Artigos de Divulgação
 
  POR QUE AS RELIGIÕES CONFLITAM ENTRE SI? 

Non si può servire due padroni senza commetter tradimento.
CARLO GOLDONI, Arlequim, o servidor de dois amos

Em meu livro Anatomia da cultura, demonstrei que as práticas culturais em seu sentido estrito — isto é, aquilo que chamei de ciência, arte, esporte e religião puros, por oposição à ciência, arte, esporte e religião aplicados — diferem das demais atividades humanas em vários aspectos, sendo o principal o fato de terem um propósito muito mais hedonístico do que utilitário, ou seja, objetivarem fundamentalmente proporcionar prazer em vez de satisfazer necessidades pragmáticas, sejam elas materiais ou existenciais. O que eu quis dizer com isso é que a finalidade primeira — e muitas vezes única — de um livro de filosofia ou de divulgação científica, de um documentário científico de televisão, de um romance, de um filme, de uma peça teatral, de uma canção, de uma partida de futebol ou de um livro do Dalai Lama é o entretenimento, num sentido bem amplo dessa palavra, bem entendido. Afinal, não é por necessidade ou por obrigação, mas sim por prazer que lemos esse tipo de livros ou assistimos a esse tipo de espetáculos. Em outros termos, não buscamos o discurso dos artistas, intelectuais, pensadores, esportistas (pois o esporte também é uma forma de discurso) e sábios religiosos porque precisamos, mas porque queremos, muito diferente do que acontece com os demais profissionais existentes, como o dentista, o advogado, o marceneiro, o motorista, o policial, o eletricista, dos quais basicamente precisamos. Mesmo os discursos da ciência aplicada (por exemplo, um artigo de medicina numa revista especializada ou uma palestra sobre economia), da arte aplicada (um comercial de televisão, o design de um produto), da religião aplicada (um ritual de cura espiritual ou de comunicação com os mortos) ou do esporte aplicado (uma sessão de condicionamento físico para entrar em forma) servem para fins pragmáticos, como livrar da dor, proporcionar ou manter a saúde, melhorar a qualidade de vida, facilitar o trabalho, aumentar a produtividade, vender bens, confortar o espírito, e assim por diante. Em resumo, solucionar problemas. Portanto, a diferença entre as práticas utilitárias, aí incluída a cultura aplicada, e as práticas da esfera da cultura pura é a diferença entre o útil e o agradável.

É claro que, ao contrário do esporte, a ciência, a arte e a religião puras não são simples formas de “diversão”, embora o aspecto lúdico dessas práticas não esteja excluído; elas são, acima de tudo, maneiras de explicar e de entender o mundo, filtros através dos quais o homem interpreta a sua existência e a da realidade que o cerca. Por isso, muito mais do que simples divertimento sensorial, intelectual ou espiritual, a arte, a ciência e a religião procuram abrir a mente humana para novos horizontes, fazer com que vejamos o nosso mundo com outros olhos, sobretudo com uma visão ampliada. Na verdade, um espetáculo esportivo também pode proporcionar ampliação de horizontes, por meio da idéia da superação de limites: todo evento esportivo é, na verdade, a representação simbólica de um combate, quer entre homens, quer entre o homem e a natureza; entretanto, não tratarei desse assunto aqui.

Evidentemente, cada uma dessas três práticas culturais faz essa “leitura do mundo” de modo diferente, e é exatamente isso o que permite estabelecer fronteiras entre elas. Um outro aspecto peculiar das atividades culturais é a sua unidade na pluralidade: existem várias ciências, várias artes, várias religiões e esportes. E, no entanto, todas as ciências têm algo em comum que nos permite reconhecê-las, todas, como ciências e não como qualquer outro tipo de prática. O mesmo raciocínio vale para as outras três formas de cultura. Esse aspecto plural das práticas culturais normalmente é enriquecedor para o público ao qual se destinam. Afinal, quem gosta de arte geralmente aprecia mais de um tipo de arte; quem se interessa por ciência certamente se interessa por mais de um ramo de conhecimento, e quem é aficionado por esportes costuma acompanhar vários deles. No entanto, o mesmo não costuma ser válido para a religião, e isso se deve à não separação entre o “útil” e o “agradável” (em termos rigorosos, entre o pragmático e o hedônico) nos discursos religiosos. Não costuma haver conflito entre ciências diferentes (normalmente, o conflito se dá entre posições científicas dentro de uma mesma ciência, mas isso faz parte do próprio debate de idéias que caracteriza a produção do conhecimento) nem entre artes diferentes, nem mesmo entre esportes distintos (assim como na ciência, no esporte o conflito, isto é, a competição e a rivalidade, ocorre dentro de cada modalidade esportiva e não entre modalidades). Já na religião, a rivalidade se estabelece entre os diversos credos, muitas vezes chegando às raias do preconceito e mesmo da agressão. Por que isso acontece é o que tentarei explicar a partir de agora.

A ciência, a arte e a religião podem ser definidas segundo o modo como realizam a leitura de mundo a que me referi mais acima. Embora haja vários parâmetros em que essas práticas se distinguem, elegerei aqui quatro principais, que nos permitem identificar o modo de ler o mundo de cada uma. São eles: a atitude cognitiva, o código semiótico, o objeto de análise e o modelo de realidade.

A atitude cognitiva é o processo de interação com a realidade que cada atividade privilegia. Esses processos, tais como definidos por Carl Jung, são quatro: a sensação, a intuição (processos de percepção, ou de captação de informações pela mente), a razão e a emoção (processos de julgamento, ou de processamento das informações captadas). A ciência estuda a realidade imanente (ou realidade física), seja ela natural ou social, a partir da observação e da análise lógica dessa realidade, construindo modelos teóricos que são representações simbólicas do real percebido. Ela parte da percepção sensorial da realidade (aísthesis), analisa o resultado dessa experiência sensorial pelo crivo da razão e da lógica (lógos) para formular suposições e conjeturas sobre essa realidade (hypóthesis), que são as teorias científicas. Sua atitude cognitiva é, pois, sensorial-racional.

A arte também percebe a realidade sensorialmente (aísthesis) e, usando de recursos materiais e de um critério de seleção subjetivo, baseado na emoção (páthos), cria um simulacro dessa realidade (o que chamamos de ficção e Aristóteles, em sua Poética, chamou de mímesis). A arte também visa a provocar no espectador sensações e sentimentos. Assim, sua atitude cognitiva é sensorial-emocional.

Já a religião procura descrever e explicar a realidade transcendente (ou metafísica), e a partir dela a realidade imanente, por meio da intuição, mediante um mergulho no inconsciente para vislumbrar aspectos mais sutis da realidade, muitas vezes fazendo uso de estados alterados de consciência, de que resultam momentos de transe ou de epifania (écstasis). Dessa “união com o Todo da Existência” ou “visão da face de Deus”, proporcionada por esse estado de graça, e filtrada igualmente pela emoção (páthos) — neste caso, o sentimento de comunhão com a divindade —, nasce a Verdade revelada, ou seja, a doutrina (dógma), e, a partir dela, fatos reais ou fictícios são transformados em narrativas míticas (mýthos). A religião é, portanto, intuitivo-emocional.

Quanto ao código semiótico, isto é, a linguagem, entendida como sistema de signos verbais ou não-verbais em que o discurso é transmitido ao público, todas as ciências e todas as religiões se valem principalmente da linguagem verbal, ou seja, da palavra, oral ou escrita. Secundariamente podemos ter imagens (por exemplo, os gráficos e ilustrações nos livros de ciência ou os ícones da religião), sons (sobretudo a música nos ritos religiosos) e mesmo linguagem audiovisual, como nos documentários científicos da TV. Já cada forma de arte se caracteriza por um diferente código. Por exemplo, a literatura e a poesia usam a palavra; a música, o som; as artes plásticas, a imagem; a dança e a mímica, o gesto; o teatro e o cinema, a linguagem audiovisual (palavra, imagem, som e gesto em simbiose), e assim por diante.

O objeto de análise da ciência, como mencionei, é a realidade imanente, mas cada ciência se ocupa de estudar uma parte dessa realidade (por exemplo, a química estuda a composição da matéria; a astronomia, o movimento dos astros; a sociologia, o comportamento das sociedades). Todas as artes têm a prerrogativa de analisar — e imitar — o todo da realidade: seu objeto de análise não é compartimentado. Por isso, uma mesma questão existencial (seja o adultério ou a Proclamação da República) pode ser tema igualmente de um romance, de um filme, de uma pintura, de uma escultura, etc. De modo análogo, as diversas religiões se ocupam da totalidade do real. Tudo o que diz respeito à existência, material ou espiritual, imanente ou transcendente, pode ser objeto do discurso religioso.

Já o modelo de realidade é a construção simbólica e, portanto, abstrata, de existência puramente mental, que cada forma de cultura cria para analisar seu objeto. É uma espécie de ponto de vista particular segundo o qual o objeto é visto, uma representação mental do objeto que enfoca certos aspectos em detrimento de outros. Na ciência, os modelos de realidade são chamados de teorias; na arte, temos os estilos; na religião, as doutrinas.

Visto que em todas as ciências a atitude cognitiva e o código semiótico são os mesmos, o que distingue as várias especialidades científicas são, em primeiro lugar, os objetos de estudo e, em segundo, os pontos de vista que descrevem e explicam esses objetos. Cada ciência estuda um objeto diferente sob uma perspectiva igualmente diferente. Assim, a teoria de Freud é muito importante para a psicanálise, mas é completamente inútil à matemática ou à geologia. É verdade que há certas teorias que transcendem o domínio de uma ciência e se mostram aplicáveis a vários campos do conhecimento. Mas o que dá identidade a cada ramo do saber é o objeto estudado. Por isso, não há conflito entre ciências: uma ciência não interfere no objeto nem na teoria de outra ciência — e se isso acontecer, haverá contribuições mútuas entre os saberes envolvidos. Além disso, como cada ciência estuda uma parte do todo (e as partes às vezes se interpenetram), mas todas utilizam o mesmo método científico, é natural que as visões das partes sejam congruentes entre si e, quando juntas para reconstituir o todo, produzam um conjunto coerente ou que tende à coerência. É o que se costuma chamar de interdisciplinaridade.

As artes podem todas falar sobre o mesmo objeto. Embora haja estilos artísticos que perpassam todas as formas de arte (por exemplo, o barroco ou o pop), o ponto de vista sobre o objeto (isto é, o modo como o artista vê o objeto que procura representar) será sempre pessoal e subjetivo. A última ceia de Tintoretto não é nem mais nem menos verdadeira que a de Da Vinci. Pode-se dizer que os objetos das pinturas de Tintoretto e Da Vinci são diferentes. Ambas são representações ficcionais e extremamente pessoais de um fato histórico. Nenhuma das duas é totalmente fiel à realidade, mas nenhuma das duas está obrigada a ser fiel à realidade, afinal não é esse o papel da arte. Ela não tem qualquer compromisso com o real, é pura fantasia, mesmo quando o tema possa ser verídico. E é exatamente isso que a torna bela. É por isso também que as obras de arte não conflitam, muito menos obras pertencentes a artes diversas. Porque tanto os códigos quanto os objetos e os pontos de vista são diferentes. Aliás, as diferentes artes costumam freqüentemente entrar em simbiose, seja no teatro, no cinema ou nas performances multimidiáticas.

E as religiões? Como vimos, todas elas têm a mesma atitude cognitiva e utilizam os mesmos códigos. Além disso, todas elas se propõem explicar o mesmo objeto, ou seja, a totalidade da existência, incluindo um suposto plano transcendente, que afirmam existir. As religiões diferem basicamente em seus modelos de realidade, ou seja, em suas doutrinas. Cada religião propõe uma explicação diferente para a mesma realidade, e cada uma delas sustenta que a sua explicação é a verdadeira, já que é fruto de uma revelação. É exatamente essa a raiz do conflito. Na medida em que cada discurso religioso se fundamenta em seus próprios dogmas, e estes são supostas verdades absolutas e inquestionáveis, uma doutrina só pode ser verdadeira se as outras forem falsas. Assim, enquanto as diferentes ciências formulam diferentes hipóteses para explicar diferentes realidades, do mesmo modo como as diversas artes recriam realidades diversas por meio de linguagens diversas, as religiões pretendem explicar por meio de diferentes mitos e dogmas os mesmos fatos. E, o que é pior, esses mitos e dogmas se pretendem verdades absolutas.

A ciência é dotada do chamado “mecanismo de autocorreção”, que consiste em alterar e melhorar a teoria toda vez que um novo fato observado contradiga algum de seus aspectos. Implicitamente, a ciência reconhece que suas teorias são incompletas e precisam ser aperfeiçoadas. Nesse sentido, a ciência não pode ser acusada de mentirosa, pois, embora busque incessantemente a verdade, ela nunca assume que já a encontrou definitivamente. Analogamente, a arte tem a honestidade implícita de tornar claro a seu público que o que diz e faz é ficção. Portanto, seria igualmente incorreto acusar a arte de falaciosa, já que as pessoas buscam nela exatamente o que ela tem de falacioso, de ficcional, de ilusório. As pessoas se deixam iludir voluntariamente por alguns momentos de prazer, de abstração do tédio da realidade objetiva. Assim, a arte ilude, mas em nenhum momento engana.

Já a religião se funda em narrativas míticas de comprovação histórica muitas vezes difícil ou duvidosa, assim como em revelações vindas diretamente do plano transcendente, na voz de divindades que ninguém a não ser os “iluminados” pode ouvir. Se, enquanto a ciência lida com hipóteses e a arte, com invenções, a religião trabalha com a Verdade, e se esta é única, é óbvio que as religiões só podem ser adversárias umas das outras. Evidentemente nem todas as religiões hostilizam as demais (segundo o falecido paleontólogo norte-americano Stephen Jay Gould, a raiz da intolerância religiosa está no poder secular, isto é, político e econômico, associado a elas), mas nenhuma que eu saiba aprova que seus fiéis freqüentem os templos de outros credos e venerem outros deuses — embora no Brasil, país do sincretismo, não seja raro encontrar quem freqüente tanto a igreja católica quanto o terreiro de candomblé. (Aliás, se as religiões não exigissem fidelidade, seus seguidores não seriam chamados de “fiéis”.) É por isso que não se pode professar duas ou mais religiões ao mesmo tempo: porque um servo não pode servir a dois senhores sem ser considerado um traidor. É por isso que algumas religiões também condenam abertamente a ciência e mesmo a arte. Porque só há uma Verdade: a delas.

Curiosamente, se a doutrina religiosa se erige sobre o chamado conhecimento revelado, aquele transmitido por Deus diretamente ao místico, e se o Deus que rege o Universo é um só, então devemos concluir que Deus faz revelações diferentes e até contraditórias a cada místico? Será que Deus quer confundir os homens? Como saber qual de suas revelações é a Verdade? Será que estavam mentindo? Será que de todos os avatares religiosos só um é o mensageiro da Verdade e os demais, impostores? Mas qual?

Segundo o pensador norte-americano Ken Wilber, o conhecimento religioso provém de uma percepção não sensorial nem mental de uma realidade igualmente não material nem intelectual, a realidade transcendente, por meio daquilo que o teólogo cristão são Boaventura chamou de “olho do espírito”. Trata-se da penetração da mente num domínio ao qual estamos pouquíssimo acostumados: o domínio da consciência expandida, do chamado “quarto estado da consciência” (nem vigília, nem sono, nem sonho), no qual se vive a experiência do não-eu, da integração no Todo, enfim, uma experiência inefável de êxtase, de epifania. E, exatamente por ser inefável essa experiência, ela só pode ser vivenciada individualmente e não pode ser descrita com precisão por meio de palavras. Todavia, as palavras são o único recurso que temos para partilhar com os outros as nossas experiências interiores. Por isso, toda tentativa de traduzir em linguagem a experiência mística resulta em deturpação do conteúdo originalmente apreendido pelo místico em seu transe. Assim, embora o conhecimento transcendente adquirido por todos os místicos que atingiram esse nível de iluminação seja aparentemente o mesmo, a linguagem metafórica com que cada um deles tenta expressar esse conhecimento acaba sendo diferente. Como a maioria dos seguidores de religiões (especialmente das religiões que Wilber chama de horizontais ou exotéricas, com destaque para as três grandes tradições monoteístas) jamais atingiu nem atingirá tal estado, as inúmeras interpretações desse conhecimento — na verdade, da tradução lingüística desse conhecimento — feitas pela mente é que dão origem às diferentes “verdades” conflitantes entre si, derivadas de uma Verdade primeira que só uns poucos iniciados conseguem atingir.

Todas as atividades culturais visam à conquista e à manutenção de um público, pois disso depende a sua própria sobrevivência. Em outras palavras, o público é a razão de ser das práticas culturais. No entanto, os públicos das diferentes ciências, artes ou esportes não são mutuamente excludentes. O futebol não rouba o público do automobilismo, ou vice-versa, mas, antes, esses esportes podem compartilhar, ao menos parcialmente, o mesmo público. Isso significa que um mesmo indivíduo pode perfeitamente assistir a jogos de futebol e a corridas de fórmula um. Igualmente, o fato de alguém apreciar poesia não implica que não possa também gostar de música, artes plásticas ou cinema. Alguém que se interesse por astronomia pode também interessar-se por história ou filosofia.

Na religião, não se concebe que um mesmo indivíduo possa professar duas ou mais religiões ao mesmo tempo, já que isso implicaria a aceitação como verdade de doutrinas contraditórias entre si. Embora hoje a pluralidade religiosa seja um fato concreto nas sociedades democráticas, em que a liberdade de culto é garantida por lei, os discursos religiosos freqüentemente combatem-se uns aos outros. Basta para isso vermos a guerra ideológica lançada por certas seitas evangélicas contra a igreja católica, o candomblé, a umbanda e o espiritismo, ou observarmos os seculares conflitos opondo cristãos, judeus e muçulmanos, por exemplo. Assim, o crescimento de uma religião se faz em geral às custas de outras, pois todas disputam o mesmo público e todas buscam a exclusividade desse público como única forma de sobrevivência. O que se tem aí é, na verdade, uma disputa velada pelo poder, semelhante à disputa política ou econômica. Na religião, assim como na política ou na publicidade, não há complementaridade e sim exclusão; não há coexistência possível, apenas concorrência.

Ao longo da História, todas as civilizações já existentes se caracterizaram pela pluralidade científica, artística e esportiva, mas pela unicidade religiosa. Aliás, a religião tem sido, mais do que qualquer outro traço cultural, o próprio elemento definidor de uma civilização. Não é por outra razão que se fala em civilização hindu ou islâmica em vez de civilização indiana ou árabe. Em geral, a transposição do credo de um povo para outros faz com que os demais elementos culturais também sejam transpostos, integrando os povos convertidos numa mesma civilização. Em todas as sociedades do passado, as minorias religiosas foram perseguidas e por vezes aniquiladas pela religião oficial do Estado. Se, na sociedade atual, o princípio da tolerância conduziu a uma pluralidade religiosa, isso de modo algum eliminou a competição entre as religiões, pois o discurso religioso não admite a pluralidade ideológica, bem como não admite a reflexão crítica, o questionamento ou a subjetividade. A religião se caracteriza por um desejo de ter o monopólio da verdade. Desse modo, numa sociedade democrática como a nossa, parece que as diferentes religiões estão obrigadas a uma convivência pacífica forçada: se não houvesse garantias legais da liberdade de culto, algumas religiões rapidamente entrariam em confronto direto, tentando destruir-se umas às outras.

O fato é que a hostilidade e animosidade entre pregadores de diferentes credos estimula a hostilidade e animosidade entre seus seguidores: a rivalidade entre populações de crenças distintas sempre começa pelos líderes dessas crenças. O ecumenismo ou a simples coexistência pacífica de certas religiões é, em muitos casos, um ideal infelizmente ainda muito distante. Como diz o monge católico inglês Laurence Freeman em entrevista à revista SuperInteressante de novembro de 2002:

Todas as religiões, em sua origem, pregam o amor e a paz. Se estimulam o conflito, alguma coisa está errada. Hoje há uma grande confusão entre fé e crenças. A fé é a capacidade humana para transcender, ou seja, para estabelecer um relacionamento profundo com Deus. Cada um descreve sua experiência de fé de um jeito diferente. As crenças são justamente o modo de expressar essa fé, conforme a tradição, os costumes e a cultura. Se nos apoiamos somente nas nossas crenças e esquecemos a fé, todos aqueles que têm uma crença diferente se tornam inimigos. Daí as divisões dentro da própria Igreja e entre os diversos grupos religiosos, as inimizades, os confrontos.

Justiça seja feita às religiões cuja doutrina, fundamentalmente hedônica, prega a busca do sobrenatural, do divino, dentro de nós mesmos, a busca da felicidade e do estado de graça e não a solução de problemas materiais, como doença ou desemprego. Muito mais do que prometer saúde ou emprego, os grandes pregadores defendem certos princípios hedônicos, como o amor fraterno e universal, e procuram explicar a existência a partir de um Deus que é essencialmente Amor. Explicar a existência é, sem dúvida, tarefa da religião hedônica, ainda mais quando essa explicação se baseia num sentimento tão poético quanto o amor. Nesse ponto, tais pregadores — como Jesus e Buda — se aproximam mais dos poetas do que dos médicos e terapeutas. É a isso que eu chamo de prática religiosa hedônica: àquela que oferece aos seguidores pequenas receitas de sabedoria, extraídas às vezes de uma narrativa mítica, mas que de todo modo é sabidamente apenas metáfora, jamais realidade, muito menos Verdade. As religiões-igrejas dependem do poder e do dinheiro para se manter, dependem da ignorância cega e servil de seus fiéis, da manipulação das consciências, da falta de senso crítico, da falta de informação, do obscurantismo, do fundamentalismo e do fanatismo para existir, pois, sem esses ingredientes, é bem possível descobrirmos que o divino está mais perto de nós do que deixam ver os pregadores hipócritas e os falsos profetas.

PEQUENA RECEITA PARA UMA RELIGIÃO VERDADEIRAMENTE HEDÔNICA

Uma religião verdadeiramente hedônica (todas podem sê-lo) não exige que você acredite em deuses ou em Deus, muito menos no Deus dela. Só espera que você reconheça uma beleza e uma harmonia no Universo e se sinta um só com ele. Por sinal, uma das principais características de uma espiritualidade verdadeiramente evoluída é a superação do conceito de Deus.

Uma religião verdadeiramente hedônica é aquela que abandonou a visão ingênua de um mundo natural regido por um plano sobrenatural e, portanto, deixou a superstição e as crenças irracionais — fruto de um pensamento primitivo e pouco desenvolvido — para buscar a conexão entre as consciências individuais, a consciência coletiva e a Consciência Universal, focando a própria existência como causa de tudo e não como um efeito de uma paradoxal causa anterior a ela.

Uma religião verdadeiramente hedônica não proclama nenhum homem em particular como o Filho de Deus, pois sabe que todos os homens são filhos de Deus, isto é, da Existência. Também não coloca Deus nas alturas, pois sabe que ele está dentro de nós.

Uma religião verdadeiramente hedônica segue os ensinamentos dos profetas não porque acredita ingenuamente que eles sejam mensageiros ou enviados dos deuses, mas porque tais ensinamentos são bons e segui-los pode tornar a vida humana mais feliz.

Uma religião verdadeiramente hedônica não espera que você leia suas escrituras ao pé da letra (isso seria o primeiro passo para o fundamentalismo) nem que acredite na veracidade de seus mitos. Espera apenas que você consiga extrair deles alguma lição de sabedoria para a sua vida.

Uma religião verdadeiramente hedônica é dinâmica e, portanto, não tem, nem pode ter, dogmas, isto é, verdades eternas, mas, assim como a ciência, só pode ter verdades provisórias, já que cada nova revelação, cada novo insight pode mudar o modo como vemos o lado transcendente da existência. Se o propósito da religião pura é conhecer Deus, é tolice acreditar que um único homem, num único contato com o plano do sagrado, possa obter todas as respostas.

Uma religião verdadeiramente hedônica não exige que você seja fiel a ela e, portanto, não o proíbe de freqüentar outros templos. Pelo contrário, a religião hedônica se irmana a todos os credos em que haja alguém pregando mensagens de sabedoria e elevação espiritual.

Uma religião verdadeiramente hedônica não tem dono. Sobretudo não admite o seu monopólio por uma igreja. A ela não corresponde nenhum organismo centralizador. Não tem nenhuma forma de hierarquia, possui apenas sacerdotes ou mestres, e estes são guias na experiência mística e não donos da verdade ou defensores de artigos de fé.

Uma religião verdadeiramente hedônica pode até cobrar ingresso na porta de seu templo — como ocorre nos teatros, cinemas e ginásios esportivos, sem que isso seja imoral —, mas jamais vai condicionar a entrada no céu (até porque ela não promete isso) ao pagamento de dízimos.

Uma religião verdadeiramente hedônica não impõe regras de conduta, não estabelece deveres ou obrigações, não diz o que você pode ou não pode fazer, não exige sacrifícios ou penitências nem proíbe certos alimentos, bebidas ou atitudes. Uma religião verdadeiramente hedônica não é um código de ética e muito menos um código penal.

Uma religião verdadeiramente hedônica não promete resolver seus problemas sentimentais, familiares, financeiros ou de saúde. Ela não promete o paraíso ou outra vida, não promete fartura material nem opera milagres. Tudo que ela pode oferecer é ajuda para encontrar o caminho do autoconhecimento e da iluminação espiritual.

Uma religião verdadeiramente hedônica não afirma a existência de vida após a morte (embora tampouco a negue), apenas procura mostrar que a morte é um evento natural que, como tal, deve ser encarado com naturalidade.

Uma religião verdadeiramente hedônica não possui o monopólio da Verdade, mas apenas transmite pequenas doses de sabedoria, às vezes metafórica, às vezes literalmente, mas respeita a verdade e a crença de cada um.

Uma religião verdadeiramente hedônica não procura competir com outras religiões ou com outras formas de saber. Ela não procura desacreditar a ciência ou a arte, mas, antes, sabe que todas as formas de conhecimento são complementares e que, sem cada uma delas, o ser humano não é completo. Sabe, sobretudo, que todas as formas de cultura procuram mostrar a mesma coisa, embora por métodos e linguagens diferentes: o grande fascínio da existência.

Uma religião verdadeiramente hedônica busca e cultiva a espiritualidade pura, sem misturá-la às questões materiais. Ela não tem a pretensão de competir com a ciência na explicação da realidade imanente e, por isso, não sustenta como verdades os seus mitos de Criação, porque sabe que todas as “explicações” míticas acabam, cedo ou tarde, sendo derrubadas pela ciência. Essa religião está muito mais ocupada com o sentimento de reverência do ser humano pelo mistério, isto é, pelas perguntas, do que pelas possíveis respostas.

Uma religião verdadeiramente hedônica não propõe a busca da realidade transcendente porque ela realmente exista, mas porque buscá-la é bom e prazeroso, mesmo que ela não passe de uma mera ilusão produzida por nossos neurônios.

Enfim, uma religião verdadeiramente hedônica só busca o prazer espiritual, nada mais. Não é lugar para quem está perdido, mas para quem já se encontrou.

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