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LINGÜÍSTICA: CIÊNCIA EXATA? |
As
ciências naturais costumam ser consideradas “exatas”
porque, em geral, os fenômenos da natureza obedecem a leis bem
precisas, que podem ser descritas matematicamente e permitem fazer
previsões sobre acontecimentos futuros ou hipotéticos.
Já as ciências humanas têm a fama de estudar fenômenos
que, pela sua própria natureza, fogem à regularidade.
É possível prever com exatidão a posição
em que uma nave espacial lançada hoje estará daqui a
um ano ou daqui a dez anos, mas não é possível
prever com o mesmo grau de acerto quem será o próximo
presidente da república ou qual será a taxa de inflação
do próximo ano. Por isso, as ciências humanas costumam
ser vistas pelos admiradores das ciências naturais até
com certo desprezo, chegando alguns mesmo a pôr em dúvida
se elas são realmente ciências. Embora haja forte dose
de exagero e de preconceito nessa avaliação, é
verdade que as criações humanas em geral não
têm o mesmo grau de perfeição e de regularidade
das criações da natureza. No entanto, existe uma criação
humana que possui uma lógica e uma regularidade tais que permitem
até a sua descrição em termos matemáticos:
são as línguas.
De fato, talvez por ser a aptidão lingüística do
homem fruto de instinto biológico, isto é, resultado
de uma programação genética, a linguagem humana
possui uma estrutura bastante complexa e exata (ainda que a nossa
impressão ao estudarmos a gramática de qualquer idioma,
particularmente o nosso, seja a de um completo caos!). Na verdade,
todos os fenômenos lingüísticos, desde a combinação
de fonemas para formar sílabas e morfemas, passando pela combinação
dos morfemas para formar palavras, até a combinação
destas para formar frases e das frases para formar textos, obedecem
a regras bem precisas e absolutamente previsíveis. Até
mesmo as exceções, que parecem existir apenas para complicar
a nossa vida, podem ser explicadas de forma determinística.
Vou explicar tomando um exemplo das ciências exatas. Nós
aprendemos no colégio que as órbitas dos planetas são
perfeitamente elípticas, já que são governadas
pelas leis da mecânica celeste (as famosas leis de Kepler e
de Newton). No entanto, se observarmos atentamente a órbita
dos planetas, veremos que em certos trechos de suas órbitas
eles parecem se desviar um pouco da trajetória que seria esperada.
Toda vez que um astrônomo percebe esse fenômeno, ele tem
fortes razões para acreditar que o desvio esteja sendo provocado
pela presença de algum corpo celeste cuja massa exerce atração
gravitacional sobre o astro cuja trajetória apresenta irregularidade.
Foi assim que, no século XIX, os astrônomos Le Verrier
e Pickering, dentre outros, observando irregularidades nas órbitas
de Urano e Netuno, previram a existência de um novo planeta,
batizado de Plutão, que somente foi observado em 1930. Assim,
a aparente irregularidade nas órbitas dos planetas pôde
ser explicada pelas mesmas leis que deveriam determinar sua regularidade.
No caso das línguas, quase sempre uma irregularidade se explica
por força de alguma analogia. Por exemplo, um verbo pode apresentar
uma conjugação irregular por analogia com outro verbo,
com o qual possua similaridade de significado. É o caso do
português impeço, proveniente do latim impedio,
por analogia com peço, do latim, petio, com
o qual não tem nenhuma relação etimológica.
Outras vezes, a irregularidade é fruto da evolução
fonética, que é sempre regular, isto é, os mesmos
sons sofrem as mesmas modificações nos mesmos contextos.
Por que o verbo dizer se conjuga digo/dizes/diz e não dizo/dizes/diz, como seria
mais lógico à primeira vista? Porque entre duas vogais
o c do latim evoluiu para o português como g
se a vogal seguinte era a, o ou u e como
z se a vogal seguinte era e ou i. A razão
disso é puramente articulatória: e e i são vogais palatais, que obrigavam o c latino a ser
pronunciado “mais para frente”. Assim, o c do
verbo latino dicere, “dizer”, manteve a pronúncia
original k diante de o, e por isso dico
(pronunciado diko) evoluiu para digo em português.
Já diante de e e i, esse mesmo c teve sua pronúncia progressivamente palatalizada para ky,
ty, tch, ts, dz e z.
Foi assim que dicis e dicere se tornaram dizes
e dizer.
Em outros casos, o português regularizou por analogia formas
que em latim eram irregulares. Em latim, o particípio de coquere, “cozer”, era coctum, que em português medieval
deu couto. O português moderno substituiu couto
por cozido, forma regular, por analogia com comer/comido,
beber/bebido, etc.
Como podemos ver, o aparente caos da gramática esconde uma
lógica interna que, assim como o movimento dos planetas, obedece
a leis bem determinadas. É claro que essas leis não
são evidentes a quem não é estudioso da língua,
como os lingüistas, assim como a lógica do movimento planetário
não é evidente a quem não é astrônomo.
No entanto, o estudo científico da linguagem, tarefa da lingüística,
nos revela que as línguas são sempre construções
dotadas de lógica (embora não necessariamente a lógica
com que estamos acostumados). Na verdade, cada língua possui
sua própria lógica interna, e essa lógica varia
de língua para língua, o que, por sinal, garante a riqueza
de visões de mundo que as inúmeras línguas humanas
proporcionam. A possibilidade de descrever o comportamento das línguas
através de teorias que utilizam a matemática como metalinguagem
é o que permite inclusive a análise de enunciados e
de textos por meio de programas de computador e, mais ainda, possibilita
dotar os computadores da capacidade de compreender e produzir enunciados,
isto é, de codificar e decodificar mensagens, a chamada inteligência
artificial. Mas isso é assunto para outro artigo.
É por ser capaz de tratar seu objeto de estudo com tanta exatidão
que a lingüística já foi considerada por alguns
uma ciência exata. É claro que ela faz parte das ciências
humanas porque as línguas são criações
humanas, embora, como eu disse, a aptidão para a linguagem
seja de índole natural.