte, tais como a culinária (incluindo a preparação
de drinques), a moda, a perfumaria, a joalheria e a tapeçaria,
dentre outras.
Além disso, tal definição inclui também
as formas mais populares — e popularescas — de manifestação
discursiva, tais como certos tipos de produção cinematográfica,
teledramatúrgica, literária ou musical que, por seu
caráter excessivamente comercial e apelativo, são vistas
com preconceito pelas elites intelectuais, de modo que sua inclusão
no âmbito da arte, embora tecnicamente correta, costuma causar
polêmica e, além disso, nos lança numa infindável
discussão sobre os limites da arte. Se cinema pornô ou
música brega são ou não arte é uma questão
de gosto, não uma questão semiótica. A rigor,
todo discurso social que busca provocar o prazer pelo estímulo
dos sentidos é, por definição, uma forma de arte.
Se esse discurso é ou não apelativo, massificante ou
mesmo alienante, trata-se evidentemente de um juízo de valor,
não de um juízo de verdade.
A definição de arte dada aqui corresponde evidentemente
à arte pura; a arte aplicada é aquela em que além
da função hedônica — estética e/ou
lúdica — está presente a função
pragmática, de tal forma que ambas tenham aproximadamente a
mesma importância, podendo inclusive esta prevalecer sobre aquela,
como ocorre, por exemplo, na arquitetura, em que o aspecto funcional
da construção sempre se sobrepõe ao estético.
O que define uma arte é, primeiramente, a linguagem —
isto é, o código ou sistema semiótico —
na qual são codificadas as mensagens, e, secundariamente, os
processos e instrumentos de produção dessas mensagens.
Assim, a utilização do código verbal é
o que caracteriza a literatura, assim como a utilização
do código visual é o que caracteriza as artes plásticas.
Dentro do que chamamos de literatura, as diferentes formas de utilização
do código verbal dão origem a duas espécies de
arte literária: a poesia e a prosa. Igualmente, sendo a pintura,
a escultura, o desenho e a fotografia formas de arte que utilizam
todas o código visual e produzem, portanto, imagens, o que
as distingue umas das outras é o modo de produção
dessas imagens: aplicação de tintas sobre uma tela,
modelagem de uma massa sólida, uso de uma câmera fotográfica,
etc.
Duas características fundamentais identificam a arte: em primeiro
lugar, seu aspecto estético; em segundo lugar, seu caráter
ficcional. Toda obra de arte é antes de mais nada um objeto
concebido para ser percebido, um objeto que se mostra e cuja razão
de ser é provocar sensações e sentimentos ao
mostrar-se, causar reações físicas e psíquicas
no receptor que o percebe. Ao mesmo tempo em que o objeto de arte
se mostra, ele mostra uma espécie de simulacro da realidade,
ora mais ora menos verossímil, mas, ainda assim, uma realidade,
paralela a essa nossa realidade existencial (o Mundo Possível
de que nos fala Umberto Eco). O objetivo de toda arte é mostrar
uma realidade paralela e virtual, um universo potencial, um universo
não de essências, mas sim de aparências. A palavra-chave
da arte é aparência. Na arte, as coisas parecem
e aparecem. Por isso, o processo básico subjacente ao discurso
da arte é o (a)parecer. No discurso da arte, o signo,
representante do mundo, é o fim em si próprio. E o signo
se caracteriza por essa dualidade: o signo aparece, na medida em que
se mostra aos nossos sentidos e precisa ser percebido para que cumpra
sua função de representante; mas, se o signo representa,
então ele parece, isto é, ele evoca em nossa mente o
objeto representado.
Nas artes figurativas, narrativas ou não, o que temos é
uma representação do mundo, uma imago mundi
formada de signos que imitam a realidade. A imagem pintada, desenhada,
fotografada ou esculpida de um objeto não é o objeto,
é apenas uma imagem. A vida fictícia das personagens
de um romance ou de uma peça teatral não é uma
vida de verdade, é uma imitação da vida.
Nas artes não-figurativas, como a música e a pintura
abstrata, a mensagem artística também parece, na medida
em que evoca algo, embora de forma mais subjetiva, mas a mensagem,
sobretudo, aparece. Se não há um significado evidente
ou objetivo, há pelo menos um signo que é um fim em
si próprio, cuja missão é justamente aparecer.
Esse fenômeno de aparecer e ao mesmo tempo parecer, de ser percebido
e de representar, expressa-se em nossa língua pelos verbos
parecer/aparecer, ambos remetendo à idéia
de aparência. Algumas línguas expressam esses dois conceitos
por uma única palavra, como no caso do latim parere
ou do inglês appear, que significam indiferentemente
parecer ou aparecer.
Muito mais haveria para dizer a respeito de uma definição
semiótica de arte, mas paro por aqui, apenas dizendo
que tentar compreender e explicar a arte é tão desafiador
e instigante, e ao mesmo tempo tão fascinante quanto senti-la.
Nesse sentido, a arte nos proporciona um duplo prazer: o prazer sensorial
de contemplá-la e o prazer intelectual de explorá-la.