Artigos de Divulgação |
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CULTURA E PRAZER: O LUGAR DA CIÊNCIA |
(Publicado em Cultura Vozes, v. 90, n.º 3,
maio/junho de 1996)
As
atividades culturais — ciência, arte, esporte e religião
— são discursos sociais de caráter não
utilitário, fundados no princípio do prazer. Enfatizando
que a ciência é também uma prática cultural,
discute-se o papel da mesma no âmbito da cultura, enquanto atividade
hedônica, por oposição à concepção
utilitarista, pragmática, de ciência, atualmente em vigor.
Analisam-se, finalmente, os caminhos através dos quais a ciência
pode seguir sua vocação pública e atender mais
diretamente à própria sociedade que a instituiu e a
quem deve, em última instância, servir.
O
que distingue o homem dos outros animais é sua capacidade de
transformar a natureza de acordo com sua inteligência e vontade.
Em outras palavras, o homem, diferentemente das demais espécies
que habitam o planeta, é basicamente um ser cultural. No entanto,
quando se fala em cultura, desde logo entra em cena uma distinção
fundamental entre duas acepções diferentes, embora semanticamente
relacionadas, dessa palavra: num sentido amplo, “pertence ao
universo da cultura tudo o que o homem acrescentou à Natureza,
através de seu trabalho transformador” (Edward Lopes,
Fundamentos da lingüística contemporânea),
isto é, tudo aquilo que, no homem, não é produto
exclusivo do instinto biológico e da herança genética.
Nesse sentido, todas as atividades humanas (a caça, a agricultura,
o artesanato, a indústria, o comércio, as comunicações,
os transportes, a política, a guerra, etc.) são atividades
culturais. Podemos então avaliar o grau de civilização
de uma sociedade num determinado momento de sua história através
do testemunho de suas manifestações culturais, representadas
por todas essas atividades. Já num sentido mais estrito, utiliza-se
o termo cultura para designar algumas atividades específicas
do ser humano que pressupõem um aprendizado específico
e que produzem, por conseguinte, um acervo de conhecimentos transmissíveis
de geração a geração.
Se tomarmos o conjunto de todas as atividades humanas de caráter
não instintivo, teremos o quadro daquilo a que chamamos de
cultura num sentido amplo (cultura lato sensu). Essas atividades
podem ser divididas, numa primeira abordagem, em cinco grandes categorias:
a ciência, a arte, o esporte, a religião e a técnica.
Exemplos de atividades científicas são a física,
a química, a biologia, a história, a filosofia, a sociologia,
etc. Como exemplos de atividades artísticas temos a literatura,
a música, as artes plásticas, o teatro, o cinema, etc.
Atividades esportivas são: o futebol, o automobilismo, a ginástica,
o atletismo, a natação, o alpinismo, etc. Dentre as
religiões temos o cristianismo, o islamismo, o judaísmo,
o budismo, etc. Na categoria técnica incluímos
todas as demais atividades humanas: as ciências aplicadas e
tecnologias (engenharia, medicina, direito, jornalismo, administração,
etc.), as artes aplicadas (arquitetura, culinária, costura,
penteado, joalheria, artesanato, etc.), os esportes aplicados (todas
as atividades físicas que não visem à competição,
mas sim ao aprimoramento físico ou à melhoria das condições
de saúde, como no caso da musculação, da hidroginástica,
etc.), a religião aplicada, isto é, as práticas
divinatórias (astrologia, cartomancia, etc.) e as práticas
mágicas (cura espiritual, curandeirismo, feitiçaria,
etc.), o magistério em geral (ensino de ciências, ensino
de artes, ensino de esportes, ensino religioso, ensino técnico
e profissionalizante, etc.), as profissões militares e paramilitares
(exército, marinha, aeronáutica, polícia, etc.),
a política, as profissões especializadas de nível
médio (escriturário, secretária, tradutor, etc.)
e básico (marceneiro, mecânico, motorista, etc.), as
profissões não especializadas e braçais, e muitas
outras atividades.
Todas as atividades supramencionadas podem, por outro lado, ser classificadas
em dois grupos básicos: as atividades que visam à satisfação
de necessidades materiais do ser humano, a que chamaremos atividades
utilitárias, e as atividades que visam à obtenção
do prazer, a que chamaremos atividades hedônicas. Observe-se
que as atividades utilitárias são atividades-meio, existentes
para garantir a sobrevivência e a qualidade de vida do ser humano,
bem como para propiciar a infra-estrutura necessária à
realização das atividades hedônicas. Estas por
sua vez são atividades que possuem um fim em si próprias,
donde se conclui, na esteira de Epicuro, que o fim último da
atividade e, mesmo, da existência humanas é a busca do
prazer. As atividades hedônicas correspondem àquilo a
que podemos chamar de cultura stricto sensu.
Neste artigo, procuro analisar mais de perto as atividades culturais
stricto sensu, enquanto práticas sociais de índole
eminentemente semiótica, isto é, produtoras de bens
culturais que se caracterizam como discursos sociais, verbais ou não
verbais. Sendo fundamentalmente discursos, os objetos produzidos por
essas práticas possuem um caráter abstrato e não
utilitário, vale dizer, não voltado à satisfação
de necessidades materiais. Por serem discursos sociais, tais objetos
são concebidos para serem públicos, isto é, dirigidos
à coletividade. Procuro num primeiro momento analisar o modo
de ser e as características comuns a essas atividades, para
num segundo momento focalizar mais particularmente a ciência,
discutindo como, mais do que pública, ela pode ser uma atividade
“popular”.
Atividades
utilitárias x atividades culturais
Todas
as atividades humanas, enquanto práticas sociais, destinam-se
ao usufruto da comunidade e possuem portanto uma “clientela”
formada pelos próprios membros da sociedade. Assim, a clientela
de uma indústria são os consumidores de seus produtos;
a clientela de um comércio são seus fregueses; os clientes
de um médico são seus pacientes, e assim por diante.
Entretanto, algumas atividades visam ao atendimento de um tipo bastante
peculiar de clientela, a que podemos chamar de público.
O público é concebido como uma clientela consumidora
de uma espécie particular de bem, que são os discursos.
Por outro lado, os bens sociais podem ter duas finalidades: a satisfação
de necessidades materiais do ser humano, tais como a sobrevivência
física, a solução de problemas práticos
da vida quotidiana, a busca de proteção, saúde,
locomoção, conforto, etc., ou a satisfação
de necessidades que poderíamos chamar de “espirituais”,
como diversão, lazer, paz de espírito, etc. Podemos
então dizer que as atividades técnicas, que visam suprir
necessidades práticas, materiais, são atividades utilitárias,
ao passo que as atividades culturais são aquelas que atendem
as necessidades do espírito.
Toda atividade que produz e manipula discursos sociais é uma
atividade pública, mas para que seja uma atividade cultural
no sentido estrito do termo é preciso que tais discursos não
se destinem a fins práticos, como por exemplo no caso do jornalismo
e da educação, mas sim ao alimento do espírito.
Nesse sentido, a arte, a religião e o esporte são sem
dúvida atividades culturais. E a ciência? Será
que ela não é também uma atividade legitimamente
cultural, muito mais do que uma atividade utilitária? É
o que discutiremos mais adiante.
Arte,
ciência, religião e esporte: leituras do mundo
Todas
as quatro práticas sociais em foco são públicas,
no sentido acima referido, já que consistem da produção
de discursos destinados às massas, ainda que o alcance social
de cada uma delas possa ser sensivelmente diferente. Numa análise
mais profunda, pode-se dizer que tanto a ciência, quanto a arte,
o esporte, ou ainda a religião, constituem-se em sistemas de
interpretação e de compreensão do mundo pelo
ser humano. São todos linguagens, no sentido mais amplo do
termo, criadas para dar conta da experiência humana. Contrariamente
às atividades utilitárias, que objetivam a realização
de tarefas práticas, as atividades culturais possuem uma vocação
eminentemente “contemplativa”: são tentativas de
explicação dos fenômenos do universo físico
e humano através de diferentes óticas.
Assim, a arte procura explicar e compreender tanto a realidade natural
quanto a realidade social mediante a imitação dessa
mesma realidade. Cumpre ao artista representar através dos
signos das diversas linguagens (verbal, visual, sonora, gestual, etc.),
de forma mais ou menos verossímil, a natureza circundante,
buscando explicar o mundo pela via da representação
simbólica. A obra de arte é, portanto, uma mensagem
codificada num sistema semiótico particular, cuja função
é produzir uma leitura “sensível” do mundo.
Trata-se de uma leitura realizada pelos sentidos, e filtrada pela
emoção.
A ciência busca a descrição e a explicação
dos fatos do mundo natural e humano através da lógica:
é uma tentativa racional de criar modelos abstratos, igualmente
verossímeis, dos objetos e fenômenos da realidade. A
ciência procura construir um saber compreensível, logicamente
articulado, temporalmente cumulativo, que, a exemplo da arte, começa
pela percepção sensorial, mas que, à diferença
daquela, é processado pela razão.
A religião também nos apresenta uma leitura do mundo,
feita agora através do filtro da intuição e da
fé. O discurso místico não visa à construção
de um saber, mas ao estabelecimento de uma crença, fundada
na transcendência. A religião religa o homem
à divindade, pela comunhão da consciência.
Finalmente, o esporte objetiva a harmonização corporal
e mental do ser humano com a natureza. Na prática esportiva,
a natureza é imitada pelo homem através da busca de
um limite a ser superado (seja, por exemplo, a derrota de um adversário,
a quebra de um recorde ou a escalada de uma montanha ainda não
galgada). O esporte é o elo material entre o ser humano e o
mundo natural, é a representação simbólica
do domínio do homem sobre a natureza e sobre si próprio.
O que distingue a ciência, a arte e o esporte da religião
é o caráter dinâmico daqueles em face do caráter
estático desta última. Com efeito, novas teorias científicas
e novas obras de arte surgem a cada momento; da mesma forma, um certame
esportivo jamais se repete. Pode-se dizer então que essas três
atividades são regidas pelo princípio básico
da criação: o cientista, o artista e o esportista são
criadores, no sentido mais amplo do termo. Já a prática
religiosa consiste da difusão espacial e da transmissão
de geração a geração de uma doutrina que
permanece imutável ao longo do tempo. Nesse sentido, o pregador
apenas interpreta a doutrina, ele não a cria. Pela mesma razão,
diferentes correntes de pensamento científico, assim como diferentes
escolas estéticas, se sucedem no tempo, mas renovações
ideológicas no seio de uma religião são um fenômeno
raro e excepcional.
Além disso, a ciência, a arte e o esporte, ao contrário
das profissões utilitárias, fundam-se basicamente no
princípio do prazer. Isso significa que o homem não
faz arte, ciência ou pratica esportes porque precise, mas sim
porque quer e gosta de fazê-lo. De certa forma, também
a prática religiosa é regida mais pela vontade do que
pela necessidade. Mas neste caso não é possível
falar-se propriamente de prazer, pois a vontade que induz à
prática religiosa não é individual, mas sim coletiva.
Enquanto as atividades práticas visam à satisfação
de necessidades as mais das vezes ligadas à própria
sobrevivência do indivíduo ou do grupo social, as atividades
científicas, artísticas ou esportivas objetivam a satisfação
do ego, função esta por sinal não menos importante
ao bem-estar do homem. Isso não quer dizer que outras profissões
não requeiram uma dose de prazer ou de talento, pois é
sabido que qualquer tarefa a que nos dediquemos é mais bem
realizada se nos consagramos a ela com prazer e ainda se possuímos
algum talento para a mesma. No entanto, prazer e talento não
são fatores determinantes ou pré-requisitos básicos
ao exercício da maioria das profissões. Nesse sentido,
a carreira científica, a carreira artística e a esportiva,
como aqui também a religiosa, são carreiras vocacionais,
destinadas a indivíduos bastante peculiares, talhados para
esse “sacerdócio”. É sobretudo nas profissões
científicas, artísticas e esportivas que se revelam
os grandes gênios (apenas excepcionalmente ouvimos falar de
gênios da política, da indústria ou do comércio,
por exemplo), talvez porque é justamente na instância
da criação, muito mais do que na da execução,
que a inteligência superior se manifesta.
Assim, o que leva o artista a usar de uma linguagem particular para
descrever o mundo é a busca de um prazer egolátrico.
O artista recria — literalmente, cria de novo — em sua
obra a obra de Deus. O artista se sente quase como um deus criador
todo-poderoso quando imita o verdadeiro Criador. As palavras-chave
da atividade artística são criação
e criatividade. O objetivo de toda arte é a criação
de uma mensagem nova, inédita e surpreendente, capaz de revelar
nuances insuspeitadas do mundo à nossa volta. O motor da criação
é justamente a criatividade, capacidade de criar, de dar vida,
de extrair o novo do velho, de realizar novas combinações
e novos arranjos a partir de elementos simbólicos já
conhecidos.
Da mesma forma, o que move o cientista a pesquisar o como e o porquê
das coisas é um sentimento igualmente egolátrico, um
desejo de se sentir Deus, ao desvendar como o Universo funciona e
como foi criado. As palavras-chave da ciência são descoberta
e curiosidade. A meta da investigação científica
é a revelação da “verdade”, supostamente
existente, isto é, a exposição à luz das
entranhas ocultas da natureza. É justamente por ser inatingível
essa verdade que a ciência não se esgota. A ciência
parece aproximar-se cada vez mais dela sem jamais alcançá-la.
Por isso, toda verdade científica é sempre uma verdade
provisória. A busca dessa verdade é motivada pelo prazer
da satisfação da curiosidade.
O esportista, por sua vez, imita Deus procurando superar os limites
impostos pela natureza. A palavra-chave do esporte é competição.
O prazer esportivo advém da busca da vitória, da obsessão
pela perfeição, do triunfo sobre a natureza e sobre
os outros homens pelo emprego da força e da inteligência.
Pode-se notar desde logo que a ciência e a arte têm em
comum a produção de obras codificadas em linguagem e
destinadas ao intelecto. Nesse sentido, tanto o cientista quanto o
artista podem ser considerados como intelectuais, isto é, como
profissionais do pensamento. O veículo da ciência é
o código verbal e as linguagens formais, ao passo que a arte
utiliza várias formas de linguagem, como vimos mais acima.
O esporte consiste de uma linguagem fundamentalmente gestual, em que
atitudes corporais são ordenadas, obedecendo a certas regras,
para a obtenção de um resultado. Embora seja também
uma espécie de linguagem, o esporte não produz textos
materiais, isto é, obras que possam ser registradas de forma
durável, permanente, como livros, pinturas, discos, etc. Por
outro lado, arte e esporte têm em comum serem ambos formas de
entretenimento. Com efeito, as pessoas assistem a eventos esportivos
pela mesma razão por que vão ao cinema, ao teatro, assistem
a shows musicais, ouvem música ou lêem livros de ficção:
em busca de diversão, isto é, de prazer.
O esporte proporciona uma forma de prazer que se baseia em torcer
por um atleta ou por uma equipe, vale dizer, desejar que o esportista
ou agremiação de nossa preferência seja vitorioso
numa competição. Tal torcida é sem dúvida
uma forma de catarse, em que o torcedor projeta sobre o esportista
ou agremiação seus próprios desejos. Nesse sentido,
a competição assume um forte caráter simbólico,
em que os próprios conflitos da vida são representados.
Pode-se dizer então que o esporte consiste da busca de um prazer
lúdico, o prazer da brincadeira, em que sempre está
presente o traço da competição, o desafio de
vencer um obstáculo mediante o emprego de uma habilidade específica
e a obediência a certas regras preestabelecidas.
Na arte, o prazer é de ordem estética. A arte procura
causar prazer sensorial através da busca do belo, do sublime,
do inusitado, do inesperado, do plurissignificativo. A catarse na
arte se dá pela projeção do espectador sobre
as personagens, ou pela “viagem” imaginária que
se pode empreender embalado por sons, imagens e palavras.
Como se vê, a arte e o esporte lidam diretamente com a emoção
das pessoas, e são responsáveis por verdadeiros fenômenos
de arregimentação das massas, como no caso dos jogos
de futebol ou dos shows de rock, que lotam grandes estádios.
Essas manifestações coletivas têm o condão
de levar muitas vezes os espectadores a um estado de verdadeira euforia.
Nesse aspecto, também a religião atua sobre o lado emocional
das pessoas, ao operar uma catarse na mente e no espírito.
Em muitas religiões, os fiéis também são
levados a um estado eufórico, que por vezes pode beirar a histeria
coletiva. Quem já assistiu a certos cultos evangélicos
sabe muito bem disso. Por lidarem com o aspecto emocional do ser humano,
certas práticas artísticas e esportivas conduzem a um
culto à personalidade, em que o artista ou atleta é
guindado à condição de ídolo popular e
objeto de consumo. Na religião, o culto à personalidade
leva em geral à adoração cega de certos líderes
religiosos.
Mas e a ciência? Que lugar lhe é reservado dentre as
atividades hedônicas?
Uma possível definição de ciência, atualmente
aceita, é a fornecida por Cidmar T. Pais: um processo de
busca da verdade e construção do saber, para a melhoria
das condições de vida do homem. Mas a melhoria
das condições de vida do homem não é necessariamente
uma melhoria exclusivamente material. A ciência deve também
prover o bem-estar espiritual do ser humano, abrir a mente humana
para novas realidades e para novas visões da dinâmica
da própria existência, e é talvez essa a sua principal
missão. Em outras palavras, a ciência não existe
apenas em função de suas possíveis aplicações
tecnológicas, mas sobretudo para satisfazer a sede de conhecimento
do ser humano. Com efeito, a grande fonte de angústia do homem
desde o início dos tempos tem sido o defrontar-se com um mundo
cheio de mistérios que parecem além de sua capacidade
de compreensão. Recordemos que a ciência, assim como
a religião, surgiu exatamente para buscar respostas às
inúmeras perguntas que o homem faz incessantemente a si próprio.
Em razão disso, a função precípua da ciência
é a busca do conhecimento, que serve em primeiro lugar à
satisfação da insaciável curiosidade humana,
e, num segundo momento, à satisfação de suas
necessidades materiais.
Assim, a ciência, tanto quanto a arte ou o esporte, possui um
forte caráter hedônico: a busca de um prazer, a satisfação
de uma necessidade muito mais do espírito que do corpo. Sendo
um discurso social, e possuindo uma índole hedônica muito
mais do que pragmática, a ciência é, portanto,
e legitimamente, uma atividade cultural. Apesar disso, modernamente
a atividade científica encontra-se amiúde associada
à busca de soluções para problemas de ordem prática.
O grande objetivo atual da ciência parece ser então a
descoberta de teorias aplicáveis à geração
de know how tecnológico. Ciência e tecnologia
articulam-se dialeticamente num processo constante de alimentação
e realimentação, em que as teorias científicas
são testadas pelas diversas técnicas, e assim confirmadas
ou falseadas. Se falseadas, retornam ao cientista para serem reformuladas.
Entretanto, essa concepção “utilitarista”
de ciência nem sempre prevaleceu. Historicamente, a ciência
surgiu tendo um fim em si própria, sendo uma atividade muito
mais ligada à cultura do que à economia ou à
política, embora não raras vezes tenha sido seduzida
pelo poder político ou econômico. Essa vocação
original da ciência, quer nos parecer, está longe de
ser sepultada.
Ciência:
necessidade ou prazer?
A
respeito do papel primordial da ciência, é interessante
ouvir o que diz Bertil Malmberg em seu livro A língua e
o homem: Introdução aos problemas gerais da lingüística:
Toda pesquisa científica se
baseia, afinal, na necessidade de o homem ver com maior nitidez o
que lhe diz respeito e ao mundo em que vive. As questões sobre
a aplicabilidade prática ou sobre a utilidade dos resultados
dessa pesquisa ficam fora de sua autêntica esfera de interesse.
Ainda que todo o nosso progresso material seja, afinal, uma conseqüência
de pesquisas científicas, o próprio progresso, no entanto,
nunca tem sido nem pode ser, a meta principal da pesquisa. A ânsia
de conhecer — a curiosidade, se se prefere — são
inerentes ao homem. Toda vez que outras forças pretenderam
decidir o sentido da pesquisa e influir em seus resultados —
penso de um modo particular nas pressões políticas —
a ciência entrou por maus caminhos, atraiçoando seus
ideais e chegando inclusive ao fracasso. É necessário
observar que os perigos deste gênero não são exclusivos
dos regimes ditatoriais mas também existem numa estrutura estatal
democrática: a necessidade de apoio econômico pode determinar
uma grave dependência do poder político. Tanto os pesquisadores
como os governantes devem estar conscientes deste perigo.
Aliás,
convém lembrar aqui que também a arte, o esporte e a
religião têm sido, ao longo da História, aliciados
por certos regimes políticos ou grupos econômicos.
Sobretudo a partir do advento da sociedade burguesa, a ciência
passou a ser cooptada pelo poder econômico. Substituiu-se o
sábio da Renascença, versado em todas as áreas
do conhecimento, pelo pesquisador altamente especializado, de conhecimento
cada vez mais profundo e menos extenso, por exigência do próprio
crescimento do número de informações científicas,
característico da nossa época. A universidade tornou-se
então o laboratório de desenvolvimento de novas tecnologias,
a serviço da indústria e do Estado. Na universidade
burguesa, a ciência básica só se justifica através
de sua contrapartida, que é a ciência aplicada. Herdeira
do positivismo do século XIX, essa concepção
utilitarista de ciência relegou a pesquisa básica a um
segundo plano, colocando-a a reboque dos interesses econômicos
e políticos.
Outro corolário dessa postura é a elitização
do conhecimento e o conseqüente uso do saber como forma de dominação.
No mundo atual, quem detém a informação detém
o poder. No entanto, se esse conhecimento elitizado interessa aos
detentores do poder político ou econômico, é tolice
acreditar que os cientistas possam ser beneficiados por esse processo.
A rigor, a perda da liberdade intelectual e a submissão da
pesquisa a diretrizes alheias ao próprio espírito científico
não encontram sua contrapartida em termos de ganhos financeiros
ou de prestígio. Os intelectuais acabam simplesmente isolados,
como que numa torre de marfim, inatingíveis do alto de sua
sabedoria, desvinculados do contexto social e, sobretudo, incompreendidos
pela comunidade em benefício da qual a atividade científica
se justifica.
Por outro lado, devemos recordar também que muitas formas de
arte não possuem apenas um objetivo estético, mas também,
e principalmente, uma finalidade prática. Por exemplo, se na
música a função estética é praticamente
a única existente, na arquitetura essa função
é importante, porém secundária, pois o principal
propósito de uma obra arquitetônica é sua utilização
prática, especialmente se pensarmos na chamada arquitetura
funcional. Assim, a arquitetura, a costura, o penteado, a culinária,
dentre outras, são formas de arte que visam, além do
prazer, à satisfação de necessidades práticas
do homem (habitação, vestuário, alimentação,
etc.). Igualmente, muitas vezes a prática esportiva é
utilizada como forma de treinamento militar, de terapia, ou mesmo
como laboratório de testes da indústria (pense-se, por
exemplo, no desenvolvimento tecnológico proporcionado pelas
corridas de Fórmula Um na fabricação de automóveis
de passeio).
Da mesma forma, há ciências mais hedônicas ou mais
utilitárias. A economia, por exemplo, parece ser uma ciência
cem por cento utilitária: com efeito, não nos parece
que alguém leia artigos de economia ou assista a palestras
de economistas por prazer, mas sim por necessidade profissional ou
por interesse financeiro. Já a filosofia parece não
possuir nenhuma utilidade prática ou aplicação
tecnológica, tanto assim que os italianos chegaram a defini-la
jocosamente como “la scienza con la quale o senza la quale il
mondo rimane tale e quale” (a ciência com a qual ou sem
a qual o mundo permanece tal e qual). Gracejos à parte, de
um ponto de vista estritamente utilitarista, a filosofia é
freqüentemente vista como uma ciência inútil, um
“artigo de perfumaria”. Creio que o critério de
valoração da ciência deva ser outro: se aceitarmos
a função hedônica como tão importante quanto
a pragmática, então quanto mais amplo e universal for
o objeto de estudo de uma ciência, quanto mais diretamente esse
objeto disser respeito à própria essência do Universo,
da vida e do ser humano, mais “nobre” essa ciência
será. Desse ponto de vista, a filosofia é sem dúvida
uma das mais nobres atividades intelectuais do homem.
Entre os extremos da filosofia e da economia, temos evidentemente
posições intermediárias, isto é, ciências
de forte carga hedônica, mas também passíveis
de prestar serviços de ordem utilitária. Assim, por
exemplo, a física satisfaz nossa curiosidade sobre a origem
e o funcionamento do Universo, bem como permite o desenvolvimento
de tecnologias, sobretudo na esfera industrial. Igualmente, a história
nos fascina enquanto narrativa épica de nosso passado, assim
como fornece modelos de comportamento à sociedade no sentido
da construção de uma cidadania. Portanto, qualquer concepção
de ciência, de arte ou de esporte que limite essas práticas
a um único propósito é inegavelmente reducionista.
Assim, se é verdade que na área da ciência aplicada
um fim prático é sempre a razão de ser da própria
pesquisa, a ponto de esta ser realizada em geral por encomenda das
indústrias, dos laboratórios farmacêuticos, dos
governos, etc., isso nem sempre vale para a ciência básica.
Com efeito, a maior parte dos cientistas teóricos são
capazes de passar anos de suas vidas debruçados sobre um determinado
problema, sem necessariamente vislumbrarem qualquer aplicação
prática para a teoria que daí venham a extrair. Ocorre
mesmo que muitos cientistas não têm qualquer vocação
tecnológica. Assim sendo, o que os leva a dedicar-se obstinadamente
à sua pesquisa é a simples curiosidade. Não é
por outra razão que os homens começaram desde cedo a
observar as estrelas, a perscrutar o mundo microscópico, a
dissecar os animais e as plantas, a refletir sobre a vida em sociedade,
sobre o funcionamento da mente, sobre a existência enfim. É
claro que os conhecimentos assim obtidos encontram mais cedo ou mais
tarde aplicações práticas, mas quando uma determinada
teoria encontrará seu uso na indústria, na medicina,
na educação, e qual será esse uso, são
fatos em geral imprevisíveis no momento da descoberta. É
preciso assim eliminar a mentalidade imediatista que caracteriza nossa
civilização: é claro que as atividades culturais,
aí incluída a ciência, não dão retorno
financeiro a curto prazo, mas se baníssemos a cultura de nosso
dia-a-dia e nos consagrássemos exclusivamente às atividades
utilitaristas, isto é, “lucrativas”, em pouco tempo
nossa sociedade se transformaria num verdadeiro caos. Pode e deve
haver espaço para a cultura desinteressada, justamente como
forma de preservar nossa própria sanidade social.
Portanto, o que determina a obsessão do homem pelo conhecimento
é a busca de um prazer intelectivo, a satisfação
de sua enorme curiosidade. Se para o governo dos Estados Unidos, por
exemplo, a conquista do espaço representava uma forma de afirmação
de sua supremacia, sobretudo em face do crescente poderio da União
Soviética, bem como um laboratório de testes de tecnologias
potencialmente utilizáveis na esfera bélica, para o
povo norte-americano, que financiou através de impostos a maior
parte do projeto, a curiosidade sobre o universo à nossa volta
por si só justificou o investimento. Não é por
outra razão que hoje se enviam sondas para pesquisar a superfície
de outros planetas do Sistema Solar, bem como se constroem enormes
radiotransmissores e receptores na esperança de estabelecer
contato com possíveis civilizações extraterrestres.
Se, por exemplo, a principal razão de ser da astronomia fosse
sua aplicação prática na orientação
dos navegadores, há muito as pesquisas astronômicas já
teriam deixado de ser empreendidas, por absoluto esgotamento de sua
utilidade. Da mesma forma, não é a possibilidade de
geração tecnológica o que justifica a pesquisa
arqueológica: com efeito, de que maneira conhecer o modo de
vida de nossos antepassados há 3.000 anos ou mais afetaria
o nosso modo de vida atual? Em todos esses exemplos, e em muitos outros
ainda, o principal elemento propulsor da pesquisa científica
é a simples curiosidade humana. E é justamente essa
curiosidade, a busca, como dissemos, de um prazer intelectivo, o que
torna a ciência também uma forma de entretenimento.
Por exemplo, o livro Uma breve história do tempo,
de Stephen Hawking, é um dos mais vendidos da atualidade e
é evidente que seus leitores não são todos físicos,
astrônomos ou engenheiros. Se tal fosse o caso, sua vendagem
seria irrisória. De fato, muitas pessoas — talvez a maioria
delas — fazem cursos, assistem a palestras ou lêem livros
de ciência não propriamente por uma necessidade profissional,
mas sim por puro deleite. Proliferam hoje em dia workshops
e simpósios sobre os mais diversos temas, aos quais acorre
uma multidão de pessoas leigas, porém ávidas
de conhecimento. Os assuntos variam desde a origem do universo até
o poder da mente, passando pela existência de discos voadores
ou de vida após a morte, ou ainda pela obtenção
de sucesso pessoal através do emprego de técnicas auto-sugestivas.
Mesmo que em certos casos a busca da informação seja
o aspecto mais importante da demanda pelos eventos científicos,
como ocorre com palestras informativas sobre a AIDS, por exemplo,
é importante frisar que a divulgação científica
oferece quase sempre a possibilidade de ser um espetáculo,
no sentido de evento de interesse público, comparável
então a uma apresentação artística ou
evento esportivo.
Pesquisa
científica, público e mídia
Não
pretendo aqui, bem entendido, banalizar a idéia de ciência,
reduzindo-a a mero divertimento. Evidentemente, sua principal função
é, conforme já disse, a busca do saber para a melhoria
das condições de vida do homem, mas melhoria numa perspectiva
holística, e não apenas no aspecto material. Nesse sentido,
não deixo de reconhecer a importância dos eventos científicos
que agregam os pesquisadores para troca de informações,
como os congressos e reuniões de sociedades científicas,
bem como dos artigos especializados, veiculados em publicações
periódicas. Mas quero sustentar que a ciência, enquanto
atividade cultural e pública, não deve estar fechada
a um pequeno círculo de entendidos. O grande problema da humanidade
ainda hoje é a extrema ignorância em que vive a maior
parte das pessoas, e que é responsável pela miséria
material e moral, pela violência, pela intolerância, pelo
preconceito, pela opressão política, pela exploração
econômica, pelo fanatismo religioso, enfim por todo tipo de
obscurantismo, por tudo o que há de mais contrário à
civilização. A ciência deve portanto tentar chegar
ao grande público, e para tanto seu poder de sedução
é enorme. A vulgarização da ciência é
o caminho pelo qual esse objetivo pode ser cumprido. Utilizando-se
os diversos meios de comunicação existentes (livros,
revistas, rádio, televisão), é possível
divulgar a ciência, e atualmente já há um número
considerável de autores que se consagram à redação
de textos de popularização do conhecimento científico,
bem como de cientistas que escrevem livros numa linguagem acessível
a um público não iniciado. Há também um
número razoável de documentários científicos
na televisão, bem como de revistas de divulgação
científica. Além disso, com a popularização
da Internet, a transmissão da informação científica,
antes restrita à comunidade acadêmica, pode agora atingir
o usuário de computadores leigo. A Internet já está
se tornando o principal veículo de divulgação
científica.
Cumpre lembrar que a religião, a arte e o esporte estabelecem
uma comunicação direta com seu público, através
de linguagem acessível a praticamente qualquer indivíduo,
e que portanto não requer que o receptor dessa comunicação
seja um “iniciado”. Isso explica por que essas atividades
acabam sendo bem mais populares que a ciência.
Façamos uma analogia entre o trabalho do cientista e o do compositor
de música: este último escreve uma partitura que, por
estar codificada numa linguagem técnica, só pode ser
lida por especialistas, isto é, por músicos. Aquilo
a que o público em geral tem acesso é o som da música,
quer seja ela executada ao vivo ou gravada em discos, e não
a partitura que traduz esse som em sinais gráficos. Da mesma
maneira, os artigos científicos, por seu caráter altamente
técnico e por sua linguagem hermética, são de
uso exclusivo de profissionais especializados, no caso, os próprios
cientistas. O que interessa ao público leigo não são
os textos científicos, mas as idéias contidas neles,
idéias estas que, nos seus aspectos mais gerais, podem perfeitamente
ser veiculadas em linguagem não técnica, pelos mais
diversos meios existentes. Uma teoria científica complexa como
a teoria da relatividade de Einstein, apenas para citarmos um exemplo,
compõe-se de equações matemáticas muito
complicadas e de idéias bastante simples. O que choca as pessoas
é o caráter revolucionário dessas idéias
e não sua complexidade. Não por acaso, Einstein foi
não só um dos maiores pensadores de todos os tempos,
mas também um dos cientistas que mais se preocuparam com a
popularização da ciência, tendo redigido diversos
trabalhos com esse objetivo. A popularização da ciência
implica que o debate em torno das idéias seja levado ao meio
público, e conte com a participação do cidadão
comum, ao invés de ficar confinado às salas de conferência.
As
barreiras da metalinguagem
Quando
se discute a popularização da ciência, uma questão
perturbadora se coloca: o discurso científico, cuja principal
característica é sem dúvida o rigor teórico,
sustenta-se por isso mesmo numa metalinguagem precisa e isenta de
ambigüidade ou de plurissignificação. Essa metalinguagem
— o jargão dos cientistas — possui evidentemente
um caráter bastante hermético, o que dificulta ou mesmo
impossibilita a decodificação de textos científicos
pelo público leigo. Sabemos, no entanto, que a complexa terminologia
dos inúmeros jargões técnicos não foi
criada por pedantismo dos cientistas, mas por uma necessidade de rigor
científico, o qual só pode ser garantido por uma metalinguagem
que se afaste o mais possível da linguagem comum, coloquial,
por natureza imprecisa e ambígua. O grande desafio que se impõe
à ciência hoje é ser capaz de difundir entre as
massas o saber altamente sofisticado que atualmente é exclusivo
de uma pequena elite intelectual, sem renunciar ao rigor e à
precisão, que são o próprio apanágio da
ciência. Em outras palavras, como traduzir todo o conhecimento
científico disponível na atualidade para a linguagem
do cidadão médio, se a maioria dos termos técnicos
não admitem sinônimos nessa linguagem?
A idéia corrente que se tem é a de que a ciência
não pode ser simples, porque seu propósito é
justamente estudar objetos e fenômenos que não são
simples. Se a natureza, tanto física quanto social, é
extremamente complexa, como descrevê-la ou explicá-la
numa linguagem simples? Por isso mesmo, quanto mais o conhecimento
científico avança, mais longas e complexas as equações
matemáticas vão ficando.
Nessa perspectiva, a arte e a religião gozam de uma maior liberdade
de criação em relação aos seus objetos.
Os mesmos fenômenos que constituem o objeto da investigação
científica podem ser “explicados” misticamente
através de dogmas, cujo estabelecimento é totalmente
arbitrário. A arte, por sua vez, também goza de plena
liberdade ao recombinar os elementos da natureza das mais diversas
maneiras, para produzir um efeito estético. Desse modo, a arte
e a religião não estão presas a uma realidade
objetiva e podem, portanto, construir realidades subjetivas sem nenhum
compromisso necessário com a verossimilhança. Já
a ciência é escrava dos fatos: se as teorias científicas
não são “verdadeiras”, elas devem ao menos
ser verossímeis. Decorre daí que a liberdade de criação
do cientista é muito pequena, e essa vinculação
com a realidade torna o discurso científico quase tão
complexo quanto a própria realidade.
No entanto, foi dito mais acima que, por trás de equações
matemáticas muito complicadas, se escondem idéias às
vezes muito simples. A verdadeira matéria-prima da ciência
são as idéias e não a metalinguagem que as expressa,
e que não passa de uma mera ferramenta de trabalho. É
perfeitamente possível tratar realidades complexas de modo
rigoroso e preciso através de uma linguagem simples e objetiva.
Não se exclui aí, evidentemente, a possibilidade da
popularização do jargão científico, como
já ocorreu com certas disciplinas, como a psicanálise,
por exemplo.
Por um lado, rigor científico não deve ser sinônimo
de hermetismo. Em muitos casos, o jargão técnico é
utilizado, inclusive nos meios de comunicação de massa,
muito mais como forma de ostentação de um pretenso saber
ou de camuflagem da verdade (o que em última análise
configura o uso do saber como instrumento de dominação),
do que como ferramenta do rigor científico. Observa-se isso
com freqüência quando economistas se dirigem ao público
expressando-se em “economês”, ou quando médicos
prestam informações sobre a profilaxia de doenças
através de uma linguagem inacessível justamente àquela
camada da população mais sujeita a essas doenças.
Por outro lado, algumas ciências possuem uma metalinguagem menos
hermética, mais próxima da língua comum, o que
facilita sua difusão. É especialmente o caso das ciências
humanas, que, além disso, por tratarem de assuntos que dizem
respeito mais diretamente ao dia-a-dia do cidadão, podem atender
esse objetivo de forma bastante satisfatória.
A linguagem não é necessariamente uma barreira à
divulgação de idéias. Senão, vejamos:
a Bíblia, por exemplo, é um livro de leitura bastante
difícil, em virtude de sua linguagem metafórica e de
seu texto eivado de termos de cunho erudito, muitos dos quais desusados
na linguagem corrente. No entanto, é um dos livros mais lidos
do mundo (e, sem dúvida, o mais reeditado de todos) e é
curioso notar que a maior parte de seus leitores se encontram nas
classes sociais mais baixas e, portanto, menos escolarizadas. Ocorre
que o discurso religioso, apesar de seu aspecto solene, hermético
e propositalmente polissêmico, é na verdade bastante
simples, e o papel do pregador religioso é justamente explicar
o texto sagrado, dissecando-o, dividindo-o em partes e analisando
essas partes, fornecendo exemplos, interpretando-o enfim. Dessa forma,
o discurso religioso seduz as pessoas justamente por seu aparente
hermetismo, que lhe confere uma aura de transcendência. Mas
tal hermetismo só é sedutor na medida em que o próprio
discurso dá ao fiel a chave de sua decodificação,
da qual depende a própria salvação espiritual.
O discurso religioso é bastante eficaz, inclusive do ponto
de vista mercadológico, porquanto oferece ao público
exatamente aquilo que ele quer. Mais do que isso, muitas vezes tal
discurso instaura no público esse querer. Vê-se assim
que a linguagem não é necessariamente uma barreira:
pode ser, antes, uma ponte.
O
desafio de uma ciência popular
É
interessante notar que é exatamente a ciência básica
a que se presta melhor à vulgarização. Certos
assuntos como astronomia, cosmologia, arqueologia, história
natural, história da civilização, sociologia,
política, dentre outros, sempre despertam a curiosidade do
público. Mesmo temas não consensualmente científicos,
como ufologia, parapsicologia, programação neurolingüística,
teorias não comprovadas, como a de Erich von Danicken em Eram
os deuses astronautas?, etc., são objeto de grande interesse
por parte do público. Tal interesse decorre, como vimos, do
prazer fundamental que a satisfação da curiosidade produz
em nosso intelecto, prazer esse que move o cientista a pesquisar de
forma desinteressada e o aficionado por ciência a querer conhecer
o resultado de tal pesquisa, da mesma forma como o prazer lúdico
do esporte impele o esportista a praticá-lo e o torcedor a
apoiá-lo, ou o prazer estético da arte emociona tanto
o artista que produz a obra quanto o espectador que a contempla. Com
efeito, pode existir tanta poesia numa teoria científica quanto
numa obra de arte ou num espetáculo esportivo. O grande desafio
que se impõe aos cientistas é tornar essa poesia acessível
ao maior número possível de pessoas.
Importante papel é desempenhado nesse sentido pelos cursos
de extensão universitária. É este o canal através
do qual a universidade abre suas portas ao público em geral.
Através de tais cursos, é possível ao espectador
leigo estar em contato com o conhecimento científico, bem como
é forçoso ao cientista aprender a ser didático,
a desenvolver um discurso eficaz em dois sentidos diferentes: ao ser
capaz de dar conta do objeto estudado e de ser compreendido por mais
alguém além dos próprios cientistas.
Outra razão importante da divulgação científica
é o financiamento da pesquisa. Como atividade cultural, a ciência
pode buscar parte dos recursos necessários à implementação
de projetos científicos nas mesmas fontes que a arte ou o esporte.
Mas onde essas atividades buscam seus recursos?
Na Idade Média e na Renascença, a arte era patrocinada
pela Igreja e por mecenas pertencentes à nobreza ou à
alta burguesia. A partir da Revolução Industrial, e
com o fim do Antigo Regime, a arte tornou-se objeto de consumo. Atualmente,
cumpre ao artista vender seu trabalho ao maior número possível
de pessoas. Da mesma forma, o esporte profissional depende basicamente
da arrecadação das bilheterias. Por essa razão
inclusive, algumas modalidades esportivas menos populares permanecem
amadoras.
Na atualidade, os recursos destinados à ciência provêm
do Estado ou do grande capital privado. Esse “mecenato moderno”
tem razões pouco românticas para patrocinar projetos
de pesquisa. Assim, a busca de apoio financeiro através da
venda direta do saber científico ao público é
uma alternativa possível, que exige no entanto a popularização
da ciência, seja através da adoção de uma
linguagem menos hermética, seja através da abordagem
de temas mais afeitos ao interesse popular, seja ainda através
da introdução do debate científico em fóruns
ainda pouco explorados, como os meios de comunicação
de massa , por exemplo. Mais uma vez, as ciências humanas levam
ligeira vantagem sobre as ciências naturais: além de
satisfazerem melhor a esses requisitos básicos da divulgação
científica, são também as ciências que
menos dependem de financiamento externo, já que a maioria dos
projetos nessa área apresentam custo muito inferior ao de projetos
em ciências exatas e biológicas, que dependem de equipamentos,
laboratórios, reagentes químicos, etc., em geral caríssimos.
Na área de humanidades, muitas pesquisas têm custo próximo
de zero.
Conclusão
Empreender uma discussão sobre
a questão cultural e, especialmente, sobre o papel da ciência
nesse contexto, não é, sem dúvida, tarefa das
mais fáceis, principalmente tendo em vista que tal questão
vem agitando os meios intelectuais há pelo menos 2.500 anos,
sem nunca esgotar-se o seu interesse, que, ao contrário, parece
sempre renovar-se. Se não é possível —
nem tampouco desejável — encerrar essa discussão,
meu intento foi o de lançar uma nova luz sobre ela, e para
tanto, acredito ter lançado mais perguntas do que respostas.
Assim sendo, prefiro concluir essas reflexões com mais uma
pergunta. Afinal, não é essa mesmo a finalidade da ciência?
Não é justamente na curiosidade que reside seu caráter
hedônico?